quarta-feira, maio 12, 2004

As assustadoras máfias de leste

Não resisto a reproduzir na íntegra um e-mail que me chegou hoje, daqueles aos quais alguém faz forward para um grupo seleccionado de endereços e que assim se propaga de uma forma bem mais eficaz que qualquer vírus: selectivamente.

“AVISO DA PSP

Máfias de Leste

No outro dia, 10 indivíduos deram um concerto de Musica sinfónica em apoio aos emigrantes de leste no teatro Gil Vicente em Coimbra.
Depois de se apagarem as luzes para se dar inicio ao concerto, um deles sacou de uma metralhadora, enquanto os outros faziam a colecta dos bens e dinheiro transportado pelos espectadores.
Acabado o trabalho, fugiram pelos bastidores.
Alertadas as autoridades, qual não foi o espanto ao saber-se que este grupo tem dado concertos semelhantes noutras cidades de província com o mesmo resultado.
Aconteceu na semana passada na Avenida Marechal Gomes da Costa no Porto em plena luz do dia. Seriam umas 15:30. Um sujeito ao parar nos semáforos foi abordado por um indivíduo de Leste, daqueles que costumam andar a tocar acordeão ou violino.
O indivíduo tinha um ar simpático e abeirou-se dele a tocar o tal acordeão. Ele decidiu dar-lhe 50 cêntimos, abriu o vidro e quando lhe estendeu a mão com a moeda, o individuo puxou-a violentamente e apontou-lhe imediatamente uma faca ao pescoço e obrigou-o a dar o telemóvel e a carteira, que continha na altura cerca de 250 euros, pondo-se imediatamente em fuga.
Nenhum dos condutores dos carros a volta se apercebeu ou fez qualquer coisa para o ajudar.
O meu amigo dirigiu-se imediatamente a uma esquadra da polícia e contou o sucedido, onde, para espanto dele, foi informado de que já não era a primeira vez que isto acontecia, que já tinham cerca de 10 queixas de igual procedimento.
Penso tratar-se de uma rede organizada que também opera em Lisboa, de pedintes profissionais.
Se reparar bem, a maior parte deles nem sabe tocar devidamente o instrumento, servindo-se dele como método de abordagem para posteriormente assaltar o incauto condutor.
Esta rede também se dedica ao tráfico de crianças e roubo de bebes.
Em Espanha já houve algumas queixas que estes indivíduos de Leste roubaram bebes do banco traseiro dos carros.
Enquanto um toca ao lado do condutor, um cúmplice vai por trás e rouba a criança, vendendo-as depois para pais que desejem adoptar noutros países.
Passem este E-mail ao maior número de amigos e conhecidos e futuramente, tenham cuidado com estes indivíduos.
Tranquem sempre as portas e fechem os vidros quando eles se aproximarem e desconfiem do aspecto simpático, pois normalmente são perigosos criminosos.
Divulguem este E-mail o mais que puderem e ajudem a combater esta praga, porque amanhã pode ser um de nós.

Tenente António Santos Alonso
Comando Central da PSP Porto
”

Não sei se este apelo à vigilância popular tem algum fundo real ou não. Fiz uma pequena pesquisa à procura de notícias de qualquer dos acontecimentos descritos, mas não encontrei nenhum e convenhamos que um assalto colectivo de metralhadora em punho seria algo improvável de escapar aos meios de comunicação social.
Por isso suponho que seja inventado. Mas parece-me muito bem inventado. Tão bem inventado que quase podia ser verdadeiro... Achei sobretudo delicioso o detalhe de ser considerado agravante dos crimes cometidos o facto de os assaltantes nem saberem “tocar devidamente o instrumento”.

segunda-feira, abril 26, 2004

Exemplo democrático

A posição do PP a propósito da condecoração de Isabel do Carmo, recusando-se a comparecer na cerimónia, é compreensível e até aceitável. É coerente com o discurso do partido, manifesta uma posição sem afrontar as instituições e tem fundamentos para reflexão.
Depois do 11 de Setembro, do atentado que vitimou Sérgio Vieira de Mello e das explosões de Madrid, a sensibilidade europeia ocidental face ao terrorismo mudou sensivelmente. Se já antes a frequência verdadeiramente assustadora com que explodiam os autocarros cheios de israelitas causava perplexidade a qualquer espírito não alinhado ideologicamente, agora é ainda maior o número de pessoas que compreendem porque razão existe terrorismo mas não o consideram legítimo. É verdade que Yasser Arafat continua a gozar de grande prestígio, mas mais pelo seu passado do que pelo seu presente, mais como representante de um povo martirizado a caminho do ocaso político do que como efectivo líder do movimento. Os efectivos terroristas, esses não recebem da opinião pública ocidental, em particular dos seus intelectuais, o mesmo grau de simpatia de que muitos terroristas beneficiaram no passado.
O clima político favorece, portanto, posições anti-terroristas e o PP foi inteligente ao percebê-lo. Mas, mais do que uma mera manobra de aproveitamento político, a decisão de não comparecer à cerimónia de atribuição das comendas como forma de protesto contra o elogio público de Isabel do Carmo parece genuína e é sem dúvida coerente com as posições recentes do partido e mesmo com a sua história.
Mas igualmente coerente foi o presidente Jorge Sampaio. Sampaio foi eleito com base num programa presidencial de esquerda (tão de esquerda quanto o pode ser um programa presidencial, obviamente com muitas ideias e poucas propostas de acção) e pôs a sufrágio – como qualquer candidato a presidente – o seu passado político, como se sabe recheado de posições pessoais corajosas e cheias de implicações práticas em defesa de valores que Isabel do Carmo partilha e a referida comenda se destina a premiar. Por isso, mesmo que não fosse previsível, a atribuição da Ordem da Liberdade a Isabel do Carmo era plausível. Não seria fácil de prever mas seria fácil de conceber atendendo ao que é a história política de Sampaio e as suas posições recentes.
Temos portanto uma reacção séria e legítima de um partido político, fundada nos valores que defende, à posição igualmente séria e legitima de um Presidente da República, em coerência com os princípios que defende e em nome dos quais foi eleito. As duas entidades tiveram portanto bem neste processo e deram ambas um exemplo de boa política, a contrastar com os muitos de sentido contrário que diariamente nos desiludem.
Mas a cereja no bolo veio da própria Isabel do Carmo que, quando confrontada com a recusa do PP em participar na cerimónia, considerou que essa recusa tinha «significado» e disse que já esperava esta reacção dos «partidos de direita para os quais a minha pessoa deve ser insuportável de facto. E oxalá que seja!». Nada mais claro portanto: a extrema-direita onde deve estar, a extrema-esquerda nos seus antípodas e o Presidente no cumprimento do seu programa eleitoral. Todos em respeito uns pelos outros e ao sistema democrático que lhes enquadra o discurso e a acção política. O acontecimento não é grandiloquente, mas a acção das partes foi-o.

quinta-feira, abril 22, 2004

Tudo o que se diz...

A capa do Record de hoje passa certamente a constituir mais uma página para a história do mau jornalismo em Portugal. O título garrafal diz simplesmente isto a propósito de Valentim Loureiro: «Tudo o que se diz que ele fez». Tudo o que «se diz»? Há alguma confirmação (já nem peço duas…) para o que «se diz»? Corresponde «o que se diz» a alguma acusação ou alguma denúncia imputável a alguém? Claro que não. «O que se diz» é simplesmente tudo aquilo de que os editores do jornal tomarem conhecimento e que achem suficientemente interessante para publicar. Independentemente de ter ou não ter qualquer tipo de confirmação. Não vi em detalhe o conteúdo do jornal, mas imagino que corresponde ao que é anunciado na primeira página.
Então pergunto: o que me impede a mim de, para prejudicar alguém ou por simples gozo, telefonar anonimamente para o jornal a dizer que também fui aliciado pelo suspeito A ou B para influenciar a classificação do árbitro X em função de um seu «serviço» no jogo Y. Se a montagem fosse minimamente credível e estivessem em causa clubes sonantes, seriam os mesmos editores que seguem esta política informativa capazes de resistir a publicar a informação ao abrigo do critério de «o que se diz».
Publicar «o que se diz» contraria todas as regras do jornalismo e coloca o órgão informativo que o faz à mercê de todo o tipo de imprecisões e manipulações. E não é por acontecer num jornal desportivo que esta primeira página deve merecer menos o nosso repúdio do que mereceria se acontecesse no Público ou no Diário de Notícias. Ou será que, tal como o futebol na sociedade, também o jornalismo desportivo é um mundo à parte do restante jornalismo? Será que não é também composto por jornalistas encartados? Será que não tem por missão transmitir informações fidedignas sobre as matérias que aborda? Talvez muitas pessoas achem que o assunto é de somenos porque estamos a falar de jornalismo desportivo, mas isso é um erro. É um erro correntemente repetido, mas não deixa de ser um erro. Primeiro porque, como todo o jornalismo, também o jornalismo desportivo contribui para a formação da opinião das pessoas sobre a actualidade; e, como toda a comunicação social, também aquilo que publicam os jornais desportivos serve para moldar o nosso entendimento da via em sociedade. E o que uma primeira página como esta diz a uns largos milhares de pessoas (tomara o Público ou o DN…) – tal como muitas outras capas que a imprensa desportiva publica com numa preocupante regularidade – é que não se pode confiar nos jornais. Desportivos ou não desportivos. Ou seja, uma primeira página como esta presta um mau serviço ao jornalismo, mas, sobretudo, presta um mau serviço à sociedade.

quarta-feira, abril 21, 2004

Justiça à americana

A propósito da notícia de que as crianças sexualmente molestadas dos Açores tinham desistido das respectivas queixasa troco de dinheiro, preocupa-me que o responsável pelo organismo de ética da Ordem dos Advogados tenha dito na TSF que considerava essa solução aceitável, desde que fosse uma decisão informada e devidamente mediada por uma negociação entre os advogados. Obviamente, tal posição pretende antes de tudo, preservar a posição dos advogados, como convém a um representante de classe e isso nada tem de pernicioso. A haver uma negociação, ela deve ser informada e negociada pelos advogados. Nada mais natural, portanto.
Mas esta tomada de posição também tem subjacente, na minha opinião, uma visão do sistema de justiça com a qual eu não concordo. Não sou jurista, mas como cidadão parece-me que o conceito de indemnização faz sentido num processo cível, mas não faz o mesmo sentido, ou pelo menos não tem o mesmo valor, num processo criminal. Num processo cível repara-se um dano, num processo criminal pune-se um crime. Neste caso a indemnização é uma sanção apenas acessória e a sanção essencial é a punição do criminoso. E não interessa aqui se se trata de crimes públicos, semi-públicos ou privados. Isso só interessa do ponto de vista de quem pode acusar, não do ponto de vista de como o processo é resolvido.
Parece-me, e é isso que mais me preocupa, que a posição do referido dirigente da Ordem dos Advogados se inscreve numa tendência de aproximação da nossa maneira de operar a justiça à forma como isso é feito no sistema de justiça norte-americano. A justiça norte-americana é certamente a mais eficaz do mundo civilizado. Os processos são céleres, as negociações são abundantes e altamente profissionais, reservando espaço e tempo judicial para os casos que realmente dele necessitam. Mas, como europeu, o sistema de justiça norte-americano causa-me algumas reservas, basicamente porque leva os mecanismos que o tornam eficaz muito perto de atingirem os valores que sustentam os princípios do sistema de justiça. Ultrapassam-nos algumas vezes, mas sobretudo forçam-nos muitas vezes. Como europeu custa-me a aceitar. Uma solução como a proposta, que corresponde basicamente a um mecanismo de «pagar para calar», deixa sempre um travo amargo a injustiça, mesmo que seja para preservar um interesse público entendido como superior, o que no caso em concreto é aliás difícil de aceitar.
Num outro nível mas seguindo o mesmo raciocínio, a negociação que perdoa a um arguido alguns dos numerosos crimes que lhe são imputados para se poder acusar outros arguidos, se calhar menos «criminosos» mas mais poderosos ou colocados mais acima na escala hierárquica do crime, também belisca o mesmo princípio da justiça criminal. Todos percebemos que é muito mais eficaz assim, mas causa algum desconforto pensar que um indivíduo que é responsável por crimes graves seja aliviado da responsabilidade criminal pelos mesmos para condenar outros. Essa é uma situação injusta primeiro que tudo para as vítimas do primeiro criminoso, obviamente, mas que estende esse sentimento de injustiça a toda a comunidade.
Pode-se argumentar que essa negociação deve ser a excepção e não a regra. Mas uma vez aberto o precedente, ela tende inevitavelmente a tornar-se a regra e não a excepção, uma vez que os acusadores não resistem a uma meio tão expedido de alargar o número de acusações, o principal indicador da sua própria eficácia, mais do que as próprias condenações.
Pegando num exemplo prático, se estivéssemos nos EUA, um criminoso como Bibi decerto já teria feito uma negociação (como se anuncia que pode vir a fazer) permitindo ilibá-lo de algumas das penas que lhe seriam devidas por troca com a colaboração com a justiça na acusação a outros arguidos «mais importantes» mas provavelmente menos prevaricadores. Mas é por esse ser um recurso tão frequente nos EUA que ele se torna banal e se converte muitas vezes na primeira opção, o que, se é verdade que resolve os casos de uma forma mais simples e mais rápida, não é menos verdade que acaba por deixar impunes criminosos muitas vezes mais assustadores do que aqueles que permite apanhar. A justiça é mais eficiente porque reduz a impunidade mas é menos justa porque reduz penas a quem as merecia cumprir. E, afinal, a «justiça» deve ser o primeiro valor que o sistema deve preservar.
Decerto o representante da Ordem dos Advogados anteriormente aludido também defende uma negociação neste caso, e pelas mesmíssimas razões que o fez no primeiro. Mas se nos EUA isso não causa incómodo, acho que na Europa – e particularmente em Portugal no que se refere a Bibi e ao caso Casa Pia – uma solução desse género deixaria um travo amargo a injustiça. O que tem que ver com o facto de o apego aos valores e à sua preservação ser mais forte na Europa do que nos EUA. Há aqui matrizes culturais que nos distinguem, que devemos preservar e que devem enformar o modo como lidamos com a aplicação da justiça.

domingo, abril 18, 2004

Teste de sanidade social

Ontem, quando alguém a meu lado folheava uma revista do «social», por um mero acaso pus-me a reparar que página após página, não conhecia nenhuma das pessoas que eram objecto das mesmas: modelos, actores ou actrizes de televisão, modistas, ex-participantes em concursos, etc. E isso levou-me a pensar neste modo original de medir a nossa sanidade social.
Recuando há não mais de um ano atrás, recordo o assombro com que detectava o meu próprio conhecimento acerca de um conjunto de gente que ocupava as páginas do «social» e à qual eu não reconhecia nenhum mérito especial para merecer essa atenção. E, em parte, esse conhecimento resultava do facto de as pessoas retratadas nesses artigos serem frequente objectos de conversa: ao almoço, no emprego, nos transportes, etc. Pareciam estar por toda a parte, impondo-se-me como se independentemente da minha vontade. Não chegaria ao ponto de considerar a sua recusa anti-social, mas não anvada longe de o ser.
Mas agora, passo os olhos por um exemplar ao acaso de uma revista do «social» e já quase não conheço ninguém. O que me deixa sinceramente empolgado. Como se as coisas assumissem o seu curso natural. É perfeitamente natural que eu não conheça uma pessoa que participou num concurso televisivo há uns meses atrás e hoje faz não sei bem o quê no mundo da moda. Esse desconhecimento faz-me sentir bem comigo próprio, tal como dantes o conhecimento que tinha de pessoas que não sabia porque razão conhecia me fazia sentir incomodado.
A nossa sanidade mental está em causa quando a nossa auto-imagem não é coerente com aquilo que somos ou com o nosso comportamento. Do mesmo modo, a nossa sanidade social está afectada quando as nossas ligações sociais, directas ou mediadas pela comunicação social, não estão de acordo com o que realmente achamos que é importante. Não está aqui subjacente nenhum juízo de valor do género «eu estou certo, o tipo que se interessa pelo ex-concorrente do Big Brother está errado». Não se trata disso. Trata-se simplesmente de manter a coerência entre aquilo (e as pessoas) que achamos importantes e aquilo (e as pessoas) com que nos ligamos socialmente. E, no meu caso, particular, descobrir que passo folhas várias de uma revista do «social» antes de descobrir alguém que eu conheça, revela, em primeiro lugar, que não conheço as pessoas que realmente não me interessa conhecer; e indicia, em segundo lugar, que tenho estado a ocupar o meu tempo social com coisas bem mais importantes do que aquelas que para mim não têm qualquer importância.
Daí que me atreva a propor este exercício de teor estatístico para avaliar a sanidade social de quem se interessa por aquilo que realmente é importante: reunir três revistas do «social», de preferência da mesma semana (tipo Caras, Vip e Nova Gente), e folheá-las anotando o número de «figuras públicas» que conhecemos. E depois repetir o exercício uns meses depois. Se esse número diminuir, e porque estamos no bom caminho.

Outra vez Saramago

Já comecei a ler romances de Saramago umas quantas vezes, mas apenas uma ou duas consegui acabá-los com um mínimo de interesse. Na verdade carreguei essa aparente impossibilidade de me ligar enquanto leitor com o mais famoso dos nossos escritores actuais com algum desconforto. Mas recentemente tenho vindo a descobrir que estou longe de ser o único e até me parece que somos mais os que não lemos Saramago do que os que o lêem com prazer. Isso deu-me coragem «to come out of the closet». Hoje em dia são certamente aqueles que se deliciam com Saramago que estão «in closet», cada vez menos à vontade para «confessarem» publicamente as suas preferências. O que constitui uma imensa ironia e um enorme ingratidão para com o próprio Saramago.
Goste-se ou não da escrita de Saramago – e eu incluo-me no segundo grupo – ele é o mais elevado vulto da literatura portuguesa actual e um dos maiores que alguma vez houve. Quando falamos de Saramago, falamos de um dos dois portugueses alguma vez laureados com um prémio Nobel e o único em Literatura. E falamos do português mais lido em todo o mundo. Não temos nenhum músico, pintor ou realizador cinematográfico com o mesmo grau de projecção internacional na sua área. Mesmo olhando para a o desporto, onde o grau de projecção é muito mais facilmente mensurável em títulos, temos somente dois campeões olímpicos e o inevitável Luís Figo.
Por isso, goste-se ou não da sua escrita, goste-se ou não das suas ideias políticas, Saramago deve ser respeitado. Para dar apenas alguns exemplos, não me parece elegante dizer, como Manuel António Pina «Até eu, pouco entusiasta de prosa sem pontuação, cheguei a pensar comprar o livro» (sublinhado meu), mesmo que seja numa crónica que no essencial estranha este corrupio à volta do último romance de Saramago, afinal apenas mais um romance. Também não me parece correcta a forma como ouvi Pacheco Pereira desvalorizar a instituição do Nobel, obviamente, todos o percebemos, porque Saramago o venceu. Por fim parece-me ainda mais criticável, dizer, como faz Pulido Valente, que «No fundo, no fundo, o nosso homem deve o seu Nobel à providencial burrice do pobre Sousa Lara. Infelizmente, em vez de agradecer, continuou «zangado» com o país, que por ínvios caminhos tão bem o tratara (…). Saramago vai ganhar com isto o patrocínio oficial para a sua beatificação literária.» Então Saramago deve ser responsabilizado por ter sido censurado há 12 anos, como se isso fizesse parte de um elaborado plano para vender mais livros? Podemos ler ou não ler Saramago, podemos concordar ou não com as suas ideias políticas, mas não devemos deixar as nossas discordâncias estéticas ou políticas toldar-nos o bom senso. Como manifestamente aconteceu com Pacheco Pereira e Vasco Pulido Valente.

sábado, abril 17, 2004

Voto em branco

No âmbito da polémica criada a propósito do mais recente romance de José Saramago houve opiniões e tomadas de posição que claramente misturaram coisas que não deveriam ser misturadas e assim tornaram confuso um debate de ideias que – como qualquer um – seria tanto mais produtivo quando menos confuso fosse.
Pelo que julgo ter percebido José Saramago romanceou uma situação hipotética em que o voto em branco se torna numa arma política para uma maioria da população descontente com o sistema de partidos que rege a democracia em que vivem. Depois, na explicação da sua própria obra literária, Saramago parece ter ido mais além e ter sugerido a validade dessa prática para além da ficção. Não vi declarações suas claras nesse sentido, mas também não as vi em sentido contrário. E qualquer modo, se sim ou não o escritor transformou uma obra de ficção numa proposta política real, é importante mas irrelevante para aquilo que em toda esta polémica me parece mais interessante: a maneira como o pensamento pode ser toldado por ideias preconcebidas.
A ideia de uma população descrente na política que maioritariamente vota em branco e assim cria um problema político de difícil solução é original e criativa. Original porque ninguém se tinha lembrado dela antes e criativa porque abre linhas de reflexão interessantes (se não mesmo de acção: e se de repente aumentasse significativamente a percentagem de votos em branco nas eleições europeias?). É uma ideia que levanta mais questões do que dá respostas e por isso tem todos os atributos de poder gerar à sua volta um interessante debate. Por isso, o pior que se lhe pode fazer é descartá-la em nome de ideias preconcebidas acerca do autor da proposta ou das suas supostas intenções ao fazê-la. A partir do momento em que é lançada, a ideia do voto em branco como arma política significativa pode e deve ser discutida por si mesma, independentemente do autor.
Houve pessoas que claramente minimizaram a ideia como um esoterismo de um conhecido comunista; outras entenderam-na como uma manobra de promoção de mais um best-seller; outras ainda como o devaneio de um intelectual pró-cubano. Como se o facto e ele ser comunista, o facto de haver um livro ou de Saramago ser pró-cubano fosse parte da ideia. Não é. A ideia subsiste por si e só não é espontaneamente gerada porque necessita de um intelecto para nascer. Mas uma vez nascida é propriedade de todos os intelectos que com ela se desejem ocupar.
E é desgostoso ver homens brilhantes na arte de exercitar o intelecto a deixarem as suas predisposições anti-Saramago, quaisquer que elas sejam, interporem-se no caminho entre eles e uma ideia tão potencialmente rica como esta. É sobretudo desgostoso para quem espera ansiosamente que eles se pronunciem. Eu senti esse tipo particular de desilusão a propósito de Pacheco Pereira e de Vasco Pulido Valente. Bem sei que ambos se posicionam bastante à direita de Saramago. Mas esperava que conseguissem pronunciar-se sobre a ideia em si sem se deixarem toldar pelas suas opiniões políticas ou literárias sobre Saramago, que o acaso fez autor da ideia. Como espectador atento, acho um desperdício dos seus intelectos. Um verdadeiro voto em branco...

quarta-feira, março 17, 2004

Politicamente correcto

A polémica pública que gerou o método de selecção de jovens para participarem numa iniciativa da McDonald’s ligada ao Euro2004 é claramente desproporcional face à importância do assunto e só encontra explicação no peso crescente que em Portugal têm os arautos do politicamente correcto. Neste aspecto, infelizmente, estamos cada vez mais «desenvolvidos».
Ao que parece, a ideia é que as crianças acompanhem os jogadores das diversas selecções do Europeu quando estes entram em campo, desde o momento em que abandonam os balneários até ao final da cerimónia dos hinos. Durante este período de tempo há uma "coreografia" simplicíssima: as equipas entram caminhando lado a lado, o capitão à frente os restantes jogadores atrás, cada um de mão dada com um miúdo vestido com equipamento da equipa contrária; alinham frente à bancada centra; e ouvem os respectivos hinos nacionais. Evidentemente, não há aqui nenhum exercício físico complexo subjacente, mas também não é aconselhável que as crianças seleccionadas para acompanharem os jogadores sejam deficientes físicas ou tenham problemas mentais susceptíveis de exigir acompanhamento especializado. Por razões bastante práticas que as situações em concreto ajudam a explicar. Por exemplo, no estádio Alvalade XXI, como noutros, a entrada dos jogadores faz-se por uma escada, o que dificulta que uma criança em cadeira de rodas possa acompanhar os jogadores, a não ser que queiramos que o Zinedine Zidane ajude o Thierry Henry a trazer a cadeira de rodas do seu acompanhante enquanto as câmaras de televisão vão filmando a cena para milhões de pessoas em todos o mundo. Outro exemplo: para que um deficiente mental pudesse acompanhar um jogador seria necessário que uma especialista o acompanhasse também de maneira a garantir que pudesse desenvolver sem falhas o comportamento correcto. Essa pessoa, obviamente, teria que ficar entre o Zidane e o Henry durante o hino francês. Mais uma vez com direito a transmissão televisiva para o mundo inteiro. Os exemplos podem parecer irónicos (ou mesmo cínicos, para alguns) mas não pretendem ser nem uma coisa nem outra. São apenas hipóteses práticas.
A McDonald’s (e a UEFA) podiam ter especificado que duas ou quatro em cada 22 crianças seleccionadas deviam ser crianças com problemas físicos ou mentais. Teriam que contar com medidas destinadas a enquadrar devidamente as crianças especiais no evento em que iriam participar, mas essa decisão ter-lhes-ia sem dúvida poupado alguns problemas e cairia bem juntos das mesmas pessoas agora criticaram. Mas não escolheram assim. Preferiram manter a operação o mais simples possível no interesse da "coreografia" que se pretende que a entrada das equipas em campo tenha. Estão no seu direito, sem beliscarem outros. No site da McDonald’s também está um concurso de desenho no qual dificilmente as crianças com deficiência mental ganharão. O SoccaStars (porquê Socca, já agora!) claramente é só para crianças capazes de correrem com uma bola a e chutarem-na. O «Quer quer ser milionário» não é aberto a deficientes mentais. Há milhares de pequenas coisas que uma criança deficiente física ou mental não pode fazer. E não é pelo facto de se proibir a existência de eventos em que elas não podem participar que se vai minorar a sua desvantagem. Ou sequer obrigando à sua participação em eventos para os quais não dispõem das mesmas condições que as outras crianças. É, ao contrário, promovendo eventos em que elas possam participar. Independentemente da sua desvantagem.
O politicamente correcto é redutor pelo simples facto de que, seja do que for que estejamos a falar, limita a gama de decisões disponíveis. Se alguém quiser fazer um concurso de beleza só para mulheres negras deve poder fazê-lo. Não deve ser obrigado a fazê-lo aberto a mulheres de todas as cores de pele. O que deve é haver liberdade para que alguém possa fazer um concurso de beleza só de mulheres brancas se assim o desejar. Um direito não colide com o outro e portanto não há razão para que seja limitado. Mesmo que socialmente se justifiquem medidas de incentivo a uma minoria que se sente ser frequentemente prejudicada. Se a McDonald’s tivesse previsto medidas de incentivo à participação de crianças com deficiência no seu evento, certamente mereceria um aplauso por isso. Mas o facto de o não ter feito não lhe acarreta necessariamente uma crítica. Neste caso a McDonald’s não fez qualquer discriminação positiva, mas também a não fez negativa. Simplesmente não fez qualquer discriminação. O que já é suficiente. Pedir mais do que isso é pedir a uma entidade (é válido para organizações ou pessoas) que siga a maneira mais consensual de fazer as coisas. E essa está longe de ser a única e em muitos casos pode até não ser a mais correcta. Exigir que as decisões sigam sempre a forma dominante de fazer as coisas é um imperativo de conformidade social absolutamente ditatorial, uma vez que limita a criatividade política, social, cultural, etc.
Para mim, o que é mais gritantemente criticável em todo este processo (um nome pomposo para aquele que é, repito, um assunto menor) é a forma como a vereadora da CML «amochou» perante o aparente consenso entre entidades diversas e meios de comunicação que se gerou acerca deste matéria. Isso sim é preocupante.

Reflexões

Isto é tudo um grande equívoco: quem nos deu vida nunca pensou que nós fôssemos desenvolver uma consciência.

É impressionante o quanto o pensamento é algo fugidio. Um exercício simples para o comprovar é tentar recuperar ao inverso as últimas associações de ideias. Exemplo: pensei que o pensamento era fugidio depois de me lembrar que o próximo lançamento dos «Filmes DNA» é um filme de Woody Allen, depois de saber que é recomendado por João Lopes, responsável pela única vez que saí do cinema a meio de um filme (o «Indochina»); depois de me lembrar que Paul Shrader, se não estou em erro, escreveu o argumento de Taxi Driver e eu ainda não li (acho que não...) o «Scorcese por Scorcese», que ainda deve estar na estante da sala; tudo isto enquanto em fundo oiço o meu filho a ver o «Monsters, inc» e acabei de folhear o DNA de sexta. Qual é a lógica possível de um percurso de pensamento tão errático? Faltam certamente pedaços pelo meio que explicam as voltas e revoltas do pensamento, provando que este corre bem mais depressa do que a escrita ou até do que a nossa capacidade para memorizar as sua sinapses. E imagino que não seja por falta de espaço, mas sim por falta de tempo.
Mas, mesmo dando de barato que há razões biológicas para não conseguirmos recuperar o percurso do nosso pensamento em mais do que duas ou três associações de ideias, como explicar que não consigamos - por mim falo - estabelecer um percurso, já não verdadeiro, mas apenas e somente verosímil. Exemplo: que pedaço de pensamento, que estanha ligação, antinómica ou sinonímica, me terá levado do Monsters ao Paul Shrader e ao Taxi Driver, e destes ao Woody Allen e à colecção de filmes DNA. Será que o facto de minutos antes ter lido uma reportagem de Sónia Morais Santos no memso DNA teve algo que ver como assunto. Terá essa "informação" ficado a pairar como uma névoa à espera de influenciar a direcção do pensamento sem nunca verdadeiramente se relevar presente? É possível, mas não passa de pura especulação, como é especulação qualquer outra ligação ou pensamento que agora me ocorra colocar como possível no percurso que tento reconstituir. Simplesmente não é suficientemente verosímil, embora seja perfeitamente possível. E não é verosímil simplesmente porque não tem o encanto das coisas reais e irrepetíveis. Não entramos duas vezes na água do mesmo rio. É esse o mistério do pensamento.

A fraqueza da democracia

Fica como uma ironia histórica que o resultado indirecto dos atentados de Madrid tenha sido exactamente aquele que os terroristas mais desejavam: a queda do governo que apoiou Bush na intervenção no Iraque. Indirecto porque não corresponde a uma demissão em resultado do acontecimento mas de uma derrota eleitoral mediada pelo voto popular. E aqui reside o centro da questão e aquilo que ela tem de mais profundo e inquietante.
É evidente que ficou muito mal ao governo espanhol o afã com que tentou atribuir à ETA a autoria dos atentados, tanto internamente como, ainda mais grave, junto dos governos estrangeiros seus aliados. Essa é uma atitude que ainda vai fazer correr alguma tinta e merece uma reflexão própria.
Mas é um erro de perspectiva atribuir à mistificação do governo espanhol a reacção do eleitorado nas urnas. É evidente que a maior parte do povo espanhol sentiu que estava a ser enganado e uma boa parte terá reagido mal a isso. Mas não nos devemos esquecer também que o povo espanhol tinha sido, antes de qualquer mistificação, ferozmente contra a intervenção espanhola no Iraque. E esse é o caldo social ideal para que um atentado tenha os efeitos políticos que este teve. Se não tivesse havido atentado o PP teria sido reeleito - até porque existe quase unanimidade quanto aos resultados positivos dos seus oito anos de governação – porque as manifestações anti-guerra estavam demasiado distantes no tempo e o teatro de operações demasiado distante no espaço.
Mas a reflexão pode ir ainda mais fundo. Nos dois dias subsequentes ao do atentado, gostei de ouvir vários espanhóis, gente do povo entrevistada pelas televisões, afirmar que o voto era a melhor arma que tinham contra os terroristas e que o terror não os ia afastar do seu propósito de reafirmar os valores democráticos em que acreditavam. Na altura acreditei que fosse possível uma resposta maciça expressa primeiro em número de votos e, talvez, também, em apoio ao governo visado pelos terroristas. Penso que o povo espanhol é suficientemente forte e fiel às suas convicções para poder ter tomado essa atitude.
Mas o que aconteceu foi exactamente o contrário. Não contra todas as expectativas, mas apesar de todas as expectativas. Se há povo que podia ter uma reacção deste tipo – sem dúvida a mais adequada para lidar com a ameaça terrorista - era o povo espanhol. Conheço vários outros povos, a começar pelo português, em relação aos quais consideraria menos provável uma reacção corajosa como a descrita e mais provável uma reacção medrosa como a que de facto aconteceu.
E o que isso significa é que, se os espanhóis reagiram desta maneira, nas urnas, à ameaça terrorista, os franceses, os alemães, os belgas, os portugueses, os dinamarqueses, os italianos, os australianos, os neo-zelandeses, etc, teriam reagido da mesma forma perante a mesma situação. O que significa, basicamente, que o sistema democrático é fundamentalmente fraco perante a ameaça fundamentalista islâmica. Os eleitores ocidentais pensam antes de mais no seu próprio bem-estar no momento do voto, enquanto que os fundamentalistas islâmicos pensam na sua religião antes da sua própria vida. E essa é uma diferença fundamental, tanto mais notória quanto mais alargada for a confrontação entre ambos. E, não fiz a estatística, mas não me parece que o número e gravidade de atentados terroristas de origem islâmica se tenha reduzido depois do 11 de Setembro, mesmo com o reforço de medidas de segurança um pouco por todo o lado. Bem pelo contrário. Como se disse na altura, o facto de um grupo de fundamentalistas islâmicos ter conseguido atingir de forma tão violenta o coração do mundo ocidental funcionou como um incentivo para milhares de outros islâmicos no mundo inteiro. E o atentado de Madrid – o primeiro grande atentado em território europeu depois de Lockerbie (se não estou em erro) – reforçou essa alavanca motivacional.
Ou seja, este problema não está em vias de se solucionar. Pelo contrário: está em vias de se tornar mais grave. A solução para o problema do fundamentalismo islâmico tem que atacar as suas causas profundas. Mesmo a aparentemente insolúvel resolução do conflito israelo-palestiniano seria escassa para, por si só, resolver o problema do fundamentalismo islâmico. Esse é um argumento usado pelos fundamentalistas, mas não é a essência da sua confrontação com o mundo ocidental. Usando, provavelmente com um sentido diferente, a expressão «it’s the economics, stupid», este é um conflito de dimensões civilizacionais que tem no modo de organização da economia global o principal conjunto de causas profunda. E se o conflito chegar a assumir proporções mundiais (o que, de certo modo, já está a acontecer) então também não me restam dúvidas de que, do ponto de vista ideológico, o fundamentalismo islâmico está muito mais bem preparado para o enfrentar do que as frágeis democracias ocidentais, fortes economicamente mas fracas ideologicamente.

terça-feira, março 02, 2004

Três reflexões sobre Avelino Ferreira Torres

1. A patética demonstração de falta de estatura do presidente da Câmara de Marco de Canavezes, no campo e depois nas televisões, não lhe fica mal só a ele. Convém não esquecer que este homem foi largamente eleito pela população do concelho e, segundo rezam as crónicas, é admirado e respeitado na sua terra. A sua conduta pública, obviamente fica mal também a todos os marcoenses e dá-lhes razões para se envergonharem do seu representante máximo. Quem hoje, em Marco de Canavezes, sentir vergonha pela exibição pública do seu autarca, não deve sentir repúdio mas sim orgulho nesse sentimento: ele é o único que revela alguma dignidade. Também eu me sentiria envergonhado se fosse marcoense. Mas admito que esse não seja o sentimento geral entre a população local. Como a história nos tem dado exemplos eloquentes, de que o caso de Felgueiras é talvez o mais recente, os caciques locais ganham uma preponderância sobre as populações que dirigem que não é racional. Ainda mais quando, como parece ser o caso, a rudeza e baixo nível de um autarca o torna verdadeiramente em «um de nós» junto da população. Ou seja, em muitos pontos por esse país fora, a popularidade de um dirigente político é directamente proporcional ao baixo nível a que ele consegue descer para estar «junto» das duas populações. E este é o mais sério obstáculo que se pode opor à regionalização e, por consequência, um dos mais sérios obstáculos ao desenvolvimento do país, que pode ser feito sem regionalização, mas seria melhor feito com regionalização.

2. Avelino Ferreira Torres é hoje apenas edil da cidade, mas tem um longo percurso ligado à autarquia, ao clube e às estruturas intermédias do futebol. Ou seja, Avelino Ferreira Torres sabe muito bem como é que o tão falado «sistema» funciona, sobretudo nos mecanismos de ligação entre clubes e autarquias e portanto a sua exaltação, ou era forjada, e não parecia, ou era genuína, e resultava de alguém que sabe como estas coisas se fazem e as estava a sentir «na pele». Ou seja, mesmo sem que exista, hoje, qualquer ligação formal entre AFT e as estruturas do futebol, esta não deixa de ser mais uma pequena acha para a grande fogueira em que arde o futebol português. E não chega a Liga de Clubes ficar à espera de receber quaisquer relatórios para tomar uma posição pública. Haverá algum comportamento mais público do que aquele que todos nós vimos pela televisão?

3. O que teria acontecido se porventura não houvesse câmaras de televisão em Marco de Canavezes no dia do jogo? Será que se estaria agora a discutir o assunto? Certamente que não. Nesse caso, o episódio não passaria de uma nota de rodapé nas reportagens do jogo ou, quanto muito, uma pequena notícia nos jornais diários. A pergunta que se coloca então é: quantos comportamentos da mesma natureza – mesmo que sem o mesmo grau de gravidade – acontecem todos os fins de semana pelo país inteiro sem que deles tomemos conhecimento? O futebol português está podre não só nível das cúpulas mas também ao nível das bases. O comportamento de AFT que hoje todos vilipendiamos porque o vimos na televisão é o comportamento padrão do adepto de futebol. Claro que há quem vá ao futebol e não ande aos pontapés a nada. Mas em cada jogo, grande ou pequeno, nas grandes cidades ou na província, há dezenas, centenas ou mesmo milhares de adeptos capazes disto ou bem pior (repare-se como, nas imagens, o próprio AFT protege o árbitro quando sente que os populares por si instigados estão prestes a chegar perto dele com algo mais do que um indicador em riste).

quinta-feira, janeiro 29, 2004

Conflito duradouro

Não se sei se ouvi mal a notícia na rádio, mas na sequência do mais recente atentado em Jerusalém fiquei a saber que no governo da Autoridade Palestiniana existe um «ministro para as negociações» e que este afirmou que o conflito só podia melhorar quando houvesse «um processo de negociações sério e duradouro». Será preciso maior prova de que o conflito está para durar? Um ministro cuja pasta são as negociações e um processo negocial duradouro?

Alguém lhes mada à cara, se faz favor!!

Já agora, no mesmo debate na SIC Notícias em que participou o director do público, participou, entre outros, o director do Correio da Manha. A determinado ponto, esteve quase a acontecer o confronto esperado entre ambos, como representantes dos antípodas do jornalismo (se é que se pode chamar jornalismo ao que faz o CM...). Infelizmente, nem o director do Público nem nenhum dos directores presentes quis avançar nesse sentido, que me pareceria, sinceramente, o mais pertinente de todo o debate. Poderão ter sentido receio de expor os seus próprios «telhados de vidro», algo que sem dúvida todos têm, mas deviam ter tido a coragem de confrontar o director do CM com o que tem sido a sua má prática jornalística, mesmo correndo o risco de lhes verem apontados alguns pecados. Afinal, que relevância teriam estes ao lado dos do CM?
Mais ou menos o mesmo no debate da RTP1 sobre liberdade de imprensa e segredo de justiça. Não sei que sentido fará convidar para este debate o director do 24 Horas se não for para o confrontar com a sua própria prática jornalística. Mas, mais uma vez, ninguém parece ter tido coragem para o fazer.
Quem dirige a equipa que produz o trabalho jornalístico que produzem o CM e o 24 Horas está a pôr-se a jeito quando aceita comparecer publicamente para debater estas matérias. Só falta quem tenha a coragem de lhes dar os açoites.

Interesse público ou interesse do público

Quando num recente debate na SIC Notícias sobre liberdade de imprensa, o director do Público disse que para ele o fundamental era distinguir entre o «interesse público» e o «interesse do público» eu concordei imediatamente. Embora o conceito não seja novo, parece-me um bom critério para dirigir as escolhas dos órgãos de informação e segundo a minha opinião, permite distinguir o bom do mau jornalismo. Há e haverá sempre media que regulam a sua acção pelo que pressentem ser o interesse dominante do público ou dos segmentos mais volumosos dessa entidade estatística. Mas deve haver outros que regulem a sua oferta noticiosa por aquilo que acham importante para a sociedade. O que é um papel bem mais honroso: enquanto os primeiros jornalistas não passam de cata-ventos estatísticos sem nenhuma função mediadora que não seja a transformação de um input informativo num output noticioso; os segundos «escolhem», de uma infinidade de informações que lhes chegam, aquelas que se transformam em notícia, e, desse modo, têm um papel activo na construção da nossa sociedade. E a partir do momento em que o façam tomam consciência da responsabilidade que tal função implica. Os outros? Bom, os outros continuarão a ganhar o seu ordenado ao fim do mês.
Mas, provando que no melhor pano cai a nódoa, alguns dias depois desse debate, a primeira página do Público era ocupada a toda a altura e toda a largura pela «Comoção no adeus a Féher», com uma foto de velas, flores e gente a chorar. Também eu fiquei estupefacto com o que aconteceu naquele domingo. Estava a ver o jogo pela televisão e a brutalidade da morte incomodou-me como deve ter incomodado toda a gente que a viu. Mas Féher era um jogador jovem com uma carreira curta e ainda mais curta em Portugal; sem títulos significativos conquistados; de nacionalidade húngara; funcionário do clube desde há apenas dois anos. Não se trata de merecimento ou falta dele. Simplesmente não é uma matéria de interesse público com relevância de primeira página, embora seja, como se provou, matéria de grande interesse do público.

sexta-feira, dezembro 19, 2003

Antiamericanismo militante

«O simplismo ideológico do pensamento dos americanos tanto pode ser uma forma salutar e instintiva de distinguir entre o bem e o mal e não hesitar no caminho, como pode ser reflexo de uma genética incapacidade para entender um mundo que não encaixe nos seus padrões primários de análise.»

Concordo com estas palavras de Miguel Sousa Tavares no Público que, parece-me, fazem um diagnóstico certo - e sem juízos de valor – da maneira americana de ver o Mundo. E, acrescentaria eu, esta é a maneira como vê o Mundo uma potência que domina sobre o mesmo. A história está cheia de exemplos de potências dominantes que também olhavam assim para os dominados (por oposição aos casos muito raros de algumas potências dominantes que revelaram historicamente uma estranha vontade de conhecer os dominados).
Por isso é que já não concordo tanto com a seguinte passagem um pouco à frente no mesmo texto:

«A incapacidade dos americanos em entenderem o mundo árabe, que é a incompreensão por toda uma civilização que está nos antípodas dos "valores" americanos, representa uma ameaça à paz tão grande quanto a resposta que suscita. E é lícito duvidar hoje se é o terrorismo que gera a resposta errática e condenada ao fracasso dos americanos, ou se é essa resposta que potencia o terrorismo.»

Esta consequência do diagnóstico anterior – que já envolve um juízo de valor - e que os pró-americanos considerariam anti-americana, é característica da maior parte da intelectualidade europeia e, embora com um fundo verdadeiro, contém também em si o algum ressentimento pelo facto de os europeus serem no fundo parte dos dominados e não dos dominantes. A política americana é criticável sob muitas formas e não tenho dúvidas de que é em si mesma um problema mundial. Mas não acho que seja «lícito» duvidar de que o terrorismo existe antes e independentemente de qualquer política americana para lidar com ele. Isso parece-me claramente um exagero característico da intelectualidade europeia.

Publicidade contra publicidade?

Não sei quem tem razão na guerra relativa aos gastos de publicidade na Câmara Municipal de Lisboa, mas acho no mínimo «sui generis» que o executivo actual decida investir em publicidade para explicar que o anterior executivo... investia demasiado em publicidade. É uma originalidade que só podia partir do «criativo» Pedro Santana Lopes! Por outro lado, a ideia de gastar dinheiro público para denegrir o antecessor político – e portanto também, de certa forma, a actual oposição – é no mínimo «deselegante».
Quando, pouco depois de Santana Lopes ter chegado à CML, começaram a aparecer por toda a cidade obras coercivas, pensei que finalmente tinha chegado alguém com coragem para cortar a direito face aos interesses instalados. Com a sua natural e conhecida predisposição para «apagar fogos com gasolina», como J.A.Saraiva em tempos escreveu, Santana Lopes é o homem ideal para os confrontos de que uma cidade como Lisboa precisa. Mas a verdade é que, como eu já notei, o BE já pôs em painéis de propaganda e o PS também já está a dizer, os taipais das obras coercivas continuam lá sem que algo aconteça por trás deles. Corajoso e frontal, às vezes contra ventos e marés, a verdade é que Santana Lopes também é um sedutor cujo desempenho muitas vezes não corresponde ao que a sedução promete (passe a figura...). O que pode ser o caso em Lisboa. A ver vamos...

segunda-feira, dezembro 15, 2003

Aldeia Global

O link está no site Eu Sou Jornalista, mas hoje vale a pena destacá-lo e recomendar uma visita ao Today’s Frontpage para ver como uma foto –basicamente – faz o pleno em todas as línguas e por todos os cantos do mundo. Poucos acontecimentos fazem um pleno tão amplo. A última vez que me lembro de ver imagens do mesmo acontecimento tantas vezes repetida em tantos os jornais do mundo foi no 11 de Setembro.

sexta-feira, dezembro 12, 2003

Alhos e bugalhos

O ideia governamental de aumentar a taxa sobre os combustíveis para financiar um fundo florestal contra incêndios é despropositada e só não é surpreendente porque é recorrente os governos responderem aos alhos com os bugalhos. Neste caso, a única ligação entre a gasolina e os incêndios deve ser o facto de a primeira ser combustível.
As medidas de um governo geram sempre beneficiados e prejudicados. E para que ambos aceitem como razoável a decisão – pedir que todos aceitem bem é pedir demais - é preciso que a mesma tenha alguma lógica interna e pareça justa. Esta não cumpre nenhum dos requisitos. Não se percebe porque razão hão-de ser os combustíveis a pagar a prevenção de incêndios. Porque não uma taxa sobre os supermercados, ou um novo imposto especial do bacalhau ou o turismo? Não tem lógica. E também não se entende que a medida incida sobre um sector que já se sente suficientemente saturado de peso fiscal, o que, em face da falta de lógica, aparece naturalmente como uma injustiça. Têm por isso razão as reacções negativas a esta medida.
Como é óbvio, a defesa das florestas devia ser feita por fundos gerados pelas próprias florestas e cobrados, naturalmente, às entidades que delas usufruem: as empresas papeleiras, as empresas de madeiras, os agricultores, as pessoas que tem casas de campo, etc. O que imagino é que o governo tenha dificuldade em organizar uma cobrança deste tipo porque tem pouco conhecimento e um controle demasiado distante sobre a efectiva ocupação da mancha florestal. Por isso prefere recorrer a um imposto já instituído e perfeitamente articulado nas mecânica da máquina administrativa. Ou seja, este é um puro efeito de centralismo. Pergunte-se a um autarca quem detém e como explora a floresta do seu concelho e ele saberá responder sem sequer ter que consultar quaisquer documentos. O que quer dizer que a cobrança dos fundos para protecção florestal devia ser feita localmente – melhor ainda, regionalmente – e não centralmente. A preservação da floresta de Monchique é uma preocupação dos habitantes de Monchique antes de ser de todos os outros e portanto são eles que estão em melhores condições para aceitar o esforço financeiro necessário à geração de fundos para preservação dessa mesma floresta. Existe uma óbvia relação de cobrança-retribuição que mais dificilmente seria posta em dúvida do que financiando a preservação da floresta de Monchique com uma parte do que paga um automobilista que abastece o seu carro nos arredores do Porto. Para além de que muitos automobilistas nem vão tomar consciência de que o estão a pagar, o que, bem vistas as coisas, é precisamente o que mais interessa ao Governo.
Ou seja, a preservação das florestas era mais bem conseguida com mecanismos regionais ou locais do que com mecanismos centrais, para além de que seria mais bem aceite por todos. Ou seja, na minha opinião, este é mais um dos múltiplos aspectos em que, partidos e caciques à parte, a regionalização faz todo o sentido como princípio de reorganização do Estado.

É para rir?

Há já algum tempo que não me ria ao folhear um jornal circunspecto e até um pouco “cinzentão” como o DN. É verdade que depois de ter sabido que o governo irlandês pondera proibir o fumo de tabaco nos locais públicos – logo também nos pubs (consegue-se imaginar um pub irlandês sem uma espessa nuvem de fumo?!) – já nada me devia surpreender, mas a notícia de que a UEFA vai proibir os treinadores de fumarem no banco durante os jogos é realmente de rir. Então mas se os jogos são disputados ao ar livre!! Alegadamente os treinadores servem de exemplo e então não devem dar maus exemplos durante os jogos e sobretudo durante as transmissões televisivas dos jogos.
Duas reflexões se me impõem a este propósito. Primeira: eles não são intervenientes directos nos jogo (esses são os jogadores e os árbitros) e não pedem para ser filmados. Na realidade até acredito que a maior parte deles preferisse que os não filmassem. Mais: esse é um recurso que lhes assiste. Se não podem fumar no banco por causa do mau exemplo que isso constitui, os treinadores que o queiram fazer podem sempre escrever uma carta às televisões impedindo-as de os filmarem noutra circunstância que não seja em conferências de imprensa. Parece-me que estão no seu pleno direito enquanto pessoas com direito a pôr e dispôr da sua imagem.
Segunda reflexão: ao limitar a possibilidade de uma pessoa, qualquer pessoa, ter o seu comportamento normal (e não ilegal) porque isso constitui um mau exemplo é, visto noutra perspectiva, uma forma de obrigar a pessoa a veicular o que se julga socialmente que é um bom exemplo. E isso, perdoe-se-me, é um perigoso mecanismo de conformidade social. Trata-se de obrigar as pessoas a desempenhar um papel social que por vontade própria não desempenhariam. Por vontade própria um treinador fumador não participaria em nenhuma acção, de qualquer tipo, de promoção da supressão do tabaco. Mas, de uma certa forma muito subtil, é obrigado a fazê-lo nesta situação em concreto. E a subtileza da forma como o faz – abstendo-se de fumar numa situação de stress em que habitualmente fuma - não altera a natureza do facto: trata-se de uma imposição de comportamento.
Digo eu, que não fumo.

quarta-feira, dezembro 10, 2003

A nova guerra fria?

Ouvi a notícia de que o EUA restringiam a participação internacional no programa de reconstrução do Iraque na TSF logo pela manhã. Confesso que a primeira reacção foi de alguma desconfiança. Também eu achei um erro a invasão do Iraque, mas também eu acho que na Europa muitas vezes deixamos que algum anti-americanismo mal recalcado (cujas razões históricas profundas merecem – e já mereceram – vários livros) nos tolde a percepção da realidade. Por isso fui à procura de uma fonte mais próxima do original para confirmar – porque me custava a acreditar – que fossem mesmo «razões de segurança dos EUA» as invocadas para impedir que empresas francesas, alemãs ou canadianas trabalhem no Iraque. E o que encontrei, no site do Washington Post, foi o próprio documento. E está lá tudo. Preto no branco. É mesmo a segurança que está em causa!
Mas a minha segunda reacção à notícia não foi de surpresa. E acho que isso já diz algo sobre a minha opinião, mesmo antes de eu mentalmente a formular. É verdade que é uma acção mesquinha por parte dos EUA, mas em política internacional este tipo que mesquinhez é a regra e não a excepção. Não tenho dúvidas que em muitas outras circunstâncias da história, outras nações vencedoras tiveram atitudes semelhantes em relação aos derrotados ou aos neutrais em conflitos passados. E se calhar, muitas vezes, com os países agora citados em lados bem diferentes das barricadas.
O que sinceramente me parece é que, na frieza da declaração americana, é de certa forma uma declaração de guerra surda que transparece. Esta guerra está ser declarada há meses, por pequenas ou não tão pequenas decisões como estas, que necessariamente se seguem a decisões originadoras de todo o processo, como foram a americana de começar a guerra e a europeia (França, Alemanha e acólitos) de não os acompanhar. Todas as restantes decisões – incluindo esta - são consequências lógicas das primeiras. Até que alguém decida inverter este processo e tomar uma decisão ilógica, mas corajosa. De um lado ou de outro. Ou a Europa engole o orgulho ou Bush é magnânimo. Se do lado europeu o eixo franco-alemão parece suficientemente sólido para resistir orgulhosamente, do outro lado a previsível reeleição de Bush quase garante uma manutenção – senão mesmo reforço – das políticas actuais. Ou seja, o futuro não augura nada de bom...

Correio da manha strikes again!

Vou explicar de que forma tomei conhecimento da primeira página do Correio da Manha de hoje. Estava a preparar-me para sair de casa pela manhã com a televisão sintonizada na SIC Notícias (alterno com a RTP). Eu não gosto de imagens violentas e sempre que posso evito-as activamente. Não em filmes ou ficções; essas não me incomodam; mas aquelas que sei serem verdadeiras são-me penosas e por isso normalmente olho para o lado, desvio o olhar quando passo por um acidente na estrada e mudo de canal quando a televisão embarca nesse tipo de notícias. Sou eu que sou assim, mas admito perfeitamente que nem toda a gente seja igual. Mas foi durante a revista de imprensa - uma das minhas rubricas favoritas no programa televisivo dessa manhã - que vi pela primeira vez - inadvertidamente, portanto - na primeira página do CM, a foto de um corpo separado da sua própria cabeça.
Faço esta pequena narração doméstica para enquadrar duas ou três reflexões sobre esta matéria. A primeira reflexão é relativa ao próprio CM, obviamente. Na primeira página referida a informação relativa ao atentado no Kremlin - ao qual a imagem se refere - é pouco mais do que discreta. Na verdade só depois de a procurarmos com algum cuidado encontramos a informação relativa à mesma. O que, claramente, significa que neste caso não é a imagem que sustenta a informação mas o inverso: aquela informação só esta lá para sustentar a imagem. Até porque a primeira página do CM é quase sempre ocupada por temas nacionais como a pedofilia, os impostos, o aumento de preços ou um ou outro crime, raramente com temas internacionais. Não sabemos mas podemos apostar que se não houvesse aquela imagem, a correspondente informação não teria merecido honras de primeira página no CM. E o que é que isso significa? Simplesmente que a função não é transmitir uma informação mas sim criar um efeito de choque em banca; ou seja, o objectivo não é dar uma notícia, mas sim vender jornais. Grande conclusão!! dirão. De facto a conclusão não é surpreendente. Mas se não é surpreendente, isso quer dizer que com ela concorda quem com ela não se surpreende. E então? Se todos concordamos com esta conclusão, o que é que acontece? Nada? Não acontece nada ao CM? Nada é dito ao jornalista que dirige o jornal? Um cidadão - como eu - que considere que foi ultrapassado um limite não dispõe de mecanismos para se defender?
É por estas e por outras que acho - como alguém defendeu em tempos, aparentemente sem sucesso - que os jornalistas deviam reger-se por uma Ordem. Uma Ordem capaz de vigiar e sancionar as más práticas jornalísticas da mesma forma que a Ordem dos Médicos sanciona as más práticas médicas ou a Ordem dos Advogados controla o desempenho em tribunal dos seus profissionais. Porque, sinceramente, não acho que a importância social dos jornalistas e - sobretudo - as consequências sociais das más práticas jornalísticas sejam menores que as outras. Pelo contrário. Quando todos falamos de banalização da violência nas sociedades ocidentais, é de primeiras páginas como esta que estamos a falar. Porque, para alguns milhares de portugueses, amanhã será um pouquinho mais banal ver uma cabeça separado do seu corpo. Eu, pela minha parte, gostaria - se me for permitido – de continuar a ficar incomodado com imagens como esta. E gostaria - se me deixarem - de continuar a evitá-las. Posso?
Esta questão entronca na segunda reflexão que gostaria de fazer a propósito da referida primeira página. Obviamente, eu não sou leitor habitual do CM. Não procuro o jornal em banca nem estou interessado em saber o que traz na primeira página em qualquer emissão televisiva. Mas em qualquer das duas situações eu posso ser confrontado com uma imagem de um corpo decepado sem que o queira ver ou sem que esteja preparado para o que o meu olhar vai encontrar, seja num jornal exposto em banca, seja numa emissão de televisão. Por isso pergunto: que direito tem um editor de expor assim uma imagem pela qual eu posso ser incomodado? Porque razão há-de o seu direito de expor a imagem ser superior ao meu direito de não ser exposto a ela? Não será o direito do CM em publicar imagens de corpos decepados mais prejudicial à sociedade do que o meu direito de não ser inadvertidamente confrontado com essas mesmas imagens? Se ela porventura estivesse dentro do jornal a questão não se colocaria. Se o jornal estivesse dentro do quiosque em vez de fora, a questão também não se colocaria. Se a revista de imprensa daquela manhã não tivesse incluído o CM, eu não estaria agora a indignar-me com o assunto.
O que me leva à terceira reflexão: será correcto que uma revista de imprensa de um canal noticioso, durante um programa de informação sério, dê relevância a uma manchete destas ou mesmo a qualquer das manchetes habituais de jornais como o CM ou o 24 Horas? Mesmo que, em nome do princípio da liberdade de imprensa, se responda que sim, devia uma estação de televisão responsável transmitir esta manchete? Se por hipótese absurda um jornal qualquer publicasse uma notícia qualquer ilustrada com a imagem clara e em grande plano de um órgão sexual, a estação de televisiva que faz revista de imprensa faria – e bem - uma da duas coisas: ou distorcia a imagem na zona do jornal que podia incomodar pessoas como eu; ou simplesmente não incluía a edição de hoje desse jornal na revista de imprensa, mesmo que amanhã tudo voltasse ao normal. Ou seja, o facto de ser o CM a publicar uma foto altamente criticável não isenta de críticas a estação de televisão que indirectamente reproduziu a mesma imagem como se não fosse nada com ela. Na verdade é com ela! Se a SIC não tivesse reproduzido aquela foto (imagino que a RTP o tenha feito também), eu não teria sido incomodado por ela e não estaria agora aqui a abordar o assunto. A banalização da violência resulta da reprodução da imagem violenta e não da sua autoria. E se o CM reproduziu aquela imagem violenta várias dezenas de milhar de vezes, a televisão fê-lo centenas de milhares de vezes.

terça-feira, novembro 18, 2003

Os números nas notícias

Numa notícia da TSF acerca de um congresso de especialistas que se realiza em Lisboa sobre pedofilia foi dito que «uma em cada quatro raparigas são abusadas sexualmente até aos 18 anos».
Entre familiares e amigas, eu conheço algumas mulheres, pelo menos umas oito, com o grau de intimidade suficiente para saber que isso não aconteceu a nenhuma delas. Ora, por um mero raciocínio estatístico, isso quer dizer que o eventual leitor deste post tem, em cada quatro amigas ou familiares, duas que foram abusadas sexualmente antes da maioridade. Será mesmo assim? Sinceramente, penso que não.
Nesta insuspeita notícia o que se faz é utilizar um número sem o filtro do bom senso. Como de resto acontece com muitas outra notícias, com especial incidência sempre que se fala dos malefícios do tabaco (há sempre uma quantidade «inacreditável» de mortes ou problemas de saúde que são devidos ao tabaco). Um número como o referido acima tem sempre numa notícia um impacto maior que qualquer outro componente textual da notícia. Por isso, quando posto perante um número como este, o jornalista deve questioná-lo. Deve questioná-lo primeiro que tudo segundo as regras do bom senso, como foi feito acima. Se o número não resistir a esse primeiro teste deve então ser questionada a respectiva fonte sobre a forma como se chegou a ele: que tipo de inquéritos foram feitos, qual o universo, qual a amostra, quais os conceitos subjacentes, o que se entende por «abuso sexual»? Se tal informação não puder ser obtida ou não couber no espaço ou âmbito da notícia, então a notícia não deve ser «uma em cada quatro raparigas são abusadas» mas sim «segundo a associação X, uma em cada quatro raparigas são abusadas».
Pode-se argumentar que a diferença, do ponto de vista de quem lê, não é grande. Concordo. Por isso é que acho que este tipo de números devem sempre ser questionados e explicados. Porque senão o jornalista não passa de uma mera correia de transmissão de informação sem nenhum controle crítico sobre a mesma. E não é pelo facto de estarmos a falar de temas quase unânimes - como são exemplo a pedofilia ou o tabagismo - que as regras devem ser diferentes. Mas mesmo entre a notícia «dizer uma coisa» ou «dizer que alguém diz uma coisa», a diferença é pequena mas significativa. Atribui a afirmação à fonte certa. Está certo, portanto!

Homens de estatura

As declarações de Figo e Rui Costa proferidas ontem a propósito das vaias à selecção nacional são dignas de estadistas. Já sabíamos que ambos eram grandes jogadores de futebol com uma vasta experiência internacional e habituados a ambientes exigentes, mas ontem, postos perante uma situação de tensão, conseguiram dizer, no tom certo, exactamente o que devia ser dito. De Luis Figo recordo sobretudo a frase «assobiem-me a mim mas apoiem a Selecção Nacional», e de Rui Costa não esqueço o «não podemos ser 'a selecção nacional' quando ganhamos e 'aqueles gajos' quando perdemos». Não sei qual o grau de preparação destas declarações, mas não tenho dúvidas que se fossem ditas por um chefe de estado e preparadas por um exército de assessores, não teriam sido mais adequadas. Muito bem!

Port-a-gee

Nos comentários ao site www.portcult.com descobri, por exemplo, que na Califórnia, os portugueses são conhecidos como «port-a-gees». Aliás, os comentários estão cheios de opiniões contraditórias sobre o site. Há basicamente três tipologias: o estrangeiro que se limita a agradecer as informações; o português ofendido que acha que a descrição não corresponde à realidade (e tem razão); e o português não ofendido que acha que existe um fundo de verdade na maneira como somos ali figurados (e também tem razão!).

Olhe para dentro lá fora

O povo português sempre foi muito curioso sobre a imagem que de si fazem os estrangeiros. Essa é aliás uma das característcas nacionais mais marcantes. E há quem diga que é pelos olhos dos outros que nos podemos conhecer melhor. Não é necesariamente assim, mas é curisoso visitar o site www.portcult.com. Expressa muitas ideias feitas que felizmente começam a estar desactualizadas, mas é suficientemente extensivo e por vezes divertido para merecer uma visita.

segunda-feira, novembro 17, 2003

Importa-se de repetir !?

Não falamos da vida privada, não exploramos escândalos, nem sexo. MMG, ao DN

MMG em entrevista

E a sobriedade, Manuela Moura Guedes?
Não me fale em sobriedade. Para mim é não ter bebido uns copos. É o (...) antónimo de ébrio. Ou cinzentismo. Televisão é comunicação. As notícias são histórias do dia-a-dia, mais e menos relevantes, de gente anónima.

O "nosso" monarca?

Que os espanhóis andem entretidos com a anunciada boda do seu futuro rei com uma estrela de televisão divorciada, ainda aceito como razoável. Mas que os jornais, revistas e opinião pública portuguesa ocupem «espaço mental"» com isso é que eu não consigo compreender. Já não nos basta a nossa pequena realeza? E o pior é que «cheira-me» que este antecipado casamento ainda vai dar muito que falar, pelos vistos também por cá. É que, parece-me, agora a sério, que a instituição monárquica é cada vez mais incompatível com a vida nas modernas sociedades ocidentais. É verdade que, tendo como pano de fundo a escandaleira inglesa e monegasca, a coroa espanhola até tem sido das mais discretas da Europa, infelizmente para a imprensa local (e pelos vistos também nacional). Mas acho que essa excepção tem sido apenas casual. Agora é que o folhetim vai começar. A ler vamos!

sexta-feira, novembro 07, 2003

José Castelo Branco e Betty Grafstein detidos

Finalmente uma boa notícia! Será agora que o país arriba?

segunda-feira, novembro 03, 2003

Bastonário incómodo

Concordo inteiramente com Cáceres Monteiro, que, na sua coluna na Visão de quinta-feira defende a actuação do Bastonário da Ordem dos Advogados, José Miguel Júdice, ao longo dos já vários capítulos que leva a «novela» Casa Pia. Por mais do que uma vez o bastonário foi politicamente inconveniente, mas a verdade é tomou posições corajosas e colocou na agenda questões que devem ser seriamente debatidas, como a das escutas telefónicas e a do controlo do Procurador Geral sobre a sua instituição no que concerne às fugas ao segredo de Justiça.
O facto de uma afirmação como o «estou-me cagando para o segredo de justiça» se ter tornado pública tem obviamente consequências políticas e delas de pode deduzir que o seu surgimento tenha também intenções políticas. Mas o problema nasce ainda mais cedo, quando uma pessoa que não é arguido ou testemunha num processo é escutada e quando uma frase cuja conexão com o caso em concreto é tão distante acaba gravada. É discutível que Ferro Rodrigues devesse ter sido escutado no âmbito deste processo. Mas, aceitando que o fosse devido ao facto de ser interlocutor de um dos suspeitos, é inadmissível que os seus comentários genéricos acerca do segredo de justiça seja gravados no âmbito de um processo de pedofilia. Mesmo que essas declarações pudessem fazer supor uma ilegalidade – violação do segredo de justiça – esse seria um outro processo completamente diferente em relação ao qual Ferro Rodrigues teria que ser constituído suspeito antes de ser escutado, o que aparentemente não foi o caso.
Antes de tudo o mais, portanto, há aqui o registo de uma conversa privada de alguém que não devia ter sido registada e que, se porventura fosse escutada no âmbito do processo de Paulo Pedroso, devia imediatamente ter sido apagada. O facto de não o ter sido foi o pecado original do qual derivaram todos os que se lhe sucederam.
Ora, neste ponto da «história», estamos num circuito perfeitamente fechado, inteiramente controlado pelos investigadores e sem agentes externos não autorizados. É portanto inelutável a responsabilidade que quem chefia a investigação e, em ultima análise de quem a superintende – ou seja, o Procurador Geral – no facto de ter existido a gravação de uma declaração que não devia ter sido registada. Se tal não tivesse acontecido, o «caso» das escutas telefónicas nunca teria acontecido.
Depois, como se sabe, essas declarações polémicas apareceram na comunicação social descontextualizadas. Ou, melhor ainda, recontextualizadas para terem um sentido diferente do original. O que significa que saíram do meio fechado da investigação para o meio aberto dos media. Neste passo, o Procurador pode argumentar que não podemos saber em que circunstâncias isso aconteceu e portanto não é possível apurar culpados e responsáveis. Tem razão. Mas é de todo improvável que essa divulgação não tenha tido a intenção ou pelo menos o conhecimento de alguém ligado à investigação. Claro que os meios de comunicação também devem ser criticados pela divulgação de matérias que sabem ser objecto de segredo de justiça – senão mesmo de reserva de privacidade – mas essa critica não isenta de criticas ainda mais sérias quem, do lado da investigação, forneceu tais escutas aos media. E esse lado, o da investigação, tem mais uma vez como responsável máximo o Procurador Geral da República.
Em suma, no acto de divulgação das escutas telefónicas ao Dr. Ferro Rodrigues, o PGR é provavelmente responsável. No acto de registo dessas escutas – manifestamente desligadas do caso concreto de pedofilia – o PGR é inegavelmente responsável. Uma consequência da conjugação das duas falhas podia ser o pedido de demissão do próprio, que não tenho duvidas que tenha chegado a estar nas cogitações dos actores deste processo. Como cidadão não peço a cabeça do procurador, mas também aceitaria como lógico um pedido de demissão do próprio, embora ainda lhe reste alguma margem de manobra. Quanto às posições do bastonário da Ordem dos Advogados, parece-me mais vantajoso, para todos os agentes do sector judicial e sobretudo para o próprio país, ter nele uma voz frontal e politicamente incorrecta do que um mero defensor de posições corporativas, como os bastonários tendem quase sempre a ser. Não sei se o voluntarismo de Júdice serve um programa de projecção política pessoal ou não. Mas não tenho dúvidas de que serve a clarificação das questões da justiça em Portugal.