A maioria dos portugueses pronunciou-se (mais uma vez) a favor de um novo referendo sobre o aborto no barómetro TSF/DN. Provavelmente alguém telefonou para casa dos inquiridos e lhes perguntou se gostariam de ser ouvidos. Ao que uma larga maioria obviamente respondeu que sim. Nada mais simples. Resta saber se a mesma maioria está na disposição de prescindir de um dia de praia ou de andar 500m a pé para ir votar num referendo... Estou em crer que a este número temos que tirar pelo menos 20 por cento. É este o povo que somos: prontos a dizer que sim mas menos dispostos a fazer algo.
Tese + Antítese = Síntese. Espaço de reflexão sobre a actualidade. Media, política e jornalismo.
quarta-feira, setembro 29, 2004
sexta-feira, setembro 24, 2004
Manifesto
“Mas esta publicação de poeta para poeta não me tenta, não me incita, não me anima senão a emboscar-me na natureza, perante uma rocha e uma onda, longe das editoras, do papel impresso… A poesia perdeu o seu vínculo com o leitor distante… Tem de o recuperar… Tem de caminhar na escuridão e encontrar-se com o coração do homem, com os olhos da mulher, com os desconhecidos das ruas, daqueles que a certa hora crepuscular ou plena noite estrelada carecem nem que seja de um único verso… Tal visita ao imprevisto vale todo o caminho andado, tudo o que se leu, tudo o que se aprendeu… É preciso perdermo-nos entre os que não conhecemos para que de súbito recolham o que é nosso na rua, na areia, nas folhas caídas durante mil anos no mesmo bosque… e tomem ternamente esse objecto que nós criamos… Só então seremos verdadeiramente poetas… Nesse objecto viverá a poesia…”
“Outros medem a pauta dos meus versos, provando que os divido em pequenos fragmentos ou os estico demasiado. Não tem nenhuma importância. Quem determina que os versos sejam mais curtos ou mais compridos, mais delgados ou mais gordos, mais amarelos ou mais vermelhos? O poeta que os escreve. Determina-o com a sua respiração e o seu sangue, com a sua sabedoria e a sua ignorância, porque tudo isso entra no pão da poesia.
O poeta que não seja realista está morto. Mas o poeta que seja só realista está morto também. O poeta que seja apenas irracionalista só será compreendido por si mesmo e pela sua amada, o que é bastante triste. O poeta que seja só um racionalista será compreendido até pelos asnos, o que é sumamente triste. Para tais equações não há cifras na pauta, não há ingrediente decretados por Deus, nem pelo Diabo. Pelo contrário: estas duas personagens importantíssimas mantêm uma luta constante dentro da poesia, e nesta batalha ou vence uma ou vence a outra. Mas a poesia é que não pode ficar derrotada.”
“Coube-me sofrer e lutar, amar e cantar. Tocaram-me na partilha do mundo o triunfo e a derrota, provei o gosto do pão e do sangue. Que mais quer um poeta? Todas as alternativas, do pranto até aos beijos, da solidão até ao povo, estão vivas na minha poesia, reagem nela, porque vivi para a minha poesia e porque a poesia sustentou as minhas lutas. E se muitos prémios alcancei, prémios fugazes como borboletas de pólen evasivo, alcancei um prémio maior, um prémio que muitos desdenham mas que, na realidade, é para muitos inatingível. Consegui chegar, através de uma dura lição de estética e rebusca, através dos labirintos da palavra escrita, à altura de poeta do meu povo. O mau prémio maior é esse – não os livros e os poemas traduzidos, não os livros escritos para descreverem ou dissecarem as palavras dos meus livros. O prémio foi aquele momento fundamental da minha vida, no fundo do vale de Lota, ao sol pleno da nitreira abrasada, quando um homem subiu da cova aberta na escarpa como se emergisse do Inferno, com a cara alterada pelo trabalho esmagador, os olhos avermelhados pela poeira, e, estendendo-me a mão calejada, uma mão com o mapa da pampa nas suas durezas e nas suas rugas, me disse, de olhos brilhantes: «Conhecia-te desde há muito tempo, irmão». São estes os louros da minha poesia – esse buraco na pampa terrível do qual sai um operário a quem o vento e a noite e as estrelas do Chile lhe disseram muitas vezes: «Não estás sozinho; há um poeta que pensa nas tuas dores».
Entrei para o Partido Comunista do Chile em 15 de Julho de 1945.”
Pablo Neruda, Confesso que vivi
“Outros medem a pauta dos meus versos, provando que os divido em pequenos fragmentos ou os estico demasiado. Não tem nenhuma importância. Quem determina que os versos sejam mais curtos ou mais compridos, mais delgados ou mais gordos, mais amarelos ou mais vermelhos? O poeta que os escreve. Determina-o com a sua respiração e o seu sangue, com a sua sabedoria e a sua ignorância, porque tudo isso entra no pão da poesia.
O poeta que não seja realista está morto. Mas o poeta que seja só realista está morto também. O poeta que seja apenas irracionalista só será compreendido por si mesmo e pela sua amada, o que é bastante triste. O poeta que seja só um racionalista será compreendido até pelos asnos, o que é sumamente triste. Para tais equações não há cifras na pauta, não há ingrediente decretados por Deus, nem pelo Diabo. Pelo contrário: estas duas personagens importantíssimas mantêm uma luta constante dentro da poesia, e nesta batalha ou vence uma ou vence a outra. Mas a poesia é que não pode ficar derrotada.”
“Coube-me sofrer e lutar, amar e cantar. Tocaram-me na partilha do mundo o triunfo e a derrota, provei o gosto do pão e do sangue. Que mais quer um poeta? Todas as alternativas, do pranto até aos beijos, da solidão até ao povo, estão vivas na minha poesia, reagem nela, porque vivi para a minha poesia e porque a poesia sustentou as minhas lutas. E se muitos prémios alcancei, prémios fugazes como borboletas de pólen evasivo, alcancei um prémio maior, um prémio que muitos desdenham mas que, na realidade, é para muitos inatingível. Consegui chegar, através de uma dura lição de estética e rebusca, através dos labirintos da palavra escrita, à altura de poeta do meu povo. O mau prémio maior é esse – não os livros e os poemas traduzidos, não os livros escritos para descreverem ou dissecarem as palavras dos meus livros. O prémio foi aquele momento fundamental da minha vida, no fundo do vale de Lota, ao sol pleno da nitreira abrasada, quando um homem subiu da cova aberta na escarpa como se emergisse do Inferno, com a cara alterada pelo trabalho esmagador, os olhos avermelhados pela poeira, e, estendendo-me a mão calejada, uma mão com o mapa da pampa nas suas durezas e nas suas rugas, me disse, de olhos brilhantes: «Conhecia-te desde há muito tempo, irmão». São estes os louros da minha poesia – esse buraco na pampa terrível do qual sai um operário a quem o vento e a noite e as estrelas do Chile lhe disseram muitas vezes: «Não estás sozinho; há um poeta que pensa nas tuas dores».
Entrei para o Partido Comunista do Chile em 15 de Julho de 1945.”
Pablo Neruda, Confesso que vivi
segunda-feira, julho 26, 2004
Alguém pagou esta publicidade?
Não estou certo das palavras, mas é qualquer coisa deste género: "O que acha mais importantes numa relação? Fidelidade? Estabillidade? Segurança? Se respondeu sim, então deve ser cliente do BIC.”
Estará o Norte de África a "emigrar" para a Europa?
Obviamente, o traço mais preocupante da recente vaga de incêndios é do tipo macro-ambiental. Não sou especialista nesta área, mas, no exercício das minhas competências de leigo na matéria, parece-me que o facto de em dois anos seguidos haver em Portugal duas vagas de incêndios motivadas por vagas de calor anormalmente alto é um sinal claro de desertificação. É assim que as terras férteis se tornam terras áridas. E esse é naturalmente o risco maior que corre um país como Portugal, separado do deserto africano por uma simples e irrisória língua de mar. A médio prazo, o que a elevação média das temperaturas e a ocorrência de fenómenos como os incêndios provoca é que Portugal se converta numa extensão do Norte de África. Mantendo as suas estâncias de férias junto ao mar, mas sem nada entre estas e a “civilização”. Este é um cenário que já esteve mais longe do que está e já foi menos plausível do que é. Sobretudo porque, para o evitar, parecem necessários esforços de cariz internacional ou mesmo mundial, um areópago onde, como se sabe, Portugal “pesa” muito pouco, sobretudo desde que as suas estâncias de férias sejam preservadas.
Fogo posto ou teoria da conspiração?
Toda a gente percebe que a conjugação de temperaturas anormalmente altas com ventos fortes é o rastilho que provoca os incêndios. E no entanto, do mais humilde popular ao mais directamente envolvido dos técnicos, sempre que surgem os fogos aparecem igualmente as teorias de fogo posto. Às quais, naturalmente os jornais e as televisões dão a cobertura que seria de esperar. É particularmente sintomático que o presidente do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil tenha afirmado que "as temperaturas não justificam tudo, nomeadamente a simultaneidade de fogos em vários pontos do país. Depreende-se facilmente que se trata de fogo posto." Então mas o calor não é simultâneo em todo o país? E, pela negativa, será que os incendiários, lunáticos ou mandatados por interesses, esperam pela conjugação de temperaturas altas com ventos forte para atearem os fogos? Que o povo entrevistado para a televisão seja o primeiro a afirmar peremptoriamente que os fogos são postos, obviamente sem qualquer conhecimento da matéria, não é de estranhar. Resulta do costume nacional de ter que encontrar em todo o assunto uma teoria da conspiração. Que um responsável pela Protecção Civil aproveite essa "opinião generalizada" para, cavalgando-a, preservar o desempenho das forças que dirige face à "magnitude" do "inimigo" que enfrentam, é condenável mas não surpreendente. Que um jornal insuspeito como o público ponha essa hipótese em primeira página sem algo mais fundamentado do que esta opinião do presidente do SNBPC, é surpreendente e criticável, e é o que alimenta a "opinião generalizada" na qual tudo começa. Se há interesses por detrás dos fogos eles devem ser claramente denunciados e isso ainda não foi feito, nem pelos responsáveis nem pelos meios de comunicação. Se há pirómanos por detrás dos fogos, então devem ser perseguidos e condenados. Tudo o que esteja para além disso são suspeições que, à força de repetição, se convertem numa teoria da conspiração.
quinta-feira, julho 01, 2004
Dois momentos simbólicos
Para lá do histerismo colectivo e das incidências do jogo, mas em consequência delas, há dois momentos simbólicos (televisivos) do jogo de ontem que exemplificam o dramatismo que faz do futebol o desporto de massas que ele é:
1. A imagem de Jorge Andrade deitado no chão após o apito final do árbitro, de olhos fechados, respirando fundo depois de tirar dos ombros o peso da responsabilidade (mesmo involuntária) por uma quase reviravolta no resultado. Nunca um jogador português terá respirado tão fundo quanto Jorge Andrade naquele momento.
2. O abraço entre Luis Figo e Rui Costa no final do jogo foi uma partilha de sentimentos - e também de responsabilidades - entre dois jogadores que trocam bolas desde a sua meninice e desde a sua meninice levam o país às costas pelos palcos futebolísticos do mundo inteiro. Só eles saberão o que disseram um ao outro naquele longo abraço, mas aposto que uma das coisas que disseram foi "conseguimos".
1. A imagem de Jorge Andrade deitado no chão após o apito final do árbitro, de olhos fechados, respirando fundo depois de tirar dos ombros o peso da responsabilidade (mesmo involuntária) por uma quase reviravolta no resultado. Nunca um jogador português terá respirado tão fundo quanto Jorge Andrade naquele momento.
2. O abraço entre Luis Figo e Rui Costa no final do jogo foi uma partilha de sentimentos - e também de responsabilidades - entre dois jogadores que trocam bolas desde a sua meninice e desde a sua meninice levam o país às costas pelos palcos futebolísticos do mundo inteiro. Só eles saberão o que disseram um ao outro naquele longo abraço, mas aposto que uma das coisas que disseram foi "conseguimos".
Luis Figo ainda se emociona
Quando o repórter da RTP lhe perguntou após o jogo se, depois de conquistar tantos títulos, a presença na final do Campeonato da Europa ainda o conseguia emocionar, Luis Figo podia ter respondido que há sempre algo de especial em todas as conquistas, que um jogador de futebol tem sempre algo que ambicionar, etc, etc. Mas não! Luis Figo disse quelquer coisa como "Não há nada que se compare a levar a selecção de Portugal à final do Europeu. Ao pé disso todos os meus títulos de nada valem". E depois lembrou que foi há 13 anos precisamente que em Lisboa a sua geração conquistou o título de campeã mundial de juniores e dedicou a vitória a todos os seus companheiros de percurso que por uma razão ou outra não estiveram presentes nesta ocasião. Foi bonito de ver e provou que Luis Figo ainda se emociona.
quarta-feira, junho 30, 2004
Se eu fosse holandês...
Conhecendo como conheço a forma como a imprensa desportiva portuguesa costuma reagir sempre que o prestígio nacional é minimamente beliscado além-fronteiras (como no recente caso do árbitro do Espanha-Portugal), imagino como me sentiria se fosse holandês e, de visita desportiva a Lisboa, descobrisse nas bancas as primeiras páginas de hoje dos jornais A Bola e Record. Revelam no mínimo mau gosto e no máximo uma atitude provocatória. E o mais grave é que os próprios nem se apercebem de que algures pelo meio perderam de vista o jornalismo...
Ainda a crise política...
Ainda sobre a crise política, ficou por dizer que a solução mais correcta no plano dos princípios seria no fundo o PSD pedir ele próprio a realização de eleições antecipadas. Tal como fez o PS em 2001, também depois da demissão do líder e também depois de umas eleições não legislativas em que sofreu uma derrota. O paralelo é mais que evidente e todos nos recordamos que na altura o Presidente quis manter o Governo mas o PS quis ir a votos, mesmo já então contra as sondagens que as urnas vieram a confirmar. Se tivermos em conta a constituição e a organizãção do nosso sistema político, o PSD não tem nada que o fazer, uma vez que o que conta é o resultado eleitoral das últimas eleições legislativas. Mas se o PSD quisesse ser fiel à quase manifesta vontade dos eleitores, então libertaria o Presidente do fardo de ter que tomar uma decisão tão difícil quanto esta e pediria eleições antecipadas. Mas, como dizia um amigo meu perante este cenário, "isso seria dar o ouro ao bandido", sendo o "ouro" o poder e o "bandido", obviamente, o PS. E esta é de facto a leitura que se faz no PSD, o mais "político" dos partidos políticos portugueses. A política não é mais do que a execução de todas as medidas tendentes à conquista e manutenção o poder. Ponto final.E é isso também que faz dele o mais "moderno" de todos os partidos portugueses. O que é preocupante.
terça-feira, junho 29, 2004
Rodrigo Leão está de volta
Rodrigo Leão está de volta com "Cinema", um disco onde o latim deu lugar às imagens. Há canções simples de reconforto, há versos de amor e há participações surpreendentes (Beth Gibbons) e outras quase "óbvias" (Ryuichi Sakamoto). Um disco a não perder.
A não perder também a conversa ao fim da tarde de Rodgrigo Leão com Carlos Vaz Marques. Ainda está em audição em três partes na TSF. Para se perceber como as explicações simples são as mais belas. Tal como a música.
A não perder também a conversa ao fim da tarde de Rodgrigo Leão com Carlos Vaz Marques. Ainda está em audição em três partes na TSF. Para se perceber como as explicações simples são as mais belas. Tal como a música.
O terramoto Durão
Algumas observações sobre a “exportação” de Durão Barroso:
1. O facto de um português poder vir a presidir à Comissão Europeia é sem dúvida prestigiante para o país. Mas não exageremos. É mais prestigiante para o próprio Durão Barroso do que para o país. Já vi escrito que o cargo de Presidente da Comissão era o terceiro cargo político mais importante no mundo actual. O que é um grande exagero a juntar a muitos pequenos exageros do mesmo teor que têm sido feitos nos últimos dias. A Presidência da Comissão nunca deixou de ser um cargo técnico mesmo quando a integração económica pressionou a integração política. E o efeito dessa pressão de integração e articulação política é, como se sabe, uma nova constituição europeia na qual a Comissão perde influência, justamente porque é um órgão técnico (próprio de uma Comunidade Económica mas não de um União Política). O que significa que, se a Constituição Europeia for aprovada, o cargo ao qual Durão Barroso está agora prestes a aceder será no futuro menos importante do que é hoje. Por outro lado, se a Constituição Europeia acabar por não ser aprovada (o que é possível se não mesmo provável se os governos optarem por de facto deixarem as populações expressarem a sua opinião em referendo), então a Comissão manterá as extensas atribuições que tem hoje mas receberá sobre os seus braços o peso insustentável de um crise política europeia sem precedentes (resultante da óbvia necessidade de aprofundamento político sem acordo entre as partes sobre como este deve ser feito, tudo num quadro alargado a 25 vozes).
2. Por outro lado, é também uma falácia pensar que o facto de o cargo de Presidente da Comissão Europeia ser desempenhado por um português pode trazer algum benefício ao país, tal como não consta que Romano Prodi tenha trazido alguma vantagem à Itália ou que Jaques Santer tenha feito algo de especial pelo seu Luxemburgo, um “país” ainda mais pequeno que Portugal. Tal como os comissários e por maioria de razão por ser chefe deles, o Presidente da Comissão tem que ser exemplarmente isento na gestão das políticas comunitárias. O que, bem vistas as coisas, até pode ter um efeito contrário: basta um pouco de excesso de zelo para que Portugal seja prejudicado e não beneficiado como forma de demonstrar a isenção do Presidente da Comissão Europeia.
3. Por outro lado ainda, não podemos esquecer que Durão Barroso foi pelo menos uma terceira escolha para o cargo, em resultado da ausência de acordo entre os grandes países de União. Assim a escolha de um nacional de um pequeno país resulta quase como um mínimo denominador comum do qual nem a França, nem a Alemanha, nem a Inglaterra esperam tanto quanto esperariam da sua primeira escolha.
4. Em face do exposto anteriormente, tenho sérias dúvidas que o cargo de Presidente da Comissão Europeia seja sequer mais importante do que o de Primeiro-ministro de Portugal. Eu, como votante para ambas as sedes de poder, certamente não lhe atribuo essa importância. E imagino que muitos outros portugueses pensem da mesma maneira. Se olharmos para os presidentes da Comissão Europeia vemos sobretudo pessoas que foram ministros dos respectivos governos e que, uma vez findo o seu mandato, “ascenderam” à Comissão. Se não estou em erro, não vemos sequer uma pessoa que tenha evoluído de um cargo de chefia de Governo ou da presidência de algum dos países da União para a liderança da Comissão Europeia. E basta perguntarmo-nos se achamos crível que Jaques Chirac, Gerhard Schroeder ou Tony Blair deixassem os respectivos governos – sobretudo meio do mandato – para irem ocupar o cargo de Presidente da Comissão? E se não o achamos crível para a França, Alemanha ou Grã-Bretanha, porque razão havíamos de o achar para Portugal? Ou seja, a escolha de Durão Barroso é compreensível do ponto de vista pessoal e profissional, mas não do ponto de vista das suas responsabilidades políticas. Eu esperaria de um governante com mais sentido de Estado que recusasse o cargo de presidente da Comissão Europeia senão em nome das suas preferências pessoais, pelo menos em nome das suas responsabilidades assumidas para com o povo português; e sobretudo tendo em conta que dificilmente tal saída pode ocorrer sem sérios tumultos políticos internos. Durão Barroso vai para a Bruxelas, mas deixa atrás de si um rasto de “destruição” que o próprio deveria ter sabido prever e evitar.
5. Esse “rasto de destruição” é já visível no PSD, com os conflitos latentes a tornarem-se expressos e as facas a serem afiadas para a longa noite de luta pelo poder. E, na verdade, é dentro do PSD que a questão deve ser dirimida, com mais ou menos sangue. No nosso regime constitucional, os resultados das eleições são a fonte do poder político, e o resultado das eleições não mudou pela demissão de Durão Barroso. Ao presidente cabe receber do partido mais votado a formação de um governo estável. E desde que ele seja estável e respeite os resultados eleitorais, o Presidente deve aceitá-lo. Cabe por isso ao PSD apresentar uma solução política que permita ambas as coisas e, se os órgãos internos do PSD estatutariamente encarregues dessa definição apresentarem Pedro Santana Lopes como a solução, então Pedro Santana Lopes deve ser o próximo primeiro-ministro. Sem eleições antecipadas.
6. Não faz sentido invocar eleições antecipadas sob o pretexto de que os portugueses votaram em Durão Barroso e não em Santana Lopes. Se as eleições legislativas foram tão pessoalizadas como têm sido a maioria dos actos eleitorais nos últimos anos, isso resulta de uma “doença” geral dos sistemas democráticos modernos, enredados nas teias da política-espectáculo. Porque, na realidade, aquilo em que os portugueses votaram – para agora não o esquecerem deviam na altura tê-lo recordado - foi em partidos políticos. E, desses, o PSD foi o mais votado, ganhando portanto o direito de propor uma liderança política para o país. Basta um exemplo para percebermos como os resultados eleitorais são a fonte do poder: a coligação centro-direita actualmente no governo não é pré-eleitoral. O que significa que quem votou, não votou para pôr a direita no poder e Paulo Portas no Governo. E não me lembro de alguém ter feito alguma manifestação para dizer que tinha votado em Durão e não em Portas, quando na realidade me parece muito mais significativa politicamente a ascensão do PP ao poder (sem qualquer reserva mental) do que a mera substituição do líder do PSD. Os resultados foram aceites em todas as suas consequências, tal como deve ser em democracia. E a verdade é que nada disso mudou entretanto. Mais razões haveria para pôr em causa o governo se surgissem problemas na coligação que o sustenta do que em resultado da demissão do primeiro-ministro.
7. O problema pode residir afinal na capacidade do PSD para propor uma solução estável de Governo. No seu afã de preservar o equilíbrio na coligação, escolhendo um nome aceitável pelo PP, Durão Barroso pode ter desequilibrado o próprio PSD, escolhendo um sucessor capaz de dividir as hostes como poucos. O Presidente da República está certamente atento e, se é verdade que o antevejo capaz de aceitar uma solução de continuidade (como impõem a nossa teoria e prática constitucionais), não é menos verdade que dispõe da margem de manobra suficiente para convocar eleições antecipadas caso detecte fissuras, primeiro na base partidária e depois na base social de apoio ao Governo. E isso foi o que vimos claramente nos últimos dias e nas últimas eleições europeias.
1. O facto de um português poder vir a presidir à Comissão Europeia é sem dúvida prestigiante para o país. Mas não exageremos. É mais prestigiante para o próprio Durão Barroso do que para o país. Já vi escrito que o cargo de Presidente da Comissão era o terceiro cargo político mais importante no mundo actual. O que é um grande exagero a juntar a muitos pequenos exageros do mesmo teor que têm sido feitos nos últimos dias. A Presidência da Comissão nunca deixou de ser um cargo técnico mesmo quando a integração económica pressionou a integração política. E o efeito dessa pressão de integração e articulação política é, como se sabe, uma nova constituição europeia na qual a Comissão perde influência, justamente porque é um órgão técnico (próprio de uma Comunidade Económica mas não de um União Política). O que significa que, se a Constituição Europeia for aprovada, o cargo ao qual Durão Barroso está agora prestes a aceder será no futuro menos importante do que é hoje. Por outro lado, se a Constituição Europeia acabar por não ser aprovada (o que é possível se não mesmo provável se os governos optarem por de facto deixarem as populações expressarem a sua opinião em referendo), então a Comissão manterá as extensas atribuições que tem hoje mas receberá sobre os seus braços o peso insustentável de um crise política europeia sem precedentes (resultante da óbvia necessidade de aprofundamento político sem acordo entre as partes sobre como este deve ser feito, tudo num quadro alargado a 25 vozes).
2. Por outro lado, é também uma falácia pensar que o facto de o cargo de Presidente da Comissão Europeia ser desempenhado por um português pode trazer algum benefício ao país, tal como não consta que Romano Prodi tenha trazido alguma vantagem à Itália ou que Jaques Santer tenha feito algo de especial pelo seu Luxemburgo, um “país” ainda mais pequeno que Portugal. Tal como os comissários e por maioria de razão por ser chefe deles, o Presidente da Comissão tem que ser exemplarmente isento na gestão das políticas comunitárias. O que, bem vistas as coisas, até pode ter um efeito contrário: basta um pouco de excesso de zelo para que Portugal seja prejudicado e não beneficiado como forma de demonstrar a isenção do Presidente da Comissão Europeia.
3. Por outro lado ainda, não podemos esquecer que Durão Barroso foi pelo menos uma terceira escolha para o cargo, em resultado da ausência de acordo entre os grandes países de União. Assim a escolha de um nacional de um pequeno país resulta quase como um mínimo denominador comum do qual nem a França, nem a Alemanha, nem a Inglaterra esperam tanto quanto esperariam da sua primeira escolha.
4. Em face do exposto anteriormente, tenho sérias dúvidas que o cargo de Presidente da Comissão Europeia seja sequer mais importante do que o de Primeiro-ministro de Portugal. Eu, como votante para ambas as sedes de poder, certamente não lhe atribuo essa importância. E imagino que muitos outros portugueses pensem da mesma maneira. Se olharmos para os presidentes da Comissão Europeia vemos sobretudo pessoas que foram ministros dos respectivos governos e que, uma vez findo o seu mandato, “ascenderam” à Comissão. Se não estou em erro, não vemos sequer uma pessoa que tenha evoluído de um cargo de chefia de Governo ou da presidência de algum dos países da União para a liderança da Comissão Europeia. E basta perguntarmo-nos se achamos crível que Jaques Chirac, Gerhard Schroeder ou Tony Blair deixassem os respectivos governos – sobretudo meio do mandato – para irem ocupar o cargo de Presidente da Comissão? E se não o achamos crível para a França, Alemanha ou Grã-Bretanha, porque razão havíamos de o achar para Portugal? Ou seja, a escolha de Durão Barroso é compreensível do ponto de vista pessoal e profissional, mas não do ponto de vista das suas responsabilidades políticas. Eu esperaria de um governante com mais sentido de Estado que recusasse o cargo de presidente da Comissão Europeia senão em nome das suas preferências pessoais, pelo menos em nome das suas responsabilidades assumidas para com o povo português; e sobretudo tendo em conta que dificilmente tal saída pode ocorrer sem sérios tumultos políticos internos. Durão Barroso vai para a Bruxelas, mas deixa atrás de si um rasto de “destruição” que o próprio deveria ter sabido prever e evitar.
5. Esse “rasto de destruição” é já visível no PSD, com os conflitos latentes a tornarem-se expressos e as facas a serem afiadas para a longa noite de luta pelo poder. E, na verdade, é dentro do PSD que a questão deve ser dirimida, com mais ou menos sangue. No nosso regime constitucional, os resultados das eleições são a fonte do poder político, e o resultado das eleições não mudou pela demissão de Durão Barroso. Ao presidente cabe receber do partido mais votado a formação de um governo estável. E desde que ele seja estável e respeite os resultados eleitorais, o Presidente deve aceitá-lo. Cabe por isso ao PSD apresentar uma solução política que permita ambas as coisas e, se os órgãos internos do PSD estatutariamente encarregues dessa definição apresentarem Pedro Santana Lopes como a solução, então Pedro Santana Lopes deve ser o próximo primeiro-ministro. Sem eleições antecipadas.
6. Não faz sentido invocar eleições antecipadas sob o pretexto de que os portugueses votaram em Durão Barroso e não em Santana Lopes. Se as eleições legislativas foram tão pessoalizadas como têm sido a maioria dos actos eleitorais nos últimos anos, isso resulta de uma “doença” geral dos sistemas democráticos modernos, enredados nas teias da política-espectáculo. Porque, na realidade, aquilo em que os portugueses votaram – para agora não o esquecerem deviam na altura tê-lo recordado - foi em partidos políticos. E, desses, o PSD foi o mais votado, ganhando portanto o direito de propor uma liderança política para o país. Basta um exemplo para percebermos como os resultados eleitorais são a fonte do poder: a coligação centro-direita actualmente no governo não é pré-eleitoral. O que significa que quem votou, não votou para pôr a direita no poder e Paulo Portas no Governo. E não me lembro de alguém ter feito alguma manifestação para dizer que tinha votado em Durão e não em Portas, quando na realidade me parece muito mais significativa politicamente a ascensão do PP ao poder (sem qualquer reserva mental) do que a mera substituição do líder do PSD. Os resultados foram aceites em todas as suas consequências, tal como deve ser em democracia. E a verdade é que nada disso mudou entretanto. Mais razões haveria para pôr em causa o governo se surgissem problemas na coligação que o sustenta do que em resultado da demissão do primeiro-ministro.
7. O problema pode residir afinal na capacidade do PSD para propor uma solução estável de Governo. No seu afã de preservar o equilíbrio na coligação, escolhendo um nome aceitável pelo PP, Durão Barroso pode ter desequilibrado o próprio PSD, escolhendo um sucessor capaz de dividir as hostes como poucos. O Presidente da República está certamente atento e, se é verdade que o antevejo capaz de aceitar uma solução de continuidade (como impõem a nossa teoria e prática constitucionais), não é menos verdade que dispõe da margem de manobra suficiente para convocar eleições antecipadas caso detecte fissuras, primeiro na base partidária e depois na base social de apoio ao Governo. E isso foi o que vimos claramente nos últimos dias e nas últimas eleições europeias.
segunda-feira, junho 21, 2004
De Espanha veio bom senso
A vitória portuguesa de ontem teve concerteza para a larga maioria dos portugueses um sabor especial por ser contra os espanhóis. E Marcelo Rebelo de Sousa não foi de certeza o único a puxar de referências a Aljubarrota. Eu ouvi falar em ala dos namorados, da técnica do quadrado e daquele comentário bem mais moderno que fica como uma verdadeira imagem do país: "eles compram as empresas mas nós ganhamos no futebol". Sem dúvida irónico.
Mas o que achei mais interessante no meio de todo este fervor anti-espanhol foi a forma como do outro lado só descobri bom senso, boa educação e desportivismo. A maior parte dos adetpos anónimos entrevistados pela TV diziam quase sempre "o nosso treinador é um asno. Portugal esteve melhor. Parabéns. Agora estamos todos por Portugal". O primeiro espanhol com quem falei ao telefone no dia seguinte começou por me dar os parabéns e repetiu quase a mesma coisa. Nenhum deles falou das duas bola ao poste ou de qualquer decisão polémica do árbitro.
Não tenho dúvidas de que, se o resultado tivesse ficado ao contrário, decerto já teríamos arranajdo um belo conjunto de desculpas para desvalorizar a vitória alheia e assim minorar a nossa própria derrota. Decerto falaríamos do árbitro e de como ele teria sido sensível às pressões espanholas. Falaríamos do mau futebol dos espanhóis e do carácter fortuito da vitória, etc. De Espanha não veio nada disso. De Espanha veio apenas bom senso e desportivismo.
Por outro lado, com ou sem excesso de álcool, os ingleses não se esquecem de agradecer a hospitalidade nacional, fazem coro por Portugal nos jogos da nossa seleção e dizem que esperam ganhar nos quatros de final mas gostariam que Portugal também seguisse em frente. Isto é desportivismo, com álcool ou sem ele.
No jogo da abertura no Estádio do Dragão fiquei quase lado a lado com um grupo de franceses e francesas que obviamente não eram adeptos de Portugal nem da Grécia, mas tinham alguma simpatia pela nossa selecção (os pobres gregos parece que não conquistaram a simpatia de ninguém...). Viam o jogo com a despreocupação de quem não se envolve no resultado, é verdade, mas era em parte por isso que faziam da ocasião uma festa. Imagino que num jogo da sua selecção estejam um pouco mais tensos, mas não tenho dúvidas de que continuará a ser uma festa.
Os exemplos que o Euro trouxe até nós mostram-nos, para onde quer que olhemos, uma forma muito mais saudável de viver o futebol. A nossa realidadezinha de tricas entre clubes e dirigentes quase nos fez esquecer que existe toda uma outra forma de viver esse fenómeno social que é o pontapé da bola. Mas, mais ainda do que isso, a forma como rodeámos o embate espanhol com toda a espécie de referências a desforras históricas e a forma como os espanhóis responderam com desportivismo e elevação põe à mostra aquilo que no fundo não passa de uma demonstração de pequenez histórica a cultural da nossa parte. Aprendamos com os bons exemplos.
Mas o que achei mais interessante no meio de todo este fervor anti-espanhol foi a forma como do outro lado só descobri bom senso, boa educação e desportivismo. A maior parte dos adetpos anónimos entrevistados pela TV diziam quase sempre "o nosso treinador é um asno. Portugal esteve melhor. Parabéns. Agora estamos todos por Portugal". O primeiro espanhol com quem falei ao telefone no dia seguinte começou por me dar os parabéns e repetiu quase a mesma coisa. Nenhum deles falou das duas bola ao poste ou de qualquer decisão polémica do árbitro.
Não tenho dúvidas de que, se o resultado tivesse ficado ao contrário, decerto já teríamos arranajdo um belo conjunto de desculpas para desvalorizar a vitória alheia e assim minorar a nossa própria derrota. Decerto falaríamos do árbitro e de como ele teria sido sensível às pressões espanholas. Falaríamos do mau futebol dos espanhóis e do carácter fortuito da vitória, etc. De Espanha não veio nada disso. De Espanha veio apenas bom senso e desportivismo.
Por outro lado, com ou sem excesso de álcool, os ingleses não se esquecem de agradecer a hospitalidade nacional, fazem coro por Portugal nos jogos da nossa seleção e dizem que esperam ganhar nos quatros de final mas gostariam que Portugal também seguisse em frente. Isto é desportivismo, com álcool ou sem ele.
No jogo da abertura no Estádio do Dragão fiquei quase lado a lado com um grupo de franceses e francesas que obviamente não eram adeptos de Portugal nem da Grécia, mas tinham alguma simpatia pela nossa selecção (os pobres gregos parece que não conquistaram a simpatia de ninguém...). Viam o jogo com a despreocupação de quem não se envolve no resultado, é verdade, mas era em parte por isso que faziam da ocasião uma festa. Imagino que num jogo da sua selecção estejam um pouco mais tensos, mas não tenho dúvidas de que continuará a ser uma festa.
Os exemplos que o Euro trouxe até nós mostram-nos, para onde quer que olhemos, uma forma muito mais saudável de viver o futebol. A nossa realidadezinha de tricas entre clubes e dirigentes quase nos fez esquecer que existe toda uma outra forma de viver esse fenómeno social que é o pontapé da bola. Mas, mais ainda do que isso, a forma como rodeámos o embate espanhol com toda a espécie de referências a desforras históricas e a forma como os espanhóis responderam com desportivismo e elevação põe à mostra aquilo que no fundo não passa de uma demonstração de pequenez histórica a cultural da nossa parte. Aprendamos com os bons exemplos.
sexta-feira, junho 18, 2004
Um caso de polícia e o jornalismo tablóide
A maneira como um caso de polícia passado em Porto de Mós é reportado em três jornais diários diferentes é ilustrativo das diferenças e semelhanças entre eles mas também do quanto se não pode confiar nos jornais para saber o que realmente aconteceu. Os jornais em causa são o Jornal de Notícias, o Correio de Manha e o Público. A notícia é mais longa e detalhada no CM, um pouco mais pequena no JN e ainda mais reduzida no Público. Há algumas informações importantes para uma boa peça de reportagem em que os três jornais são unanímes: Houve uma pessoa morta; essa pessoa foi morta à facada; posteriormente foi enterrada na areia; houve também dois feridos, um deles grave; e tudo aconteceu em Porto de Mós. Mas é só isto. Em tudo o resto, os três jornais dão informações divergentes. E em “tudo o resto” há coisas que convinha que estivessem de acordo, como o sexo da vítima mortal (mulher em dois e homem num); o motivo do crime (passional ou roubo); e a nacionalidade dos alegados autores (desconhecida segundo o JN e de leste segundo os outros dois).
Sobre este pequeno exercício há alguma reflexões que podem ser feitas:
1.Obviamente duas pessoas que leiam esta notícia em dois jornais diferentes terão uma ideia diferente do que aconteceu. E se porventura comentarem o caso uma com a outra, poderão ter a vaga noção de que estão a falar do mesmo assunto (o areal, as facadas, o corpo enterrado na areia, a nacionalidade da vítima ou dos alegados autores) mas notarão de imediato a divergência de informações. Foi isso que de facto sucedeu e suscitou esta reflexão. E isso é talvez o pior que pode acontecer do ponto de vista do jornalismo. Significa que dois leitores concluem que o mes moacontecimento (nem sequer estamos a falar de interpretações; trata-se de um mero reportar de factos) pode dar origem a notícias substancialmente diferentes.
2. Se se fizer uma média entre as três notícias e se procurar o maior denominador comum como forma de nos aproximarmos do que de facto terá acontecido no areal de Porto de Mós, concluiremos que o Público, jornal de referência, é certamente o que está mais longe da verdade. Pode ser porque não arrisca informações tão “etéreas” quanto os outros, o que não me parece ser o caso nesta notícia em particular, embora admita que o possa ser em muitas outras deste teor. Também pode ser porque não tem devidamente “oleada” a máquina de produção deste tipo de notícias. Ou seja, os seus jornalistas, editores, etc, tratam mais frquentemente outros assuntos e a sua ligação ao terreno deste tipo de notícias é necessariamente diferente daquela que possuem os jornalistas ou editores do JN ou o CM. Para o Público, um assassínio à facada em Porto de Mós é uma pequena notícia no Local. No JN ou no CM é uma notícia bem mais importante(a dimensão desta é bem o exemplo disso) e até pode ser manchete.
Isto não parece novidade. Mas o que acho interessante é que, tendo a dúvida sido suscitada por uma conversa em que eu tinha lido no Público e outra pessoas tinha lido no JN referências diferentes à mesma notícia de “faca e alguidar”, se venha a concluir que a outra pessoa estava afinal, sobre este assunto em particular, mais bem informada do que eu. É primeiro que tudo um desprestígio para o jornal de referência, que, ou não aborda o assunto por o não achar relevante; ou, se o aborda, deve abordá-lo com as informações devidamente fundamentadas (é por isso que se diz “de referência"). Mas é também uma prova de que, para quem procura este tipo de notícias, o CM ou o JN são realmente as escolhas certas. Não porque dão estas notícias e os outros não, mas também porque as dão tecnicamente melhor: mais aprofundadas; mais detalhadas e sobretudo mais fundamentadas.
3. O grau de detalhe que o CM consegue reproduzir na notícia é espantoso. Enquanto os outros nem “cheiram” a verdade ou simplesmente andam às “apalpadelas”, o CM até dá nome à vítima e reproduz todo o acontecimento num curioso registo narrativo próximo do da novela venezuelana. E fá-lo porque é este o registo que procuram os seus leitores; não querem interpretação, enquadramento ou opinião, como os leitores do Público; querem apenas saber como tudo aconteceu. Por isso o CM vende quatro vezes mais do que o Público. Procura o seu público, dá-lhe o que ele quer e beneficia do facto de ele ser mais numeroso. Talvez os jornais e referência devessem também aproximar o seu estilo a este, com menos análise e mais narrativa. Talvez assim cumprissem melhor a sua função social.
4. Outra análise curiosa é a gradação dos títulos. Já se viu que a notícia do Público é a mais pequena, a do CM é a maior e a do JN está entre ambas. Ora, os títulos seguem a mesma gradação, do mais frio e isento de emoção para o mais exuberante e carregado de emoção, típico de um tablóide. O Público titula “Rixa em Lagos Faz Um Morto e Dois Feridos”; o JN tem no título “Mulher esfaqueada enterrada na praia” e o CM faz valer uma informação mais precisa para dizer “Morta com 20 facadas”. O número faz aqui o papel de elemento emocional; destina-se a despoletar uma reação no leitor, a reacção que o levará a ler a notícia e a memorizar toda a história. O “enterrada na praia” do JN é quase tão bom, mas fica ainda assim uns furos abaixo das “20 facadas” do CM.
5. Mas este número tão preciso do CM não é afinal tão preciso assim. O Correio da “manha” desmascara mais uma das suas “manhas” no parágrafo seguinte: “A jovem terá sofrido cerca de duas dezenas de golpes de faca, um pouco por todo o corpo, que lhe provocaram a morte, após o que os homicidas tentaram enterrá-la no areal. O rapaz, que também foi esfaqueado, terá desfalecido ou ter-se-á feito passar por morto, o que, ao que tudo indica, lhe terá salvo a vida.”
“Terá sofrido”? Então mas o título não dizia “Morta com 20 facadas”? Não interessa. Nesta altura o leitor já está preso à narrativa e nem repara. Caiu no logro e ficarão para sempre 20 facadas, reais ou não.
Por outro lado, no mesmo parágrafo, também é interessante o “terá desfalecido ou ter-se-á feito passar por morto”. É uma das duas coisas! Mas melhor ainda é o detalhe de que “ao que tudo indica” isso lhe terá salvo a vida. O que é que “indica”? Já sabemos que “tudo” indica isso. Mas que “tudo”? Que informações sustentam essa indicação? Aquelas que já lemos no restante na notícia?
Jornalismo tablóide é isto. É assim que se faz e é assim que opera na mente de quem o lê. Qualquer pessoa o pode fazer, desde que tenha estômago para isso.
Sobre este pequeno exercício há alguma reflexões que podem ser feitas:
1.Obviamente duas pessoas que leiam esta notícia em dois jornais diferentes terão uma ideia diferente do que aconteceu. E se porventura comentarem o caso uma com a outra, poderão ter a vaga noção de que estão a falar do mesmo assunto (o areal, as facadas, o corpo enterrado na areia, a nacionalidade da vítima ou dos alegados autores) mas notarão de imediato a divergência de informações. Foi isso que de facto sucedeu e suscitou esta reflexão. E isso é talvez o pior que pode acontecer do ponto de vista do jornalismo. Significa que dois leitores concluem que o mes moacontecimento (nem sequer estamos a falar de interpretações; trata-se de um mero reportar de factos) pode dar origem a notícias substancialmente diferentes.
2. Se se fizer uma média entre as três notícias e se procurar o maior denominador comum como forma de nos aproximarmos do que de facto terá acontecido no areal de Porto de Mós, concluiremos que o Público, jornal de referência, é certamente o que está mais longe da verdade. Pode ser porque não arrisca informações tão “etéreas” quanto os outros, o que não me parece ser o caso nesta notícia em particular, embora admita que o possa ser em muitas outras deste teor. Também pode ser porque não tem devidamente “oleada” a máquina de produção deste tipo de notícias. Ou seja, os seus jornalistas, editores, etc, tratam mais frquentemente outros assuntos e a sua ligação ao terreno deste tipo de notícias é necessariamente diferente daquela que possuem os jornalistas ou editores do JN ou o CM. Para o Público, um assassínio à facada em Porto de Mós é uma pequena notícia no Local. No JN ou no CM é uma notícia bem mais importante(a dimensão desta é bem o exemplo disso) e até pode ser manchete.
Isto não parece novidade. Mas o que acho interessante é que, tendo a dúvida sido suscitada por uma conversa em que eu tinha lido no Público e outra pessoas tinha lido no JN referências diferentes à mesma notícia de “faca e alguidar”, se venha a concluir que a outra pessoa estava afinal, sobre este assunto em particular, mais bem informada do que eu. É primeiro que tudo um desprestígio para o jornal de referência, que, ou não aborda o assunto por o não achar relevante; ou, se o aborda, deve abordá-lo com as informações devidamente fundamentadas (é por isso que se diz “de referência"). Mas é também uma prova de que, para quem procura este tipo de notícias, o CM ou o JN são realmente as escolhas certas. Não porque dão estas notícias e os outros não, mas também porque as dão tecnicamente melhor: mais aprofundadas; mais detalhadas e sobretudo mais fundamentadas.
3. O grau de detalhe que o CM consegue reproduzir na notícia é espantoso. Enquanto os outros nem “cheiram” a verdade ou simplesmente andam às “apalpadelas”, o CM até dá nome à vítima e reproduz todo o acontecimento num curioso registo narrativo próximo do da novela venezuelana. E fá-lo porque é este o registo que procuram os seus leitores; não querem interpretação, enquadramento ou opinião, como os leitores do Público; querem apenas saber como tudo aconteceu. Por isso o CM vende quatro vezes mais do que o Público. Procura o seu público, dá-lhe o que ele quer e beneficia do facto de ele ser mais numeroso. Talvez os jornais e referência devessem também aproximar o seu estilo a este, com menos análise e mais narrativa. Talvez assim cumprissem melhor a sua função social.
4. Outra análise curiosa é a gradação dos títulos. Já se viu que a notícia do Público é a mais pequena, a do CM é a maior e a do JN está entre ambas. Ora, os títulos seguem a mesma gradação, do mais frio e isento de emoção para o mais exuberante e carregado de emoção, típico de um tablóide. O Público titula “Rixa em Lagos Faz Um Morto e Dois Feridos”; o JN tem no título “Mulher esfaqueada enterrada na praia” e o CM faz valer uma informação mais precisa para dizer “Morta com 20 facadas”. O número faz aqui o papel de elemento emocional; destina-se a despoletar uma reação no leitor, a reacção que o levará a ler a notícia e a memorizar toda a história. O “enterrada na praia” do JN é quase tão bom, mas fica ainda assim uns furos abaixo das “20 facadas” do CM.
5. Mas este número tão preciso do CM não é afinal tão preciso assim. O Correio da “manha” desmascara mais uma das suas “manhas” no parágrafo seguinte: “A jovem terá sofrido cerca de duas dezenas de golpes de faca, um pouco por todo o corpo, que lhe provocaram a morte, após o que os homicidas tentaram enterrá-la no areal. O rapaz, que também foi esfaqueado, terá desfalecido ou ter-se-á feito passar por morto, o que, ao que tudo indica, lhe terá salvo a vida.”
“Terá sofrido”? Então mas o título não dizia “Morta com 20 facadas”? Não interessa. Nesta altura o leitor já está preso à narrativa e nem repara. Caiu no logro e ficarão para sempre 20 facadas, reais ou não.
Por outro lado, no mesmo parágrafo, também é interessante o “terá desfalecido ou ter-se-á feito passar por morto”. É uma das duas coisas! Mas melhor ainda é o detalhe de que “ao que tudo indica” isso lhe terá salvo a vida. O que é que “indica”? Já sabemos que “tudo” indica isso. Mas que “tudo”? Que informações sustentam essa indicação? Aquelas que já lemos no restante na notícia?
Jornalismo tablóide é isto. É assim que se faz e é assim que opera na mente de quem o lê. Qualquer pessoa o pode fazer, desde que tenha estômago para isso.
quinta-feira, junho 17, 2004
Duas ironias a propósito das bandeiras
Esta súbita emergência de bandeiras em todas as janelas e em todos os automóveis deste país encerra duas ironias interessantes.
A primeira usa a Grécia como exemplo. A última vez que estive em Atenas coincidiu, por um mero acaso, com a celebração do dia nacional da Grécia, o equivalente ao nosso 10 de Junho. Nesse dia, fiquei espantado com a quantidade de bandeiras que vi desfraldadas das janelas gregas, demonstração de patriotismo dos gregos e também de confiança no seu momento actual como nação. Curiosamente, o nosso 10 de Junho aconteceu dias antes de iniciado o Euro 2004 e então eram ainda poucas as bandeiras que se viam na rua. E na mesma data há um ano atrás, não me lembro de ter visto qualquer bandeira que não as oficiais. Mas bastou que estivesse em causa o pontapé na bola para que os portugueses despertassem em massa para a exibição do seu símbolo nacional. E isso é profundamente irónico. Não sou capaz de dizer que demonstra falta de patriotismo (será mais um "clubismo nacional" do que "patriotismo"), mas demonstra pelo menos uma manifestaão bastante enviesada do patriotismo.
A segunda ironia prende-se com a notícia que ouvi que dizia que muitas têm sido as bandeiras roubadas a particulares e a entidades públicas, nalguns casos com os próprios mastros que as sustentam. É mais uma demonstração bem irónica do patriotismo desta gente: patriota sim mas sem custos e à custa dos outros!
A primeira usa a Grécia como exemplo. A última vez que estive em Atenas coincidiu, por um mero acaso, com a celebração do dia nacional da Grécia, o equivalente ao nosso 10 de Junho. Nesse dia, fiquei espantado com a quantidade de bandeiras que vi desfraldadas das janelas gregas, demonstração de patriotismo dos gregos e também de confiança no seu momento actual como nação. Curiosamente, o nosso 10 de Junho aconteceu dias antes de iniciado o Euro 2004 e então eram ainda poucas as bandeiras que se viam na rua. E na mesma data há um ano atrás, não me lembro de ter visto qualquer bandeira que não as oficiais. Mas bastou que estivesse em causa o pontapé na bola para que os portugueses despertassem em massa para a exibição do seu símbolo nacional. E isso é profundamente irónico. Não sou capaz de dizer que demonstra falta de patriotismo (será mais um "clubismo nacional" do que "patriotismo"), mas demonstra pelo menos uma manifestaão bastante enviesada do patriotismo.
A segunda ironia prende-se com a notícia que ouvi que dizia que muitas têm sido as bandeiras roubadas a particulares e a entidades públicas, nalguns casos com os próprios mastros que as sustentam. É mais uma demonstração bem irónica do patriotismo desta gente: patriota sim mas sem custos e à custa dos outros!
quarta-feira, maio 12, 2004
Política e futebol
Quando se fala da promiscuidade entre a política e o futebol, normalmente pensa-se em casos como o de Valentim Loureiro, o de Fátima Felgueiras e de muitos outros que se diz existirem pelo país fora. Mas a verdade é que a promiscuidade entre política e futebol começa muito antes disso e com actos muito mais aparentemente inócuos do que as ilegalidades ou irregularidades de que os autarcas referidos são acusados. Começa por exemplo, com as frequentes “palmadinhas nas costas” entre os políticos e os dirigentes desportivos sempre que qualquer clube consegue resultados positivos. Seja no Porto (mesmo no Boavista, como vimos quando o clube foi campeão), seja em Lisboa, há sempre alguns “adeptos” que por acaso também são políticos com responsabilidades e que não sabem separar as duas condições.
Depois, quando chega um evento com a importância desportiva da final da Liga dos Campeões é natural que surja alguma confusão sobre se o Primeiro-Ministro deve ou não estar presente. Essa confusão resulta do facto de domingo após domingo esta ligação aparentemente inócua entre a política e o futebol ser exercitada com a maior das naturalidades em todos os estádios de futebol. Se essa é a norma não é de estranhar, em primeiro lugar, que, por vezes, alguns políticos vão além da norma e infrinjam a lei. E, em segundo lugar, também não deve ser de estranhar que o Primeiro-Ministro queira cumprir a “norma” de “bom relacionamento” com um clube estando presente no momento em que esse clube disputa o mais importante galardão europeu, o qual, obviamente, muito projecta o nome de Portugal.
Não acho que Durão Barroso deva estar presente em Gelsenkirchen, mas acho que Durão Barroso pode estar em Gelsenkirchen se esse for o entendimento que ele faz da sua função. Obviamente competirá aos eleitores avaliar esse mesmo entendimento. Porque, como muito bem sublinhou Marques Mendes “neste caso não é o futebol” que está em causa. “O momento é importante para Portugal, não apenas para o F.C. Porto ou para os desportistas, mas para a imagem do país”. Resta perguntar se Durão Barroso esteve presente quando Saramago recebeu o Nobel ou se estava no estádio quando os paralímpicos portugueses trouxeram para o nosso país uma mão-cheia de medalhas.
Marques Mendes também deu como exemplo o Rei de Espanha, que esteve presente numa meia-final da mesma Liga dos Campeões que o F.C. Porto agora decide em apoio ao Deportivo da Corunha. Ora nem mais! Não sei se José Luís Zapatero também esteve por lá ou não, mas sei que no sistema político português a função de representação do Estado pertence ao Presidente da República e não ao Primeiro-Ministro. Num evento como a final da liga do campeões da UEFA, o Primeiro-Ministro pode estar presente, mas o Presidente deve estar presente. O Primeiro-Ministro tem uma função executiva, administra o poder executivo do Estado, e portanto deve estar saudavelmente distante de todas as entidades privadas, incluindo clubes de futebol. É este o entendimento que eu faço da função de chefia do Governo e desse ponto de vista não me espanta que Durão Barroso queira estar presente na Alemanha, acho coerente com aquelas que têm sido as suas atitudes passadas com relação em futebol (o que tem implícita uma crítica política) e acho compreensível no quadro de ligações capilares entre a política e o futebol que se vive em Portugal. Durão Barroso vai à Alemanha porque acha que não há problema (e porque espera conseguir votos, evidentemente). Para mim o problema é precisamente ele achar que não há problema. Isso é que é procupante. Porque releva um entendimento da sua própria função diferente daquele que me parece que resulta do arranjo institucional entre os vários órgãos do Estado.
A única voz que me lembro de ter ouvido falar com clareza e frontalidade sobre a separação das águas entre a política e o futebol foi a de Rui Rio e isso, obviamente isolou-o politicamente (mesmo dentro do seu partido) e custou-lhe a edilidade. Que venha para Lisboa! O meu voto terá concerteza!
Depois, quando chega um evento com a importância desportiva da final da Liga dos Campeões é natural que surja alguma confusão sobre se o Primeiro-Ministro deve ou não estar presente. Essa confusão resulta do facto de domingo após domingo esta ligação aparentemente inócua entre a política e o futebol ser exercitada com a maior das naturalidades em todos os estádios de futebol. Se essa é a norma não é de estranhar, em primeiro lugar, que, por vezes, alguns políticos vão além da norma e infrinjam a lei. E, em segundo lugar, também não deve ser de estranhar que o Primeiro-Ministro queira cumprir a “norma” de “bom relacionamento” com um clube estando presente no momento em que esse clube disputa o mais importante galardão europeu, o qual, obviamente, muito projecta o nome de Portugal.
Não acho que Durão Barroso deva estar presente em Gelsenkirchen, mas acho que Durão Barroso pode estar em Gelsenkirchen se esse for o entendimento que ele faz da sua função. Obviamente competirá aos eleitores avaliar esse mesmo entendimento. Porque, como muito bem sublinhou Marques Mendes “neste caso não é o futebol” que está em causa. “O momento é importante para Portugal, não apenas para o F.C. Porto ou para os desportistas, mas para a imagem do país”. Resta perguntar se Durão Barroso esteve presente quando Saramago recebeu o Nobel ou se estava no estádio quando os paralímpicos portugueses trouxeram para o nosso país uma mão-cheia de medalhas.
Marques Mendes também deu como exemplo o Rei de Espanha, que esteve presente numa meia-final da mesma Liga dos Campeões que o F.C. Porto agora decide em apoio ao Deportivo da Corunha. Ora nem mais! Não sei se José Luís Zapatero também esteve por lá ou não, mas sei que no sistema político português a função de representação do Estado pertence ao Presidente da República e não ao Primeiro-Ministro. Num evento como a final da liga do campeões da UEFA, o Primeiro-Ministro pode estar presente, mas o Presidente deve estar presente. O Primeiro-Ministro tem uma função executiva, administra o poder executivo do Estado, e portanto deve estar saudavelmente distante de todas as entidades privadas, incluindo clubes de futebol. É este o entendimento que eu faço da função de chefia do Governo e desse ponto de vista não me espanta que Durão Barroso queira estar presente na Alemanha, acho coerente com aquelas que têm sido as suas atitudes passadas com relação em futebol (o que tem implícita uma crítica política) e acho compreensível no quadro de ligações capilares entre a política e o futebol que se vive em Portugal. Durão Barroso vai à Alemanha porque acha que não há problema (e porque espera conseguir votos, evidentemente). Para mim o problema é precisamente ele achar que não há problema. Isso é que é procupante. Porque releva um entendimento da sua própria função diferente daquele que me parece que resulta do arranjo institucional entre os vários órgãos do Estado.
A única voz que me lembro de ter ouvido falar com clareza e frontalidade sobre a separação das águas entre a política e o futebol foi a de Rui Rio e isso, obviamente isolou-o politicamente (mesmo dentro do seu partido) e custou-lhe a edilidade. Que venha para Lisboa! O meu voto terá concerteza!
As assustadoras máfias de leste
Não resisto a reproduzir na íntegra um e-mail que me chegou hoje, daqueles aos quais alguém faz forward para um grupo seleccionado de endereços e que assim se propaga de uma forma bem mais eficaz que qualquer vírus: selectivamente.
“AVISO DA PSP
Máfias de Leste
No outro dia, 10 indivíduos deram um concerto de Musica sinfónica em apoio aos emigrantes de leste no teatro Gil Vicente em Coimbra.
Depois de se apagarem as luzes para se dar inicio ao concerto, um deles sacou de uma metralhadora, enquanto os outros faziam a colecta dos bens e dinheiro transportado pelos espectadores.
Acabado o trabalho, fugiram pelos bastidores.
Alertadas as autoridades, qual não foi o espanto ao saber-se que este grupo tem dado concertos semelhantes noutras cidades de província com o mesmo resultado.
Aconteceu na semana passada na Avenida Marechal Gomes da Costa no Porto em plena luz do dia. Seriam umas 15:30. Um sujeito ao parar nos semáforos foi abordado por um indivíduo de Leste, daqueles que costumam andar a tocar acordeão ou violino.
O indivíduo tinha um ar simpático e abeirou-se dele a tocar o tal acordeão. Ele decidiu dar-lhe 50 cêntimos, abriu o vidro e quando lhe estendeu a mão com a moeda, o individuo puxou-a violentamente e apontou-lhe imediatamente uma faca ao pescoço e obrigou-o a dar o telemóvel e a carteira, que continha na altura cerca de 250 euros, pondo-se imediatamente em fuga.
Nenhum dos condutores dos carros a volta se apercebeu ou fez qualquer coisa para o ajudar.
O meu amigo dirigiu-se imediatamente a uma esquadra da polícia e contou o sucedido, onde, para espanto dele, foi informado de que já não era a primeira vez que isto acontecia, que já tinham cerca de 10 queixas de igual procedimento.
Penso tratar-se de uma rede organizada que também opera em Lisboa, de pedintes profissionais.
Se reparar bem, a maior parte deles nem sabe tocar devidamente o instrumento, servindo-se dele como método de abordagem para posteriormente assaltar o incauto condutor.
Esta rede também se dedica ao tráfico de crianças e roubo de bebes.
Em Espanha já houve algumas queixas que estes indivíduos de Leste roubaram bebes do banco traseiro dos carros.
Enquanto um toca ao lado do condutor, um cúmplice vai por trás e rouba a criança, vendendo-as depois para pais que desejem adoptar noutros países.
Passem este E-mail ao maior número de amigos e conhecidos e futuramente, tenham cuidado com estes indivíduos.
Tranquem sempre as portas e fechem os vidros quando eles se aproximarem e desconfiem do aspecto simpático, pois normalmente são perigosos criminosos.
Divulguem este E-mail o mais que puderem e ajudem a combater esta praga, porque amanhã pode ser um de nós.
Tenente António Santos Alonso
Comando Central da PSP Porto”
Não sei se este apelo à vigilância popular tem algum fundo real ou não. Fiz uma pequena pesquisa à procura de notícias de qualquer dos acontecimentos descritos, mas não encontrei nenhum e convenhamos que um assalto colectivo de metralhadora em punho seria algo improvável de escapar aos meios de comunicação social.
Por isso suponho que seja inventado. Mas parece-me muito bem inventado. Tão bem inventado que quase podia ser verdadeiro... Achei sobretudo delicioso o detalhe de ser considerado agravante dos crimes cometidos o facto de os assaltantes nem saberem “tocar devidamente o instrumento”.
“AVISO DA PSP
Máfias de Leste
No outro dia, 10 indivíduos deram um concerto de Musica sinfónica em apoio aos emigrantes de leste no teatro Gil Vicente em Coimbra.
Depois de se apagarem as luzes para se dar inicio ao concerto, um deles sacou de uma metralhadora, enquanto os outros faziam a colecta dos bens e dinheiro transportado pelos espectadores.
Acabado o trabalho, fugiram pelos bastidores.
Alertadas as autoridades, qual não foi o espanto ao saber-se que este grupo tem dado concertos semelhantes noutras cidades de província com o mesmo resultado.
Aconteceu na semana passada na Avenida Marechal Gomes da Costa no Porto em plena luz do dia. Seriam umas 15:30. Um sujeito ao parar nos semáforos foi abordado por um indivíduo de Leste, daqueles que costumam andar a tocar acordeão ou violino.
O indivíduo tinha um ar simpático e abeirou-se dele a tocar o tal acordeão. Ele decidiu dar-lhe 50 cêntimos, abriu o vidro e quando lhe estendeu a mão com a moeda, o individuo puxou-a violentamente e apontou-lhe imediatamente uma faca ao pescoço e obrigou-o a dar o telemóvel e a carteira, que continha na altura cerca de 250 euros, pondo-se imediatamente em fuga.
Nenhum dos condutores dos carros a volta se apercebeu ou fez qualquer coisa para o ajudar.
O meu amigo dirigiu-se imediatamente a uma esquadra da polícia e contou o sucedido, onde, para espanto dele, foi informado de que já não era a primeira vez que isto acontecia, que já tinham cerca de 10 queixas de igual procedimento.
Penso tratar-se de uma rede organizada que também opera em Lisboa, de pedintes profissionais.
Se reparar bem, a maior parte deles nem sabe tocar devidamente o instrumento, servindo-se dele como método de abordagem para posteriormente assaltar o incauto condutor.
Esta rede também se dedica ao tráfico de crianças e roubo de bebes.
Em Espanha já houve algumas queixas que estes indivíduos de Leste roubaram bebes do banco traseiro dos carros.
Enquanto um toca ao lado do condutor, um cúmplice vai por trás e rouba a criança, vendendo-as depois para pais que desejem adoptar noutros países.
Passem este E-mail ao maior número de amigos e conhecidos e futuramente, tenham cuidado com estes indivíduos.
Tranquem sempre as portas e fechem os vidros quando eles se aproximarem e desconfiem do aspecto simpático, pois normalmente são perigosos criminosos.
Divulguem este E-mail o mais que puderem e ajudem a combater esta praga, porque amanhã pode ser um de nós.
Tenente António Santos Alonso
Comando Central da PSP Porto”
Não sei se este apelo à vigilância popular tem algum fundo real ou não. Fiz uma pequena pesquisa à procura de notícias de qualquer dos acontecimentos descritos, mas não encontrei nenhum e convenhamos que um assalto colectivo de metralhadora em punho seria algo improvável de escapar aos meios de comunicação social.
Por isso suponho que seja inventado. Mas parece-me muito bem inventado. Tão bem inventado que quase podia ser verdadeiro... Achei sobretudo delicioso o detalhe de ser considerado agravante dos crimes cometidos o facto de os assaltantes nem saberem “tocar devidamente o instrumento”.
segunda-feira, abril 26, 2004
Exemplo democrático
A posição do PP a propósito da condecoração de Isabel do Carmo, recusando-se a comparecer na cerimónia, é compreensível e até aceitável. É coerente com o discurso do partido, manifesta uma posição sem afrontar as instituições e tem fundamentos para reflexão.
Depois do 11 de Setembro, do atentado que vitimou Sérgio Vieira de Mello e das explosões de Madrid, a sensibilidade europeia ocidental face ao terrorismo mudou sensivelmente. Se já antes a frequência verdadeiramente assustadora com que explodiam os autocarros cheios de israelitas causava perplexidade a qualquer espírito não alinhado ideologicamente, agora é ainda maior o número de pessoas que compreendem porque razão existe terrorismo mas não o consideram legítimo. É verdade que Yasser Arafat continua a gozar de grande prestígio, mas mais pelo seu passado do que pelo seu presente, mais como representante de um povo martirizado a caminho do ocaso político do que como efectivo líder do movimento. Os efectivos terroristas, esses não recebem da opinião pública ocidental, em particular dos seus intelectuais, o mesmo grau de simpatia de que muitos terroristas beneficiaram no passado.
O clima político favorece, portanto, posições anti-terroristas e o PP foi inteligente ao percebê-lo. Mas, mais do que uma mera manobra de aproveitamento político, a decisão de não comparecer à cerimónia de atribuição das comendas como forma de protesto contra o elogio público de Isabel do Carmo parece genuína e é sem dúvida coerente com as posições recentes do partido e mesmo com a sua história.
Mas igualmente coerente foi o presidente Jorge Sampaio. Sampaio foi eleito com base num programa presidencial de esquerda (tão de esquerda quanto o pode ser um programa presidencial, obviamente com muitas ideias e poucas propostas de acção) e pôs a sufrágio – como qualquer candidato a presidente – o seu passado político, como se sabe recheado de posições pessoais corajosas e cheias de implicações práticas em defesa de valores que Isabel do Carmo partilha e a referida comenda se destina a premiar. Por isso, mesmo que não fosse previsível, a atribuição da Ordem da Liberdade a Isabel do Carmo era plausível. Não seria fácil de prever mas seria fácil de conceber atendendo ao que é a história política de Sampaio e as suas posições recentes.
Temos portanto uma reacção séria e legítima de um partido político, fundada nos valores que defende, à posição igualmente séria e legitima de um Presidente da República, em coerência com os princípios que defende e em nome dos quais foi eleito. As duas entidades tiveram portanto bem neste processo e deram ambas um exemplo de boa política, a contrastar com os muitos de sentido contrário que diariamente nos desiludem.
Mas a cereja no bolo veio da própria Isabel do Carmo que, quando confrontada com a recusa do PP em participar na cerimónia, considerou que essa recusa tinha «significado» e disse que já esperava esta reacção dos «partidos de direita para os quais a minha pessoa deve ser insuportável de facto. E oxalá que seja!». Nada mais claro portanto: a extrema-direita onde deve estar, a extrema-esquerda nos seus antípodas e o Presidente no cumprimento do seu programa eleitoral. Todos em respeito uns pelos outros e ao sistema democrático que lhes enquadra o discurso e a acção política. O acontecimento não é grandiloquente, mas a acção das partes foi-o.
Depois do 11 de Setembro, do atentado que vitimou Sérgio Vieira de Mello e das explosões de Madrid, a sensibilidade europeia ocidental face ao terrorismo mudou sensivelmente. Se já antes a frequência verdadeiramente assustadora com que explodiam os autocarros cheios de israelitas causava perplexidade a qualquer espírito não alinhado ideologicamente, agora é ainda maior o número de pessoas que compreendem porque razão existe terrorismo mas não o consideram legítimo. É verdade que Yasser Arafat continua a gozar de grande prestígio, mas mais pelo seu passado do que pelo seu presente, mais como representante de um povo martirizado a caminho do ocaso político do que como efectivo líder do movimento. Os efectivos terroristas, esses não recebem da opinião pública ocidental, em particular dos seus intelectuais, o mesmo grau de simpatia de que muitos terroristas beneficiaram no passado.
O clima político favorece, portanto, posições anti-terroristas e o PP foi inteligente ao percebê-lo. Mas, mais do que uma mera manobra de aproveitamento político, a decisão de não comparecer à cerimónia de atribuição das comendas como forma de protesto contra o elogio público de Isabel do Carmo parece genuína e é sem dúvida coerente com as posições recentes do partido e mesmo com a sua história.
Mas igualmente coerente foi o presidente Jorge Sampaio. Sampaio foi eleito com base num programa presidencial de esquerda (tão de esquerda quanto o pode ser um programa presidencial, obviamente com muitas ideias e poucas propostas de acção) e pôs a sufrágio – como qualquer candidato a presidente – o seu passado político, como se sabe recheado de posições pessoais corajosas e cheias de implicações práticas em defesa de valores que Isabel do Carmo partilha e a referida comenda se destina a premiar. Por isso, mesmo que não fosse previsível, a atribuição da Ordem da Liberdade a Isabel do Carmo era plausível. Não seria fácil de prever mas seria fácil de conceber atendendo ao que é a história política de Sampaio e as suas posições recentes.
Temos portanto uma reacção séria e legítima de um partido político, fundada nos valores que defende, à posição igualmente séria e legitima de um Presidente da República, em coerência com os princípios que defende e em nome dos quais foi eleito. As duas entidades tiveram portanto bem neste processo e deram ambas um exemplo de boa política, a contrastar com os muitos de sentido contrário que diariamente nos desiludem.
Mas a cereja no bolo veio da própria Isabel do Carmo que, quando confrontada com a recusa do PP em participar na cerimónia, considerou que essa recusa tinha «significado» e disse que já esperava esta reacção dos «partidos de direita para os quais a minha pessoa deve ser insuportável de facto. E oxalá que seja!». Nada mais claro portanto: a extrema-direita onde deve estar, a extrema-esquerda nos seus antípodas e o Presidente no cumprimento do seu programa eleitoral. Todos em respeito uns pelos outros e ao sistema democrático que lhes enquadra o discurso e a acção política. O acontecimento não é grandiloquente, mas a acção das partes foi-o.
quinta-feira, abril 22, 2004
Tudo o que se diz...
A capa do Record de hoje passa certamente a constituir mais uma página para a história do mau jornalismo em Portugal. O título garrafal diz simplesmente isto a propósito de Valentim Loureiro: «Tudo o que se diz que ele fez». Tudo o que «se diz»? Há alguma confirmação (já nem peço duas…) para o que «se diz»? Corresponde «o que se diz» a alguma acusação ou alguma denúncia imputável a alguém? Claro que não. «O que se diz» é simplesmente tudo aquilo de que os editores do jornal tomarem conhecimento e que achem suficientemente interessante para publicar. Independentemente de ter ou não ter qualquer tipo de confirmação. Não vi em detalhe o conteúdo do jornal, mas imagino que corresponde ao que é anunciado na primeira página.
Então pergunto: o que me impede a mim de, para prejudicar alguém ou por simples gozo, telefonar anonimamente para o jornal a dizer que também fui aliciado pelo suspeito A ou B para influenciar a classificação do árbitro X em função de um seu «serviço» no jogo Y. Se a montagem fosse minimamente credível e estivessem em causa clubes sonantes, seriam os mesmos editores que seguem esta política informativa capazes de resistir a publicar a informação ao abrigo do critério de «o que se diz».
Publicar «o que se diz» contraria todas as regras do jornalismo e coloca o órgão informativo que o faz à mercê de todo o tipo de imprecisões e manipulações. E não é por acontecer num jornal desportivo que esta primeira página deve merecer menos o nosso repúdio do que mereceria se acontecesse no Público ou no Diário de Notícias. Ou será que, tal como o futebol na sociedade, também o jornalismo desportivo é um mundo à parte do restante jornalismo? Será que não é também composto por jornalistas encartados? Será que não tem por missão transmitir informações fidedignas sobre as matérias que aborda? Talvez muitas pessoas achem que o assunto é de somenos porque estamos a falar de jornalismo desportivo, mas isso é um erro. É um erro correntemente repetido, mas não deixa de ser um erro. Primeiro porque, como todo o jornalismo, também o jornalismo desportivo contribui para a formação da opinião das pessoas sobre a actualidade; e, como toda a comunicação social, também aquilo que publicam os jornais desportivos serve para moldar o nosso entendimento da via em sociedade. E o que uma primeira página como esta diz a uns largos milhares de pessoas (tomara o Público ou o DN…) – tal como muitas outras capas que a imprensa desportiva publica com numa preocupante regularidade – é que não se pode confiar nos jornais. Desportivos ou não desportivos. Ou seja, uma primeira página como esta presta um mau serviço ao jornalismo, mas, sobretudo, presta um mau serviço à sociedade.
Então pergunto: o que me impede a mim de, para prejudicar alguém ou por simples gozo, telefonar anonimamente para o jornal a dizer que também fui aliciado pelo suspeito A ou B para influenciar a classificação do árbitro X em função de um seu «serviço» no jogo Y. Se a montagem fosse minimamente credível e estivessem em causa clubes sonantes, seriam os mesmos editores que seguem esta política informativa capazes de resistir a publicar a informação ao abrigo do critério de «o que se diz».
Publicar «o que se diz» contraria todas as regras do jornalismo e coloca o órgão informativo que o faz à mercê de todo o tipo de imprecisões e manipulações. E não é por acontecer num jornal desportivo que esta primeira página deve merecer menos o nosso repúdio do que mereceria se acontecesse no Público ou no Diário de Notícias. Ou será que, tal como o futebol na sociedade, também o jornalismo desportivo é um mundo à parte do restante jornalismo? Será que não é também composto por jornalistas encartados? Será que não tem por missão transmitir informações fidedignas sobre as matérias que aborda? Talvez muitas pessoas achem que o assunto é de somenos porque estamos a falar de jornalismo desportivo, mas isso é um erro. É um erro correntemente repetido, mas não deixa de ser um erro. Primeiro porque, como todo o jornalismo, também o jornalismo desportivo contribui para a formação da opinião das pessoas sobre a actualidade; e, como toda a comunicação social, também aquilo que publicam os jornais desportivos serve para moldar o nosso entendimento da via em sociedade. E o que uma primeira página como esta diz a uns largos milhares de pessoas (tomara o Público ou o DN…) – tal como muitas outras capas que a imprensa desportiva publica com numa preocupante regularidade – é que não se pode confiar nos jornais. Desportivos ou não desportivos. Ou seja, uma primeira página como esta presta um mau serviço ao jornalismo, mas, sobretudo, presta um mau serviço à sociedade.
quarta-feira, abril 21, 2004
Justiça à americana
A propósito da notícia de que as crianças sexualmente molestadas dos Açores tinham desistido das respectivas queixasa troco de dinheiro, preocupa-me que o responsável pelo organismo de ética da Ordem dos Advogados tenha dito na TSF que considerava essa solução aceitável, desde que fosse uma decisão informada e devidamente mediada por uma negociação entre os advogados. Obviamente, tal posição pretende antes de tudo, preservar a posição dos advogados, como convém a um representante de classe e isso nada tem de pernicioso. A haver uma negociação, ela deve ser informada e negociada pelos advogados. Nada mais natural, portanto.
Mas esta tomada de posição também tem subjacente, na minha opinião, uma visão do sistema de justiça com a qual eu não concordo. Não sou jurista, mas como cidadão parece-me que o conceito de indemnização faz sentido num processo cível, mas não faz o mesmo sentido, ou pelo menos não tem o mesmo valor, num processo criminal. Num processo cível repara-se um dano, num processo criminal pune-se um crime. Neste caso a indemnização é uma sanção apenas acessória e a sanção essencial é a punição do criminoso. E não interessa aqui se se trata de crimes públicos, semi-públicos ou privados. Isso só interessa do ponto de vista de quem pode acusar, não do ponto de vista de como o processo é resolvido.
Parece-me, e é isso que mais me preocupa, que a posição do referido dirigente da Ordem dos Advogados se inscreve numa tendência de aproximação da nossa maneira de operar a justiça à forma como isso é feito no sistema de justiça norte-americano. A justiça norte-americana é certamente a mais eficaz do mundo civilizado. Os processos são céleres, as negociações são abundantes e altamente profissionais, reservando espaço e tempo judicial para os casos que realmente dele necessitam. Mas, como europeu, o sistema de justiça norte-americano causa-me algumas reservas, basicamente porque leva os mecanismos que o tornam eficaz muito perto de atingirem os valores que sustentam os princípios do sistema de justiça. Ultrapassam-nos algumas vezes, mas sobretudo forçam-nos muitas vezes. Como europeu custa-me a aceitar. Uma solução como a proposta, que corresponde basicamente a um mecanismo de «pagar para calar», deixa sempre um travo amargo a injustiça, mesmo que seja para preservar um interesse público entendido como superior, o que no caso em concreto é aliás difícil de aceitar.
Num outro nível mas seguindo o mesmo raciocínio, a negociação que perdoa a um arguido alguns dos numerosos crimes que lhe são imputados para se poder acusar outros arguidos, se calhar menos «criminosos» mas mais poderosos ou colocados mais acima na escala hierárquica do crime, também belisca o mesmo princípio da justiça criminal. Todos percebemos que é muito mais eficaz assim, mas causa algum desconforto pensar que um indivíduo que é responsável por crimes graves seja aliviado da responsabilidade criminal pelos mesmos para condenar outros. Essa é uma situação injusta primeiro que tudo para as vítimas do primeiro criminoso, obviamente, mas que estende esse sentimento de injustiça a toda a comunidade.
Pode-se argumentar que essa negociação deve ser a excepção e não a regra. Mas uma vez aberto o precedente, ela tende inevitavelmente a tornar-se a regra e não a excepção, uma vez que os acusadores não resistem a uma meio tão expedido de alargar o número de acusações, o principal indicador da sua própria eficácia, mais do que as próprias condenações.
Pegando num exemplo prático, se estivéssemos nos EUA, um criminoso como Bibi decerto já teria feito uma negociação (como se anuncia que pode vir a fazer) permitindo ilibá-lo de algumas das penas que lhe seriam devidas por troca com a colaboração com a justiça na acusação a outros arguidos «mais importantes» mas provavelmente menos prevaricadores. Mas é por esse ser um recurso tão frequente nos EUA que ele se torna banal e se converte muitas vezes na primeira opção, o que, se é verdade que resolve os casos de uma forma mais simples e mais rápida, não é menos verdade que acaba por deixar impunes criminosos muitas vezes mais assustadores do que aqueles que permite apanhar. A justiça é mais eficiente porque reduz a impunidade mas é menos justa porque reduz penas a quem as merecia cumprir. E, afinal, a «justiça» deve ser o primeiro valor que o sistema deve preservar.
Decerto o representante da Ordem dos Advogados anteriormente aludido também defende uma negociação neste caso, e pelas mesmíssimas razões que o fez no primeiro. Mas se nos EUA isso não causa incómodo, acho que na Europa – e particularmente em Portugal no que se refere a Bibi e ao caso Casa Pia – uma solução desse género deixaria um travo amargo a injustiça. O que tem que ver com o facto de o apego aos valores e à sua preservação ser mais forte na Europa do que nos EUA. Há aqui matrizes culturais que nos distinguem, que devemos preservar e que devem enformar o modo como lidamos com a aplicação da justiça.
Mas esta tomada de posição também tem subjacente, na minha opinião, uma visão do sistema de justiça com a qual eu não concordo. Não sou jurista, mas como cidadão parece-me que o conceito de indemnização faz sentido num processo cível, mas não faz o mesmo sentido, ou pelo menos não tem o mesmo valor, num processo criminal. Num processo cível repara-se um dano, num processo criminal pune-se um crime. Neste caso a indemnização é uma sanção apenas acessória e a sanção essencial é a punição do criminoso. E não interessa aqui se se trata de crimes públicos, semi-públicos ou privados. Isso só interessa do ponto de vista de quem pode acusar, não do ponto de vista de como o processo é resolvido.
Parece-me, e é isso que mais me preocupa, que a posição do referido dirigente da Ordem dos Advogados se inscreve numa tendência de aproximação da nossa maneira de operar a justiça à forma como isso é feito no sistema de justiça norte-americano. A justiça norte-americana é certamente a mais eficaz do mundo civilizado. Os processos são céleres, as negociações são abundantes e altamente profissionais, reservando espaço e tempo judicial para os casos que realmente dele necessitam. Mas, como europeu, o sistema de justiça norte-americano causa-me algumas reservas, basicamente porque leva os mecanismos que o tornam eficaz muito perto de atingirem os valores que sustentam os princípios do sistema de justiça. Ultrapassam-nos algumas vezes, mas sobretudo forçam-nos muitas vezes. Como europeu custa-me a aceitar. Uma solução como a proposta, que corresponde basicamente a um mecanismo de «pagar para calar», deixa sempre um travo amargo a injustiça, mesmo que seja para preservar um interesse público entendido como superior, o que no caso em concreto é aliás difícil de aceitar.
Num outro nível mas seguindo o mesmo raciocínio, a negociação que perdoa a um arguido alguns dos numerosos crimes que lhe são imputados para se poder acusar outros arguidos, se calhar menos «criminosos» mas mais poderosos ou colocados mais acima na escala hierárquica do crime, também belisca o mesmo princípio da justiça criminal. Todos percebemos que é muito mais eficaz assim, mas causa algum desconforto pensar que um indivíduo que é responsável por crimes graves seja aliviado da responsabilidade criminal pelos mesmos para condenar outros. Essa é uma situação injusta primeiro que tudo para as vítimas do primeiro criminoso, obviamente, mas que estende esse sentimento de injustiça a toda a comunidade.
Pode-se argumentar que essa negociação deve ser a excepção e não a regra. Mas uma vez aberto o precedente, ela tende inevitavelmente a tornar-se a regra e não a excepção, uma vez que os acusadores não resistem a uma meio tão expedido de alargar o número de acusações, o principal indicador da sua própria eficácia, mais do que as próprias condenações.
Pegando num exemplo prático, se estivéssemos nos EUA, um criminoso como Bibi decerto já teria feito uma negociação (como se anuncia que pode vir a fazer) permitindo ilibá-lo de algumas das penas que lhe seriam devidas por troca com a colaboração com a justiça na acusação a outros arguidos «mais importantes» mas provavelmente menos prevaricadores. Mas é por esse ser um recurso tão frequente nos EUA que ele se torna banal e se converte muitas vezes na primeira opção, o que, se é verdade que resolve os casos de uma forma mais simples e mais rápida, não é menos verdade que acaba por deixar impunes criminosos muitas vezes mais assustadores do que aqueles que permite apanhar. A justiça é mais eficiente porque reduz a impunidade mas é menos justa porque reduz penas a quem as merecia cumprir. E, afinal, a «justiça» deve ser o primeiro valor que o sistema deve preservar.
Decerto o representante da Ordem dos Advogados anteriormente aludido também defende uma negociação neste caso, e pelas mesmíssimas razões que o fez no primeiro. Mas se nos EUA isso não causa incómodo, acho que na Europa – e particularmente em Portugal no que se refere a Bibi e ao caso Casa Pia – uma solução desse género deixaria um travo amargo a injustiça. O que tem que ver com o facto de o apego aos valores e à sua preservação ser mais forte na Europa do que nos EUA. Há aqui matrizes culturais que nos distinguem, que devemos preservar e que devem enformar o modo como lidamos com a aplicação da justiça.
domingo, abril 18, 2004
Teste de sanidade social
Ontem, quando alguém a meu lado folheava uma revista do «social», por um mero acaso pus-me a reparar que página após página, não conhecia nenhuma das pessoas que eram objecto das mesmas: modelos, actores ou actrizes de televisão, modistas, ex-participantes em concursos, etc. E isso levou-me a pensar neste modo original de medir a nossa sanidade social.
Recuando há não mais de um ano atrás, recordo o assombro com que detectava o meu próprio conhecimento acerca de um conjunto de gente que ocupava as páginas do «social» e à qual eu não reconhecia nenhum mérito especial para merecer essa atenção. E, em parte, esse conhecimento resultava do facto de as pessoas retratadas nesses artigos serem frequente objectos de conversa: ao almoço, no emprego, nos transportes, etc. Pareciam estar por toda a parte, impondo-se-me como se independentemente da minha vontade. Não chegaria ao ponto de considerar a sua recusa anti-social, mas não anvada longe de o ser.
Mas agora, passo os olhos por um exemplar ao acaso de uma revista do «social» e já quase não conheço ninguém. O que me deixa sinceramente empolgado. Como se as coisas assumissem o seu curso natural. É perfeitamente natural que eu não conheça uma pessoa que participou num concurso televisivo há uns meses atrás e hoje faz não sei bem o quê no mundo da moda. Esse desconhecimento faz-me sentir bem comigo próprio, tal como dantes o conhecimento que tinha de pessoas que não sabia porque razão conhecia me fazia sentir incomodado.
A nossa sanidade mental está em causa quando a nossa auto-imagem não é coerente com aquilo que somos ou com o nosso comportamento. Do mesmo modo, a nossa sanidade social está afectada quando as nossas ligações sociais, directas ou mediadas pela comunicação social, não estão de acordo com o que realmente achamos que é importante. Não está aqui subjacente nenhum juízo de valor do género «eu estou certo, o tipo que se interessa pelo ex-concorrente do Big Brother está errado». Não se trata disso. Trata-se simplesmente de manter a coerência entre aquilo (e as pessoas) que achamos importantes e aquilo (e as pessoas) com que nos ligamos socialmente. E, no meu caso, particular, descobrir que passo folhas várias de uma revista do «social» antes de descobrir alguém que eu conheça, revela, em primeiro lugar, que não conheço as pessoas que realmente não me interessa conhecer; e indicia, em segundo lugar, que tenho estado a ocupar o meu tempo social com coisas bem mais importantes do que aquelas que para mim não têm qualquer importância.
Daí que me atreva a propor este exercício de teor estatístico para avaliar a sanidade social de quem se interessa por aquilo que realmente é importante: reunir três revistas do «social», de preferência da mesma semana (tipo Caras, Vip e Nova Gente), e folheá-las anotando o número de «figuras públicas» que conhecemos. E depois repetir o exercício uns meses depois. Se esse número diminuir, e porque estamos no bom caminho.
Recuando há não mais de um ano atrás, recordo o assombro com que detectava o meu próprio conhecimento acerca de um conjunto de gente que ocupava as páginas do «social» e à qual eu não reconhecia nenhum mérito especial para merecer essa atenção. E, em parte, esse conhecimento resultava do facto de as pessoas retratadas nesses artigos serem frequente objectos de conversa: ao almoço, no emprego, nos transportes, etc. Pareciam estar por toda a parte, impondo-se-me como se independentemente da minha vontade. Não chegaria ao ponto de considerar a sua recusa anti-social, mas não anvada longe de o ser.
Mas agora, passo os olhos por um exemplar ao acaso de uma revista do «social» e já quase não conheço ninguém. O que me deixa sinceramente empolgado. Como se as coisas assumissem o seu curso natural. É perfeitamente natural que eu não conheça uma pessoa que participou num concurso televisivo há uns meses atrás e hoje faz não sei bem o quê no mundo da moda. Esse desconhecimento faz-me sentir bem comigo próprio, tal como dantes o conhecimento que tinha de pessoas que não sabia porque razão conhecia me fazia sentir incomodado.
A nossa sanidade mental está em causa quando a nossa auto-imagem não é coerente com aquilo que somos ou com o nosso comportamento. Do mesmo modo, a nossa sanidade social está afectada quando as nossas ligações sociais, directas ou mediadas pela comunicação social, não estão de acordo com o que realmente achamos que é importante. Não está aqui subjacente nenhum juízo de valor do género «eu estou certo, o tipo que se interessa pelo ex-concorrente do Big Brother está errado». Não se trata disso. Trata-se simplesmente de manter a coerência entre aquilo (e as pessoas) que achamos importantes e aquilo (e as pessoas) com que nos ligamos socialmente. E, no meu caso, particular, descobrir que passo folhas várias de uma revista do «social» antes de descobrir alguém que eu conheça, revela, em primeiro lugar, que não conheço as pessoas que realmente não me interessa conhecer; e indicia, em segundo lugar, que tenho estado a ocupar o meu tempo social com coisas bem mais importantes do que aquelas que para mim não têm qualquer importância.
Daí que me atreva a propor este exercício de teor estatístico para avaliar a sanidade social de quem se interessa por aquilo que realmente é importante: reunir três revistas do «social», de preferência da mesma semana (tipo Caras, Vip e Nova Gente), e folheá-las anotando o número de «figuras públicas» que conhecemos. E depois repetir o exercício uns meses depois. Se esse número diminuir, e porque estamos no bom caminho.
Outra vez Saramago
Já comecei a ler romances de Saramago umas quantas vezes, mas apenas uma ou duas consegui acabá-los com um mínimo de interesse. Na verdade carreguei essa aparente impossibilidade de me ligar enquanto leitor com o mais famoso dos nossos escritores actuais com algum desconforto. Mas recentemente tenho vindo a descobrir que estou longe de ser o único e até me parece que somos mais os que não lemos Saramago do que os que o lêem com prazer. Isso deu-me coragem «to come out of the closet». Hoje em dia são certamente aqueles que se deliciam com Saramago que estão «in closet», cada vez menos à vontade para «confessarem» publicamente as suas preferências. O que constitui uma imensa ironia e um enorme ingratidão para com o próprio Saramago.
Goste-se ou não da escrita de Saramago – e eu incluo-me no segundo grupo – ele é o mais elevado vulto da literatura portuguesa actual e um dos maiores que alguma vez houve. Quando falamos de Saramago, falamos de um dos dois portugueses alguma vez laureados com um prémio Nobel e o único em Literatura. E falamos do português mais lido em todo o mundo. Não temos nenhum músico, pintor ou realizador cinematográfico com o mesmo grau de projecção internacional na sua área. Mesmo olhando para a o desporto, onde o grau de projecção é muito mais facilmente mensurável em títulos, temos somente dois campeões olímpicos e o inevitável Luís Figo.
Por isso, goste-se ou não da sua escrita, goste-se ou não das suas ideias políticas, Saramago deve ser respeitado. Para dar apenas alguns exemplos, não me parece elegante dizer, como Manuel António Pina «Até eu, pouco entusiasta de prosa sem pontuação, cheguei a pensar comprar o livro» (sublinhado meu), mesmo que seja numa crónica que no essencial estranha este corrupio à volta do último romance de Saramago, afinal apenas mais um romance. Também não me parece correcta a forma como ouvi Pacheco Pereira desvalorizar a instituição do Nobel, obviamente, todos o percebemos, porque Saramago o venceu. Por fim parece-me ainda mais criticável, dizer, como faz Pulido Valente, que «No fundo, no fundo, o nosso homem deve o seu Nobel à providencial burrice do pobre Sousa Lara. Infelizmente, em vez de agradecer, continuou «zangado» com o país, que por ínvios caminhos tão bem o tratara (…). Saramago vai ganhar com isto o patrocínio oficial para a sua beatificação literária.» Então Saramago deve ser responsabilizado por ter sido censurado há 12 anos, como se isso fizesse parte de um elaborado plano para vender mais livros? Podemos ler ou não ler Saramago, podemos concordar ou não com as suas ideias políticas, mas não devemos deixar as nossas discordâncias estéticas ou políticas toldar-nos o bom senso. Como manifestamente aconteceu com Pacheco Pereira e Vasco Pulido Valente.
Goste-se ou não da escrita de Saramago – e eu incluo-me no segundo grupo – ele é o mais elevado vulto da literatura portuguesa actual e um dos maiores que alguma vez houve. Quando falamos de Saramago, falamos de um dos dois portugueses alguma vez laureados com um prémio Nobel e o único em Literatura. E falamos do português mais lido em todo o mundo. Não temos nenhum músico, pintor ou realizador cinematográfico com o mesmo grau de projecção internacional na sua área. Mesmo olhando para a o desporto, onde o grau de projecção é muito mais facilmente mensurável em títulos, temos somente dois campeões olímpicos e o inevitável Luís Figo.
Por isso, goste-se ou não da sua escrita, goste-se ou não das suas ideias políticas, Saramago deve ser respeitado. Para dar apenas alguns exemplos, não me parece elegante dizer, como Manuel António Pina «Até eu, pouco entusiasta de prosa sem pontuação, cheguei a pensar comprar o livro» (sublinhado meu), mesmo que seja numa crónica que no essencial estranha este corrupio à volta do último romance de Saramago, afinal apenas mais um romance. Também não me parece correcta a forma como ouvi Pacheco Pereira desvalorizar a instituição do Nobel, obviamente, todos o percebemos, porque Saramago o venceu. Por fim parece-me ainda mais criticável, dizer, como faz Pulido Valente, que «No fundo, no fundo, o nosso homem deve o seu Nobel à providencial burrice do pobre Sousa Lara. Infelizmente, em vez de agradecer, continuou «zangado» com o país, que por ínvios caminhos tão bem o tratara (…). Saramago vai ganhar com isto o patrocínio oficial para a sua beatificação literária.» Então Saramago deve ser responsabilizado por ter sido censurado há 12 anos, como se isso fizesse parte de um elaborado plano para vender mais livros? Podemos ler ou não ler Saramago, podemos concordar ou não com as suas ideias políticas, mas não devemos deixar as nossas discordâncias estéticas ou políticas toldar-nos o bom senso. Como manifestamente aconteceu com Pacheco Pereira e Vasco Pulido Valente.
sábado, abril 17, 2004
Voto em branco
No âmbito da polémica criada a propósito do mais recente romance de José Saramago houve opiniões e tomadas de posição que claramente misturaram coisas que não deveriam ser misturadas e assim tornaram confuso um debate de ideias que – como qualquer um – seria tanto mais produtivo quando menos confuso fosse.
Pelo que julgo ter percebido José Saramago romanceou uma situação hipotética em que o voto em branco se torna numa arma política para uma maioria da população descontente com o sistema de partidos que rege a democracia em que vivem. Depois, na explicação da sua própria obra literária, Saramago parece ter ido mais além e ter sugerido a validade dessa prática para além da ficção. Não vi declarações suas claras nesse sentido, mas também não as vi em sentido contrário. E qualquer modo, se sim ou não o escritor transformou uma obra de ficção numa proposta política real, é importante mas irrelevante para aquilo que em toda esta polémica me parece mais interessante: a maneira como o pensamento pode ser toldado por ideias preconcebidas.
A ideia de uma população descrente na política que maioritariamente vota em branco e assim cria um problema político de difícil solução é original e criativa. Original porque ninguém se tinha lembrado dela antes e criativa porque abre linhas de reflexão interessantes (se não mesmo de acção: e se de repente aumentasse significativamente a percentagem de votos em branco nas eleições europeias?). É uma ideia que levanta mais questões do que dá respostas e por isso tem todos os atributos de poder gerar à sua volta um interessante debate. Por isso, o pior que se lhe pode fazer é descartá-la em nome de ideias preconcebidas acerca do autor da proposta ou das suas supostas intenções ao fazê-la. A partir do momento em que é lançada, a ideia do voto em branco como arma política significativa pode e deve ser discutida por si mesma, independentemente do autor.
Houve pessoas que claramente minimizaram a ideia como um esoterismo de um conhecido comunista; outras entenderam-na como uma manobra de promoção de mais um best-seller; outras ainda como o devaneio de um intelectual pró-cubano. Como se o facto e ele ser comunista, o facto de haver um livro ou de Saramago ser pró-cubano fosse parte da ideia. Não é. A ideia subsiste por si e só não é espontaneamente gerada porque necessita de um intelecto para nascer. Mas uma vez nascida é propriedade de todos os intelectos que com ela se desejem ocupar.
E é desgostoso ver homens brilhantes na arte de exercitar o intelecto a deixarem as suas predisposições anti-Saramago, quaisquer que elas sejam, interporem-se no caminho entre eles e uma ideia tão potencialmente rica como esta. É sobretudo desgostoso para quem espera ansiosamente que eles se pronunciem. Eu senti esse tipo particular de desilusão a propósito de Pacheco Pereira e de Vasco Pulido Valente. Bem sei que ambos se posicionam bastante à direita de Saramago. Mas esperava que conseguissem pronunciar-se sobre a ideia em si sem se deixarem toldar pelas suas opiniões políticas ou literárias sobre Saramago, que o acaso fez autor da ideia. Como espectador atento, acho um desperdício dos seus intelectos. Um verdadeiro voto em branco...
Pelo que julgo ter percebido José Saramago romanceou uma situação hipotética em que o voto em branco se torna numa arma política para uma maioria da população descontente com o sistema de partidos que rege a democracia em que vivem. Depois, na explicação da sua própria obra literária, Saramago parece ter ido mais além e ter sugerido a validade dessa prática para além da ficção. Não vi declarações suas claras nesse sentido, mas também não as vi em sentido contrário. E qualquer modo, se sim ou não o escritor transformou uma obra de ficção numa proposta política real, é importante mas irrelevante para aquilo que em toda esta polémica me parece mais interessante: a maneira como o pensamento pode ser toldado por ideias preconcebidas.
A ideia de uma população descrente na política que maioritariamente vota em branco e assim cria um problema político de difícil solução é original e criativa. Original porque ninguém se tinha lembrado dela antes e criativa porque abre linhas de reflexão interessantes (se não mesmo de acção: e se de repente aumentasse significativamente a percentagem de votos em branco nas eleições europeias?). É uma ideia que levanta mais questões do que dá respostas e por isso tem todos os atributos de poder gerar à sua volta um interessante debate. Por isso, o pior que se lhe pode fazer é descartá-la em nome de ideias preconcebidas acerca do autor da proposta ou das suas supostas intenções ao fazê-la. A partir do momento em que é lançada, a ideia do voto em branco como arma política significativa pode e deve ser discutida por si mesma, independentemente do autor.
Houve pessoas que claramente minimizaram a ideia como um esoterismo de um conhecido comunista; outras entenderam-na como uma manobra de promoção de mais um best-seller; outras ainda como o devaneio de um intelectual pró-cubano. Como se o facto e ele ser comunista, o facto de haver um livro ou de Saramago ser pró-cubano fosse parte da ideia. Não é. A ideia subsiste por si e só não é espontaneamente gerada porque necessita de um intelecto para nascer. Mas uma vez nascida é propriedade de todos os intelectos que com ela se desejem ocupar.
E é desgostoso ver homens brilhantes na arte de exercitar o intelecto a deixarem as suas predisposições anti-Saramago, quaisquer que elas sejam, interporem-se no caminho entre eles e uma ideia tão potencialmente rica como esta. É sobretudo desgostoso para quem espera ansiosamente que eles se pronunciem. Eu senti esse tipo particular de desilusão a propósito de Pacheco Pereira e de Vasco Pulido Valente. Bem sei que ambos se posicionam bastante à direita de Saramago. Mas esperava que conseguissem pronunciar-se sobre a ideia em si sem se deixarem toldar pelas suas opiniões políticas ou literárias sobre Saramago, que o acaso fez autor da ideia. Como espectador atento, acho um desperdício dos seus intelectos. Um verdadeiro voto em branco...
quarta-feira, março 17, 2004
Politicamente correcto
A polémica pública que gerou o método de selecção de jovens para participarem numa iniciativa da McDonald’s ligada ao Euro2004 é claramente desproporcional face à importância do assunto e só encontra explicação no peso crescente que em Portugal têm os arautos do politicamente correcto. Neste aspecto, infelizmente, estamos cada vez mais «desenvolvidos».
Ao que parece, a ideia é que as crianças acompanhem os jogadores das diversas selecções do Europeu quando estes entram em campo, desde o momento em que abandonam os balneários até ao final da cerimónia dos hinos. Durante este período de tempo há uma "coreografia" simplicíssima: as equipas entram caminhando lado a lado, o capitão à frente os restantes jogadores atrás, cada um de mão dada com um miúdo vestido com equipamento da equipa contrária; alinham frente à bancada centra; e ouvem os respectivos hinos nacionais. Evidentemente, não há aqui nenhum exercício físico complexo subjacente, mas também não é aconselhável que as crianças seleccionadas para acompanharem os jogadores sejam deficientes físicas ou tenham problemas mentais susceptíveis de exigir acompanhamento especializado. Por razões bastante práticas que as situações em concreto ajudam a explicar. Por exemplo, no estádio Alvalade XXI, como noutros, a entrada dos jogadores faz-se por uma escada, o que dificulta que uma criança em cadeira de rodas possa acompanhar os jogadores, a não ser que queiramos que o Zinedine Zidane ajude o Thierry Henry a trazer a cadeira de rodas do seu acompanhante enquanto as câmaras de televisão vão filmando a cena para milhões de pessoas em todos o mundo. Outro exemplo: para que um deficiente mental pudesse acompanhar um jogador seria necessário que uma especialista o acompanhasse também de maneira a garantir que pudesse desenvolver sem falhas o comportamento correcto. Essa pessoa, obviamente, teria que ficar entre o Zidane e o Henry durante o hino francês. Mais uma vez com direito a transmissão televisiva para o mundo inteiro. Os exemplos podem parecer irónicos (ou mesmo cínicos, para alguns) mas não pretendem ser nem uma coisa nem outra. São apenas hipóteses práticas.
A McDonald’s (e a UEFA) podiam ter especificado que duas ou quatro em cada 22 crianças seleccionadas deviam ser crianças com problemas físicos ou mentais. Teriam que contar com medidas destinadas a enquadrar devidamente as crianças especiais no evento em que iriam participar, mas essa decisão ter-lhes-ia sem dúvida poupado alguns problemas e cairia bem juntos das mesmas pessoas agora criticaram. Mas não escolheram assim. Preferiram manter a operação o mais simples possível no interesse da "coreografia" que se pretende que a entrada das equipas em campo tenha. Estão no seu direito, sem beliscarem outros. No site da McDonald’s também está um concurso de desenho no qual dificilmente as crianças com deficiência mental ganharão. O SoccaStars (porquê Socca, já agora!) claramente é só para crianças capazes de correrem com uma bola a e chutarem-na. O «Quer quer ser milionário» não é aberto a deficientes mentais. Há milhares de pequenas coisas que uma criança deficiente física ou mental não pode fazer. E não é pelo facto de se proibir a existência de eventos em que elas não podem participar que se vai minorar a sua desvantagem. Ou sequer obrigando à sua participação em eventos para os quais não dispõem das mesmas condições que as outras crianças. É, ao contrário, promovendo eventos em que elas possam participar. Independentemente da sua desvantagem.
O politicamente correcto é redutor pelo simples facto de que, seja do que for que estejamos a falar, limita a gama de decisões disponíveis. Se alguém quiser fazer um concurso de beleza só para mulheres negras deve poder fazê-lo. Não deve ser obrigado a fazê-lo aberto a mulheres de todas as cores de pele. O que deve é haver liberdade para que alguém possa fazer um concurso de beleza só de mulheres brancas se assim o desejar. Um direito não colide com o outro e portanto não há razão para que seja limitado. Mesmo que socialmente se justifiquem medidas de incentivo a uma minoria que se sente ser frequentemente prejudicada. Se a McDonald’s tivesse previsto medidas de incentivo à participação de crianças com deficiência no seu evento, certamente mereceria um aplauso por isso. Mas o facto de o não ter feito não lhe acarreta necessariamente uma crítica. Neste caso a McDonald’s não fez qualquer discriminação positiva, mas também a não fez negativa. Simplesmente não fez qualquer discriminação. O que já é suficiente. Pedir mais do que isso é pedir a uma entidade (é válido para organizações ou pessoas) que siga a maneira mais consensual de fazer as coisas. E essa está longe de ser a única e em muitos casos pode até não ser a mais correcta. Exigir que as decisões sigam sempre a forma dominante de fazer as coisas é um imperativo de conformidade social absolutamente ditatorial, uma vez que limita a criatividade política, social, cultural, etc.
Para mim, o que é mais gritantemente criticável em todo este processo (um nome pomposo para aquele que é, repito, um assunto menor) é a forma como a vereadora da CML «amochou» perante o aparente consenso entre entidades diversas e meios de comunicação que se gerou acerca deste matéria. Isso sim é preocupante.
Ao que parece, a ideia é que as crianças acompanhem os jogadores das diversas selecções do Europeu quando estes entram em campo, desde o momento em que abandonam os balneários até ao final da cerimónia dos hinos. Durante este período de tempo há uma "coreografia" simplicíssima: as equipas entram caminhando lado a lado, o capitão à frente os restantes jogadores atrás, cada um de mão dada com um miúdo vestido com equipamento da equipa contrária; alinham frente à bancada centra; e ouvem os respectivos hinos nacionais. Evidentemente, não há aqui nenhum exercício físico complexo subjacente, mas também não é aconselhável que as crianças seleccionadas para acompanharem os jogadores sejam deficientes físicas ou tenham problemas mentais susceptíveis de exigir acompanhamento especializado. Por razões bastante práticas que as situações em concreto ajudam a explicar. Por exemplo, no estádio Alvalade XXI, como noutros, a entrada dos jogadores faz-se por uma escada, o que dificulta que uma criança em cadeira de rodas possa acompanhar os jogadores, a não ser que queiramos que o Zinedine Zidane ajude o Thierry Henry a trazer a cadeira de rodas do seu acompanhante enquanto as câmaras de televisão vão filmando a cena para milhões de pessoas em todos o mundo. Outro exemplo: para que um deficiente mental pudesse acompanhar um jogador seria necessário que uma especialista o acompanhasse também de maneira a garantir que pudesse desenvolver sem falhas o comportamento correcto. Essa pessoa, obviamente, teria que ficar entre o Zidane e o Henry durante o hino francês. Mais uma vez com direito a transmissão televisiva para o mundo inteiro. Os exemplos podem parecer irónicos (ou mesmo cínicos, para alguns) mas não pretendem ser nem uma coisa nem outra. São apenas hipóteses práticas.
A McDonald’s (e a UEFA) podiam ter especificado que duas ou quatro em cada 22 crianças seleccionadas deviam ser crianças com problemas físicos ou mentais. Teriam que contar com medidas destinadas a enquadrar devidamente as crianças especiais no evento em que iriam participar, mas essa decisão ter-lhes-ia sem dúvida poupado alguns problemas e cairia bem juntos das mesmas pessoas agora criticaram. Mas não escolheram assim. Preferiram manter a operação o mais simples possível no interesse da "coreografia" que se pretende que a entrada das equipas em campo tenha. Estão no seu direito, sem beliscarem outros. No site da McDonald’s também está um concurso de desenho no qual dificilmente as crianças com deficiência mental ganharão. O SoccaStars (porquê Socca, já agora!) claramente é só para crianças capazes de correrem com uma bola a e chutarem-na. O «Quer quer ser milionário» não é aberto a deficientes mentais. Há milhares de pequenas coisas que uma criança deficiente física ou mental não pode fazer. E não é pelo facto de se proibir a existência de eventos em que elas não podem participar que se vai minorar a sua desvantagem. Ou sequer obrigando à sua participação em eventos para os quais não dispõem das mesmas condições que as outras crianças. É, ao contrário, promovendo eventos em que elas possam participar. Independentemente da sua desvantagem.
O politicamente correcto é redutor pelo simples facto de que, seja do que for que estejamos a falar, limita a gama de decisões disponíveis. Se alguém quiser fazer um concurso de beleza só para mulheres negras deve poder fazê-lo. Não deve ser obrigado a fazê-lo aberto a mulheres de todas as cores de pele. O que deve é haver liberdade para que alguém possa fazer um concurso de beleza só de mulheres brancas se assim o desejar. Um direito não colide com o outro e portanto não há razão para que seja limitado. Mesmo que socialmente se justifiquem medidas de incentivo a uma minoria que se sente ser frequentemente prejudicada. Se a McDonald’s tivesse previsto medidas de incentivo à participação de crianças com deficiência no seu evento, certamente mereceria um aplauso por isso. Mas o facto de o não ter feito não lhe acarreta necessariamente uma crítica. Neste caso a McDonald’s não fez qualquer discriminação positiva, mas também a não fez negativa. Simplesmente não fez qualquer discriminação. O que já é suficiente. Pedir mais do que isso é pedir a uma entidade (é válido para organizações ou pessoas) que siga a maneira mais consensual de fazer as coisas. E essa está longe de ser a única e em muitos casos pode até não ser a mais correcta. Exigir que as decisões sigam sempre a forma dominante de fazer as coisas é um imperativo de conformidade social absolutamente ditatorial, uma vez que limita a criatividade política, social, cultural, etc.
Para mim, o que é mais gritantemente criticável em todo este processo (um nome pomposo para aquele que é, repito, um assunto menor) é a forma como a vereadora da CML «amochou» perante o aparente consenso entre entidades diversas e meios de comunicação que se gerou acerca deste matéria. Isso sim é preocupante.
Reflexões
Isto é tudo um grande equívoco: quem nos deu vida nunca pensou que nós fôssemos desenvolver uma consciência.
É impressionante o quanto o pensamento é algo fugidio. Um exercício simples para o comprovar é tentar recuperar ao inverso as últimas associações de ideias. Exemplo: pensei que o pensamento era fugidio depois de me lembrar que o próximo lançamento dos «Filmes DNA» é um filme de Woody Allen, depois de saber que é recomendado por João Lopes, responsável pela única vez que saí do cinema a meio de um filme (o «Indochina»); depois de me lembrar que Paul Shrader, se não estou em erro, escreveu o argumento de Taxi Driver e eu ainda não li (acho que não...) o «Scorcese por Scorcese», que ainda deve estar na estante da sala; tudo isto enquanto em fundo oiço o meu filho a ver o «Monsters, inc» e acabei de folhear o DNA de sexta. Qual é a lógica possível de um percurso de pensamento tão errático? Faltam certamente pedaços pelo meio que explicam as voltas e revoltas do pensamento, provando que este corre bem mais depressa do que a escrita ou até do que a nossa capacidade para memorizar as sua sinapses. E imagino que não seja por falta de espaço, mas sim por falta de tempo.
Mas, mesmo dando de barato que há razões biológicas para não conseguirmos recuperar o percurso do nosso pensamento em mais do que duas ou três associações de ideias, como explicar que não consigamos - por mim falo - estabelecer um percurso, já não verdadeiro, mas apenas e somente verosímil. Exemplo: que pedaço de pensamento, que estanha ligação, antinómica ou sinonímica, me terá levado do Monsters ao Paul Shrader e ao Taxi Driver, e destes ao Woody Allen e à colecção de filmes DNA. Será que o facto de minutos antes ter lido uma reportagem de Sónia Morais Santos no memso DNA teve algo que ver como assunto. Terá essa "informação" ficado a pairar como uma névoa à espera de influenciar a direcção do pensamento sem nunca verdadeiramente se relevar presente? É possível, mas não passa de pura especulação, como é especulação qualquer outra ligação ou pensamento que agora me ocorra colocar como possível no percurso que tento reconstituir. Simplesmente não é suficientemente verosímil, embora seja perfeitamente possível. E não é verosímil simplesmente porque não tem o encanto das coisas reais e irrepetíveis. Não entramos duas vezes na água do mesmo rio. É esse o mistério do pensamento.
É impressionante o quanto o pensamento é algo fugidio. Um exercício simples para o comprovar é tentar recuperar ao inverso as últimas associações de ideias. Exemplo: pensei que o pensamento era fugidio depois de me lembrar que o próximo lançamento dos «Filmes DNA» é um filme de Woody Allen, depois de saber que é recomendado por João Lopes, responsável pela única vez que saí do cinema a meio de um filme (o «Indochina»); depois de me lembrar que Paul Shrader, se não estou em erro, escreveu o argumento de Taxi Driver e eu ainda não li (acho que não...) o «Scorcese por Scorcese», que ainda deve estar na estante da sala; tudo isto enquanto em fundo oiço o meu filho a ver o «Monsters, inc» e acabei de folhear o DNA de sexta. Qual é a lógica possível de um percurso de pensamento tão errático? Faltam certamente pedaços pelo meio que explicam as voltas e revoltas do pensamento, provando que este corre bem mais depressa do que a escrita ou até do que a nossa capacidade para memorizar as sua sinapses. E imagino que não seja por falta de espaço, mas sim por falta de tempo.
Mas, mesmo dando de barato que há razões biológicas para não conseguirmos recuperar o percurso do nosso pensamento em mais do que duas ou três associações de ideias, como explicar que não consigamos - por mim falo - estabelecer um percurso, já não verdadeiro, mas apenas e somente verosímil. Exemplo: que pedaço de pensamento, que estanha ligação, antinómica ou sinonímica, me terá levado do Monsters ao Paul Shrader e ao Taxi Driver, e destes ao Woody Allen e à colecção de filmes DNA. Será que o facto de minutos antes ter lido uma reportagem de Sónia Morais Santos no memso DNA teve algo que ver como assunto. Terá essa "informação" ficado a pairar como uma névoa à espera de influenciar a direcção do pensamento sem nunca verdadeiramente se relevar presente? É possível, mas não passa de pura especulação, como é especulação qualquer outra ligação ou pensamento que agora me ocorra colocar como possível no percurso que tento reconstituir. Simplesmente não é suficientemente verosímil, embora seja perfeitamente possível. E não é verosímil simplesmente porque não tem o encanto das coisas reais e irrepetíveis. Não entramos duas vezes na água do mesmo rio. É esse o mistério do pensamento.
A fraqueza da democracia
Fica como uma ironia histórica que o resultado indirecto dos atentados de Madrid tenha sido exactamente aquele que os terroristas mais desejavam: a queda do governo que apoiou Bush na intervenção no Iraque. Indirecto porque não corresponde a uma demissão em resultado do acontecimento mas de uma derrota eleitoral mediada pelo voto popular. E aqui reside o centro da questão e aquilo que ela tem de mais profundo e inquietante.
É evidente que ficou muito mal ao governo espanhol o afã com que tentou atribuir à ETA a autoria dos atentados, tanto internamente como, ainda mais grave, junto dos governos estrangeiros seus aliados. Essa é uma atitude que ainda vai fazer correr alguma tinta e merece uma reflexão própria.
Mas é um erro de perspectiva atribuir à mistificação do governo espanhol a reacção do eleitorado nas urnas. É evidente que a maior parte do povo espanhol sentiu que estava a ser enganado e uma boa parte terá reagido mal a isso. Mas não nos devemos esquecer também que o povo espanhol tinha sido, antes de qualquer mistificação, ferozmente contra a intervenção espanhola no Iraque. E esse é o caldo social ideal para que um atentado tenha os efeitos políticos que este teve. Se não tivesse havido atentado o PP teria sido reeleito - até porque existe quase unanimidade quanto aos resultados positivos dos seus oito anos de governação – porque as manifestações anti-guerra estavam demasiado distantes no tempo e o teatro de operações demasiado distante no espaço.
Mas a reflexão pode ir ainda mais fundo. Nos dois dias subsequentes ao do atentado, gostei de ouvir vários espanhóis, gente do povo entrevistada pelas televisões, afirmar que o voto era a melhor arma que tinham contra os terroristas e que o terror não os ia afastar do seu propósito de reafirmar os valores democráticos em que acreditavam. Na altura acreditei que fosse possível uma resposta maciça expressa primeiro em número de votos e, talvez, também, em apoio ao governo visado pelos terroristas. Penso que o povo espanhol é suficientemente forte e fiel às suas convicções para poder ter tomado essa atitude.
Mas o que aconteceu foi exactamente o contrário. Não contra todas as expectativas, mas apesar de todas as expectativas. Se há povo que podia ter uma reacção deste tipo – sem dúvida a mais adequada para lidar com a ameaça terrorista - era o povo espanhol. Conheço vários outros povos, a começar pelo português, em relação aos quais consideraria menos provável uma reacção corajosa como a descrita e mais provável uma reacção medrosa como a que de facto aconteceu.
E o que isso significa é que, se os espanhóis reagiram desta maneira, nas urnas, à ameaça terrorista, os franceses, os alemães, os belgas, os portugueses, os dinamarqueses, os italianos, os australianos, os neo-zelandeses, etc, teriam reagido da mesma forma perante a mesma situação. O que significa, basicamente, que o sistema democrático é fundamentalmente fraco perante a ameaça fundamentalista islâmica. Os eleitores ocidentais pensam antes de mais no seu próprio bem-estar no momento do voto, enquanto que os fundamentalistas islâmicos pensam na sua religião antes da sua própria vida. E essa é uma diferença fundamental, tanto mais notória quanto mais alargada for a confrontação entre ambos. E, não fiz a estatística, mas não me parece que o número e gravidade de atentados terroristas de origem islâmica se tenha reduzido depois do 11 de Setembro, mesmo com o reforço de medidas de segurança um pouco por todo o lado. Bem pelo contrário. Como se disse na altura, o facto de um grupo de fundamentalistas islâmicos ter conseguido atingir de forma tão violenta o coração do mundo ocidental funcionou como um incentivo para milhares de outros islâmicos no mundo inteiro. E o atentado de Madrid – o primeiro grande atentado em território europeu depois de Lockerbie (se não estou em erro) – reforçou essa alavanca motivacional.
Ou seja, este problema não está em vias de se solucionar. Pelo contrário: está em vias de se tornar mais grave. A solução para o problema do fundamentalismo islâmico tem que atacar as suas causas profundas. Mesmo a aparentemente insolúvel resolução do conflito israelo-palestiniano seria escassa para, por si só, resolver o problema do fundamentalismo islâmico. Esse é um argumento usado pelos fundamentalistas, mas não é a essência da sua confrontação com o mundo ocidental. Usando, provavelmente com um sentido diferente, a expressão «it’s the economics, stupid», este é um conflito de dimensões civilizacionais que tem no modo de organização da economia global o principal conjunto de causas profunda. E se o conflito chegar a assumir proporções mundiais (o que, de certo modo, já está a acontecer) então também não me restam dúvidas de que, do ponto de vista ideológico, o fundamentalismo islâmico está muito mais bem preparado para o enfrentar do que as frágeis democracias ocidentais, fortes economicamente mas fracas ideologicamente.
É evidente que ficou muito mal ao governo espanhol o afã com que tentou atribuir à ETA a autoria dos atentados, tanto internamente como, ainda mais grave, junto dos governos estrangeiros seus aliados. Essa é uma atitude que ainda vai fazer correr alguma tinta e merece uma reflexão própria.
Mas é um erro de perspectiva atribuir à mistificação do governo espanhol a reacção do eleitorado nas urnas. É evidente que a maior parte do povo espanhol sentiu que estava a ser enganado e uma boa parte terá reagido mal a isso. Mas não nos devemos esquecer também que o povo espanhol tinha sido, antes de qualquer mistificação, ferozmente contra a intervenção espanhola no Iraque. E esse é o caldo social ideal para que um atentado tenha os efeitos políticos que este teve. Se não tivesse havido atentado o PP teria sido reeleito - até porque existe quase unanimidade quanto aos resultados positivos dos seus oito anos de governação – porque as manifestações anti-guerra estavam demasiado distantes no tempo e o teatro de operações demasiado distante no espaço.
Mas a reflexão pode ir ainda mais fundo. Nos dois dias subsequentes ao do atentado, gostei de ouvir vários espanhóis, gente do povo entrevistada pelas televisões, afirmar que o voto era a melhor arma que tinham contra os terroristas e que o terror não os ia afastar do seu propósito de reafirmar os valores democráticos em que acreditavam. Na altura acreditei que fosse possível uma resposta maciça expressa primeiro em número de votos e, talvez, também, em apoio ao governo visado pelos terroristas. Penso que o povo espanhol é suficientemente forte e fiel às suas convicções para poder ter tomado essa atitude.
Mas o que aconteceu foi exactamente o contrário. Não contra todas as expectativas, mas apesar de todas as expectativas. Se há povo que podia ter uma reacção deste tipo – sem dúvida a mais adequada para lidar com a ameaça terrorista - era o povo espanhol. Conheço vários outros povos, a começar pelo português, em relação aos quais consideraria menos provável uma reacção corajosa como a descrita e mais provável uma reacção medrosa como a que de facto aconteceu.
E o que isso significa é que, se os espanhóis reagiram desta maneira, nas urnas, à ameaça terrorista, os franceses, os alemães, os belgas, os portugueses, os dinamarqueses, os italianos, os australianos, os neo-zelandeses, etc, teriam reagido da mesma forma perante a mesma situação. O que significa, basicamente, que o sistema democrático é fundamentalmente fraco perante a ameaça fundamentalista islâmica. Os eleitores ocidentais pensam antes de mais no seu próprio bem-estar no momento do voto, enquanto que os fundamentalistas islâmicos pensam na sua religião antes da sua própria vida. E essa é uma diferença fundamental, tanto mais notória quanto mais alargada for a confrontação entre ambos. E, não fiz a estatística, mas não me parece que o número e gravidade de atentados terroristas de origem islâmica se tenha reduzido depois do 11 de Setembro, mesmo com o reforço de medidas de segurança um pouco por todo o lado. Bem pelo contrário. Como se disse na altura, o facto de um grupo de fundamentalistas islâmicos ter conseguido atingir de forma tão violenta o coração do mundo ocidental funcionou como um incentivo para milhares de outros islâmicos no mundo inteiro. E o atentado de Madrid – o primeiro grande atentado em território europeu depois de Lockerbie (se não estou em erro) – reforçou essa alavanca motivacional.
Ou seja, este problema não está em vias de se solucionar. Pelo contrário: está em vias de se tornar mais grave. A solução para o problema do fundamentalismo islâmico tem que atacar as suas causas profundas. Mesmo a aparentemente insolúvel resolução do conflito israelo-palestiniano seria escassa para, por si só, resolver o problema do fundamentalismo islâmico. Esse é um argumento usado pelos fundamentalistas, mas não é a essência da sua confrontação com o mundo ocidental. Usando, provavelmente com um sentido diferente, a expressão «it’s the economics, stupid», este é um conflito de dimensões civilizacionais que tem no modo de organização da economia global o principal conjunto de causas profunda. E se o conflito chegar a assumir proporções mundiais (o que, de certo modo, já está a acontecer) então também não me restam dúvidas de que, do ponto de vista ideológico, o fundamentalismo islâmico está muito mais bem preparado para o enfrentar do que as frágeis democracias ocidentais, fortes economicamente mas fracas ideologicamente.
terça-feira, março 02, 2004
Três reflexões sobre Avelino Ferreira Torres
1. A patética demonstração de falta de estatura do presidente da Câmara de Marco de Canavezes, no campo e depois nas televisões, não lhe fica mal só a ele. Convém não esquecer que este homem foi largamente eleito pela população do concelho e, segundo rezam as crónicas, é admirado e respeitado na sua terra. A sua conduta pública, obviamente fica mal também a todos os marcoenses e dá-lhes razões para se envergonharem do seu representante máximo. Quem hoje, em Marco de Canavezes, sentir vergonha pela exibição pública do seu autarca, não deve sentir repúdio mas sim orgulho nesse sentimento: ele é o único que revela alguma dignidade. Também eu me sentiria envergonhado se fosse marcoense. Mas admito que esse não seja o sentimento geral entre a população local. Como a história nos tem dado exemplos eloquentes, de que o caso de Felgueiras é talvez o mais recente, os caciques locais ganham uma preponderância sobre as populações que dirigem que não é racional. Ainda mais quando, como parece ser o caso, a rudeza e baixo nível de um autarca o torna verdadeiramente em «um de nós» junto da população. Ou seja, em muitos pontos por esse país fora, a popularidade de um dirigente político é directamente proporcional ao baixo nível a que ele consegue descer para estar «junto» das duas populações. E este é o mais sério obstáculo que se pode opor à regionalização e, por consequência, um dos mais sérios obstáculos ao desenvolvimento do país, que pode ser feito sem regionalização, mas seria melhor feito com regionalização.
2. Avelino Ferreira Torres é hoje apenas edil da cidade, mas tem um longo percurso ligado à autarquia, ao clube e às estruturas intermédias do futebol. Ou seja, Avelino Ferreira Torres sabe muito bem como é que o tão falado «sistema» funciona, sobretudo nos mecanismos de ligação entre clubes e autarquias e portanto a sua exaltação, ou era forjada, e não parecia, ou era genuína, e resultava de alguém que sabe como estas coisas se fazem e as estava a sentir «na pele». Ou seja, mesmo sem que exista, hoje, qualquer ligação formal entre AFT e as estruturas do futebol, esta não deixa de ser mais uma pequena acha para a grande fogueira em que arde o futebol português. E não chega a Liga de Clubes ficar à espera de receber quaisquer relatórios para tomar uma posição pública. Haverá algum comportamento mais público do que aquele que todos nós vimos pela televisão?
3. O que teria acontecido se porventura não houvesse câmaras de televisão em Marco de Canavezes no dia do jogo? Será que se estaria agora a discutir o assunto? Certamente que não. Nesse caso, o episódio não passaria de uma nota de rodapé nas reportagens do jogo ou, quanto muito, uma pequena notícia nos jornais diários. A pergunta que se coloca então é: quantos comportamentos da mesma natureza – mesmo que sem o mesmo grau de gravidade – acontecem todos os fins de semana pelo país inteiro sem que deles tomemos conhecimento? O futebol português está podre não só nível das cúpulas mas também ao nível das bases. O comportamento de AFT que hoje todos vilipendiamos porque o vimos na televisão é o comportamento padrão do adepto de futebol. Claro que há quem vá ao futebol e não ande aos pontapés a nada. Mas em cada jogo, grande ou pequeno, nas grandes cidades ou na província, há dezenas, centenas ou mesmo milhares de adeptos capazes disto ou bem pior (repare-se como, nas imagens, o próprio AFT protege o árbitro quando sente que os populares por si instigados estão prestes a chegar perto dele com algo mais do que um indicador em riste).
2. Avelino Ferreira Torres é hoje apenas edil da cidade, mas tem um longo percurso ligado à autarquia, ao clube e às estruturas intermédias do futebol. Ou seja, Avelino Ferreira Torres sabe muito bem como é que o tão falado «sistema» funciona, sobretudo nos mecanismos de ligação entre clubes e autarquias e portanto a sua exaltação, ou era forjada, e não parecia, ou era genuína, e resultava de alguém que sabe como estas coisas se fazem e as estava a sentir «na pele». Ou seja, mesmo sem que exista, hoje, qualquer ligação formal entre AFT e as estruturas do futebol, esta não deixa de ser mais uma pequena acha para a grande fogueira em que arde o futebol português. E não chega a Liga de Clubes ficar à espera de receber quaisquer relatórios para tomar uma posição pública. Haverá algum comportamento mais público do que aquele que todos nós vimos pela televisão?
3. O que teria acontecido se porventura não houvesse câmaras de televisão em Marco de Canavezes no dia do jogo? Será que se estaria agora a discutir o assunto? Certamente que não. Nesse caso, o episódio não passaria de uma nota de rodapé nas reportagens do jogo ou, quanto muito, uma pequena notícia nos jornais diários. A pergunta que se coloca então é: quantos comportamentos da mesma natureza – mesmo que sem o mesmo grau de gravidade – acontecem todos os fins de semana pelo país inteiro sem que deles tomemos conhecimento? O futebol português está podre não só nível das cúpulas mas também ao nível das bases. O comportamento de AFT que hoje todos vilipendiamos porque o vimos na televisão é o comportamento padrão do adepto de futebol. Claro que há quem vá ao futebol e não ande aos pontapés a nada. Mas em cada jogo, grande ou pequeno, nas grandes cidades ou na província, há dezenas, centenas ou mesmo milhares de adeptos capazes disto ou bem pior (repare-se como, nas imagens, o próprio AFT protege o árbitro quando sente que os populares por si instigados estão prestes a chegar perto dele com algo mais do que um indicador em riste).
quinta-feira, janeiro 29, 2004
Conflito duradouro
Não se sei se ouvi mal a notícia na rádio, mas na sequência do mais recente atentado em Jerusalém fiquei a saber que no governo da Autoridade Palestiniana existe um «ministro para as negociações» e que este afirmou que o conflito só podia melhorar quando houvesse «um processo de negociações sério e duradouro». Será preciso maior prova de que o conflito está para durar? Um ministro cuja pasta são as negociações e um processo negocial duradouro?
Alguém lhes mada à cara, se faz favor!!
Já agora, no mesmo debate na SIC Notícias em que participou o director do público, participou, entre outros, o director do Correio da Manha. A determinado ponto, esteve quase a acontecer o confronto esperado entre ambos, como representantes dos antípodas do jornalismo (se é que se pode chamar jornalismo ao que faz o CM...). Infelizmente, nem o director do Público nem nenhum dos directores presentes quis avançar nesse sentido, que me pareceria, sinceramente, o mais pertinente de todo o debate. Poderão ter sentido receio de expor os seus próprios «telhados de vidro», algo que sem dúvida todos têm, mas deviam ter tido a coragem de confrontar o director do CM com o que tem sido a sua má prática jornalística, mesmo correndo o risco de lhes verem apontados alguns pecados. Afinal, que relevância teriam estes ao lado dos do CM?
Mais ou menos o mesmo no debate da RTP1 sobre liberdade de imprensa e segredo de justiça. Não sei que sentido fará convidar para este debate o director do 24 Horas se não for para o confrontar com a sua própria prática jornalística. Mas, mais uma vez, ninguém parece ter tido coragem para o fazer.
Quem dirige a equipa que produz o trabalho jornalístico que produzem o CM e o 24 Horas está a pôr-se a jeito quando aceita comparecer publicamente para debater estas matérias. Só falta quem tenha a coragem de lhes dar os açoites.
Mais ou menos o mesmo no debate da RTP1 sobre liberdade de imprensa e segredo de justiça. Não sei que sentido fará convidar para este debate o director do 24 Horas se não for para o confrontar com a sua própria prática jornalística. Mas, mais uma vez, ninguém parece ter tido coragem para o fazer.
Quem dirige a equipa que produz o trabalho jornalístico que produzem o CM e o 24 Horas está a pôr-se a jeito quando aceita comparecer publicamente para debater estas matérias. Só falta quem tenha a coragem de lhes dar os açoites.
Interesse público ou interesse do público
Quando num recente debate na SIC Notícias sobre liberdade de imprensa, o director do Público disse que para ele o fundamental era distinguir entre o «interesse público» e o «interesse do público» eu concordei imediatamente. Embora o conceito não seja novo, parece-me um bom critério para dirigir as escolhas dos órgãos de informação e segundo a minha opinião, permite distinguir o bom do mau jornalismo. Há e haverá sempre media que regulam a sua acção pelo que pressentem ser o interesse dominante do público ou dos segmentos mais volumosos dessa entidade estatística. Mas deve haver outros que regulem a sua oferta noticiosa por aquilo que acham importante para a sociedade. O que é um papel bem mais honroso: enquanto os primeiros jornalistas não passam de cata-ventos estatísticos sem nenhuma função mediadora que não seja a transformação de um input informativo num output noticioso; os segundos «escolhem», de uma infinidade de informações que lhes chegam, aquelas que se transformam em notícia, e, desse modo, têm um papel activo na construção da nossa sociedade. E a partir do momento em que o façam tomam consciência da responsabilidade que tal função implica. Os outros? Bom, os outros continuarão a ganhar o seu ordenado ao fim do mês.
Mas, provando que no melhor pano cai a nódoa, alguns dias depois desse debate, a primeira página do Público era ocupada a toda a altura e toda a largura pela «Comoção no adeus a Féher», com uma foto de velas, flores e gente a chorar. Também eu fiquei estupefacto com o que aconteceu naquele domingo. Estava a ver o jogo pela televisão e a brutalidade da morte incomodou-me como deve ter incomodado toda a gente que a viu. Mas Féher era um jogador jovem com uma carreira curta e ainda mais curta em Portugal; sem títulos significativos conquistados; de nacionalidade húngara; funcionário do clube desde há apenas dois anos. Não se trata de merecimento ou falta dele. Simplesmente não é uma matéria de interesse público com relevância de primeira página, embora seja, como se provou, matéria de grande interesse do público.
Mas, provando que no melhor pano cai a nódoa, alguns dias depois desse debate, a primeira página do Público era ocupada a toda a altura e toda a largura pela «Comoção no adeus a Féher», com uma foto de velas, flores e gente a chorar. Também eu fiquei estupefacto com o que aconteceu naquele domingo. Estava a ver o jogo pela televisão e a brutalidade da morte incomodou-me como deve ter incomodado toda a gente que a viu. Mas Féher era um jogador jovem com uma carreira curta e ainda mais curta em Portugal; sem títulos significativos conquistados; de nacionalidade húngara; funcionário do clube desde há apenas dois anos. Não se trata de merecimento ou falta dele. Simplesmente não é uma matéria de interesse público com relevância de primeira página, embora seja, como se provou, matéria de grande interesse do público.
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