O barnabé é frequentemente superficial e algumas vezes gratuitamente agressivo, mas gostaria de elogiar este post de Rui Tavares a propósito da tragédia no sudeste asiático. Às vezes a única forma de lidarmos com uma tragédia desta dimensão é reflectir sobre ela em termos absolutos. E a reflexão só nos pode levar à perplexidade.
Tese + Antítese = Síntese. Espaço de reflexão sobre a actualidade. Media, política e jornalismo.
terça-feira, dezembro 28, 2004
Vinicius 90 anos
O Haver
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.
A voz de Vinicius de Moraes no CD comemorativo Vinicius 90 anos
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.
A voz de Vinicius de Moraes no CD comemorativo Vinicius 90 anos
Uma praia perto do paraíso
É por estas e por outras que a praia é um sítio agradável:
Como uma piroseira datada se transforma numa irreconhecível pérola natalícia
e
Chico Buarque em discurso directo
Como uma piroseira datada se transforma numa irreconhecível pérola natalícia
e
Chico Buarque em discurso directo
segunda-feira, dezembro 20, 2004
Manuel António Pina disse
Não encontrei um link para a mais recente crónica de Manuel António Pina na Visão, mas porque a acho particularmente desgostosa e acertada, não resisto a reproduzi-la na íntegra. À atenção de Vasco Pulido Valente, cujo nihilismo lusitano Manuel António Pina aqui partilha:
«Não é novidade para ninguém que o sistema representativo, principalmente por culpa da maior parte dos políticos (e das políticas) que temos tido em 30 anos de democracia, foi progressivamente perdendo a confiança dos cidadãos. A situação não é muito diferente em outras democracias, onde é cada vez maior o divórcio entre cidadãos e profissionais da política, mas onde, apesar de tudo, existe um património democrático mais ou menos antigo, que vai constituindo uma espécie de almofada ideológica, capaz de amortecer os efeitos devastadores da frustração das esperanças colectivas. Mas a nossa democracia é recente, caiu do céu aos trambolhões por acção de um grupo de militares que não faziam a mínima ideia da caixa de Pandora que abriam. Os mais ingénuos foram trucidados logo no dia seguinte e os restantes, mesmo os que revelaram insuspeitadas capacidades de adaptação, acabaram consumados no fogo dos acontecimentos até saírem de palco transformados, como Conh-Bendit disse, em “cornudos da história” ou feitos patéticas figuras de museu. A lição é de Carlyle (só que os militares não são habitualmente gente muito dada a leituras): “As revolução são sonhadas por idealistas e realizadas por fanáticos, mas quem delas se aproveita são sempre os oportunista de todas as espécies”.
De há 30 anos para cá, após a explosão da esperança, primeiro na rua, depois nas urnas (a participação nas primeiras eleições após o 25 de Abril ultrapassou os 90%), foram-se queimando etapas até se ultrapassar pela direita tudo o que de pior o sistema democrático pode, mantendo-se democrático, produzir. Hoje, com excepção dos que votam por clubismo partidário, os portugueses que se dão ainda ao trabalho de votar (que são, como se sabe, cada vez menos) votam principalmente contra: umas vezes contra o PSD, outras contra o PS, outras contra o PSD e o CDS, outras ainda contra o PSD, o PS e o CDS ou contra o PSD, o PS, o CDS e o PCP (o BE não tem relevância suficiente para alguém se incomodar a votar contra o BE), ou, abstendo-se, contra todos eles. Até porque os portugueses foram aprendendo com a experiência que é inútil votar por programas eleitorais visto que os programas eleitorais são letra morta depois das eleições e que é inútil votar por listas eleitorais porque muitos dos que nelas figuram nunca exercerão os lugares para que forem eleitos ou figuram nelas por todos os motivos (alguns deles bem singulares…) menos pela competência. Dito de outro modo: o sistema representativo tem funcionado perfeitamente.
Nos últimos tempos, contudo, a coisa transformou-se num libreto de opereta: um primeiro-ministro eleito que arranja melhor emprego e abandona o barco, um presidente da República que empossa um primeiro-ministro não-eleito em nome de uma mirífica estabilidade que só ele antevê e que, quatro meses de instabilidade depois, em lugar de demitir o Governo, dissolve o Parlamento, e um Governo que, dissolvido o Parlamento, se demite…
Os portugueses irão, tudo o indica, votar agora contra o PSD e o CDS. Mas a maior parte deles ficará, como de costume, em casa. Poderia votar em branco; só que ninguém acredita que isso pudesse ter, como na fábula de Saramago, alguma consequência.»
«Não é novidade para ninguém que o sistema representativo, principalmente por culpa da maior parte dos políticos (e das políticas) que temos tido em 30 anos de democracia, foi progressivamente perdendo a confiança dos cidadãos. A situação não é muito diferente em outras democracias, onde é cada vez maior o divórcio entre cidadãos e profissionais da política, mas onde, apesar de tudo, existe um património democrático mais ou menos antigo, que vai constituindo uma espécie de almofada ideológica, capaz de amortecer os efeitos devastadores da frustração das esperanças colectivas. Mas a nossa democracia é recente, caiu do céu aos trambolhões por acção de um grupo de militares que não faziam a mínima ideia da caixa de Pandora que abriam. Os mais ingénuos foram trucidados logo no dia seguinte e os restantes, mesmo os que revelaram insuspeitadas capacidades de adaptação, acabaram consumados no fogo dos acontecimentos até saírem de palco transformados, como Conh-Bendit disse, em “cornudos da história” ou feitos patéticas figuras de museu. A lição é de Carlyle (só que os militares não são habitualmente gente muito dada a leituras): “As revolução são sonhadas por idealistas e realizadas por fanáticos, mas quem delas se aproveita são sempre os oportunista de todas as espécies”.
De há 30 anos para cá, após a explosão da esperança, primeiro na rua, depois nas urnas (a participação nas primeiras eleições após o 25 de Abril ultrapassou os 90%), foram-se queimando etapas até se ultrapassar pela direita tudo o que de pior o sistema democrático pode, mantendo-se democrático, produzir. Hoje, com excepção dos que votam por clubismo partidário, os portugueses que se dão ainda ao trabalho de votar (que são, como se sabe, cada vez menos) votam principalmente contra: umas vezes contra o PSD, outras contra o PS, outras contra o PSD e o CDS, outras ainda contra o PSD, o PS e o CDS ou contra o PSD, o PS, o CDS e o PCP (o BE não tem relevância suficiente para alguém se incomodar a votar contra o BE), ou, abstendo-se, contra todos eles. Até porque os portugueses foram aprendendo com a experiência que é inútil votar por programas eleitorais visto que os programas eleitorais são letra morta depois das eleições e que é inútil votar por listas eleitorais porque muitos dos que nelas figuram nunca exercerão os lugares para que forem eleitos ou figuram nelas por todos os motivos (alguns deles bem singulares…) menos pela competência. Dito de outro modo: o sistema representativo tem funcionado perfeitamente.
Nos últimos tempos, contudo, a coisa transformou-se num libreto de opereta: um primeiro-ministro eleito que arranja melhor emprego e abandona o barco, um presidente da República que empossa um primeiro-ministro não-eleito em nome de uma mirífica estabilidade que só ele antevê e que, quatro meses de instabilidade depois, em lugar de demitir o Governo, dissolve o Parlamento, e um Governo que, dissolvido o Parlamento, se demite…
Os portugueses irão, tudo o indica, votar agora contra o PSD e o CDS. Mas a maior parte deles ficará, como de costume, em casa. Poderia votar em branco; só que ninguém acredita que isso pudesse ter, como na fábula de Saramago, alguma consequência.»
quarta-feira, dezembro 15, 2004
Cavaco no papel de messias
Pacheco Pereira (30-11-04) é que tem razão. Estou convencido que o melhor que podia acontecer ao país era Cavaco concluir que os constrangimentos macroeconómicos e as exigências de rigor orçamental que esperam o novo governo exigem uma atitude verdadeiramente messiânica e decidir candidatar-se a primeiro-ministro em vez de Presidente.
A situação económica externa não dá sinais de melhorar, a situação interna exige espírito de rigor e a verdade é que nenhum dos putativos governantes - Santana ou Sócrates - parece capaz de implantar as medidas que o país exige. O primeiro porque é congenitamente populista e só assim sabe viver a política (vai prometer tudo a todos durante a campanha e vai cumprir mais do que devia se chegar ao governo). O segundo porque emana de um partido com vocação de big spender, ainda para mais "estimulado" por um Bloco de Esquerda mediaticamente acutilante ou formalmente interveniente (conforme os resultados eleitorais).
Cavaco é insuportavelmente self-righteous e provou quando foi primeiro-ministro, que tinha mais vocação para os primeiros mandatos do que para os seguintes. Deve vir com "prazo de validade". Mas, talvez devido ao seu auto-conceito messiânico, parece estar, na sua verticalidade e empertigamento, a anos-luz dos invertebrados políticos de hoje, qualquer que seja o quadrante partidário para que olhemos.
Cavaco, Sá Carneiro, Soares, Cunhal, Eanes, Amaro da Costa, Freitas do Amaral: estes foram os nomes que, puxando cada um para seu lado, confrontando-se e digladiando-se, estruturaram a democracia portuguesa. É verdade que os tempos eram outros, mas compará-los hoje com os políticos que temos não pode deixar de ser deprimente. Com a agravante de os dois líderes partidários longamente forjados na sombra de cada um dos respectivos partidos - Guterres e Durão - terem ambos fugido e abandonado o país à sua sorte. Quase como se tivessem combinado.
Não admira por isso que quer o PSD quer o PS olhem com saudade os seus líderes históricos, ao ponto de Soares se ver obrigado a dizer "basta!" e Cavaco ser reclamado por mais do que alguns barões (sim, Pacheco Pereira já se pode considerar politicamente brasonado). O PS aprovou Sócrates por falta de alternativas mas na realidade não o tem em muito boa conta; e o PSD votou maciçamente em Santana, mas dar-lhe-ia um pipanote assim que Cavaco surgisse do nevoeiro. Se surgisse.
De Soares já sabemos que está cansado e mais interessado nas suas palestras. Mas Cavaco vacila. O PSD ficaria de pantanas, mas o país só teria a ganhar. Pelo menos nos primeiros anos, por causa do já referido “prazo de validade”.
A situação económica externa não dá sinais de melhorar, a situação interna exige espírito de rigor e a verdade é que nenhum dos putativos governantes - Santana ou Sócrates - parece capaz de implantar as medidas que o país exige. O primeiro porque é congenitamente populista e só assim sabe viver a política (vai prometer tudo a todos durante a campanha e vai cumprir mais do que devia se chegar ao governo). O segundo porque emana de um partido com vocação de big spender, ainda para mais "estimulado" por um Bloco de Esquerda mediaticamente acutilante ou formalmente interveniente (conforme os resultados eleitorais).
Cavaco é insuportavelmente self-righteous e provou quando foi primeiro-ministro, que tinha mais vocação para os primeiros mandatos do que para os seguintes. Deve vir com "prazo de validade". Mas, talvez devido ao seu auto-conceito messiânico, parece estar, na sua verticalidade e empertigamento, a anos-luz dos invertebrados políticos de hoje, qualquer que seja o quadrante partidário para que olhemos.
Cavaco, Sá Carneiro, Soares, Cunhal, Eanes, Amaro da Costa, Freitas do Amaral: estes foram os nomes que, puxando cada um para seu lado, confrontando-se e digladiando-se, estruturaram a democracia portuguesa. É verdade que os tempos eram outros, mas compará-los hoje com os políticos que temos não pode deixar de ser deprimente. Com a agravante de os dois líderes partidários longamente forjados na sombra de cada um dos respectivos partidos - Guterres e Durão - terem ambos fugido e abandonado o país à sua sorte. Quase como se tivessem combinado.
Não admira por isso que quer o PSD quer o PS olhem com saudade os seus líderes históricos, ao ponto de Soares se ver obrigado a dizer "basta!" e Cavaco ser reclamado por mais do que alguns barões (sim, Pacheco Pereira já se pode considerar politicamente brasonado). O PS aprovou Sócrates por falta de alternativas mas na realidade não o tem em muito boa conta; e o PSD votou maciçamente em Santana, mas dar-lhe-ia um pipanote assim que Cavaco surgisse do nevoeiro. Se surgisse.
De Soares já sabemos que está cansado e mais interessado nas suas palestras. Mas Cavaco vacila. O PSD ficaria de pantanas, mas o país só teria a ganhar. Pelo menos nos primeiros anos, por causa do já referido “prazo de validade”.
Porquê salvaguardar um acordo pós-eleitoral?
De que serve um acordo de governo pós-eleitoral senão para contrariar todas as razões que desaconselham uma coligação pré-eleitoral?
Para o PP, ir sozinho às urnas é ir livre às urnas, livre de "constrangimentos" para elogiar os ministros populares por oposição aos ministros sociais-democratas e para criticar a errância do primeiro-ministro, os dois temas principais que os populares vão usar na campanha. Com a existência prévia de um acordo de governo em caso de vitória da direita, Portas tem que ponderar um pouco melhor aquilo que diz sobre Santana e o PSD do que se não houvesse acordo algum. Mantém-se livre, mas dentro de uma certa latitude de comportamento.
Poderia dizer-se que assim Santana garante ter uma coligação para governar depois das eleições caso as vença. Mas será que alguém duvida que sempre a teve e sempre a teria? O que poderia impedir Santana e Portas de se confrontarem em campanha na ausência de qualquer tipo de entendimento e entenderem-se depois em nome do "interesse nacional"? Nada.
Na verdade parece-me que a única razão para este acordo está no ponto 3 do mesmo e corresponde a uma astuta jogada política de Santana, daquelas que se esperavam dele e com cuja ausência ele nos desiludiu nestes quatro meses: garantir que o PP não se coliga a mais ninguém em caso de derrota do PSD. Com esta garantia, Santana define a sua política de alianças e "obriga" o PS a depender do BE para uma solução governativa não maioritária. Não me espanta que a partir de hoje, como aliás já começou, a questão de uma eventual coligação com o BE seja posta a Sócrates sempre que este aparecer em actos públicos, entrevistas ou debates. E, com isso, Santana espera afastar do PS o eleitorado de centro que "digere" mal o esquerdismo radical do BE. E esse é, como se sabe, o eleitorado que decide eleições.
Quanto ao PP, Santana pretende apelar ao voto útil em nome de uma bipolarização que, de certa forma, ele próprio ajudou a construir.
Chapeau!
Para o PP, ir sozinho às urnas é ir livre às urnas, livre de "constrangimentos" para elogiar os ministros populares por oposição aos ministros sociais-democratas e para criticar a errância do primeiro-ministro, os dois temas principais que os populares vão usar na campanha. Com a existência prévia de um acordo de governo em caso de vitória da direita, Portas tem que ponderar um pouco melhor aquilo que diz sobre Santana e o PSD do que se não houvesse acordo algum. Mantém-se livre, mas dentro de uma certa latitude de comportamento.
Poderia dizer-se que assim Santana garante ter uma coligação para governar depois das eleições caso as vença. Mas será que alguém duvida que sempre a teve e sempre a teria? O que poderia impedir Santana e Portas de se confrontarem em campanha na ausência de qualquer tipo de entendimento e entenderem-se depois em nome do "interesse nacional"? Nada.
Na verdade parece-me que a única razão para este acordo está no ponto 3 do mesmo e corresponde a uma astuta jogada política de Santana, daquelas que se esperavam dele e com cuja ausência ele nos desiludiu nestes quatro meses: garantir que o PP não se coliga a mais ninguém em caso de derrota do PSD. Com esta garantia, Santana define a sua política de alianças e "obriga" o PS a depender do BE para uma solução governativa não maioritária. Não me espanta que a partir de hoje, como aliás já começou, a questão de uma eventual coligação com o BE seja posta a Sócrates sempre que este aparecer em actos públicos, entrevistas ou debates. E, com isso, Santana espera afastar do PS o eleitorado de centro que "digere" mal o esquerdismo radical do BE. E esse é, como se sabe, o eleitorado que decide eleições.
Quanto ao PP, Santana pretende apelar ao voto útil em nome de uma bipolarização que, de certa forma, ele próprio ajudou a construir.
Chapeau!
terça-feira, dezembro 14, 2004
O PS e o Bloco de Esquerda
É de prever que o PS continue a negar qualquer intenção de governar coligado com o BE em caso de maioria relativa. Isso faz parte da estratégia para apontar a uma maioria absoluta. Mas depois das eleições, naturalmente, tal é possível, pelo menos do ponto de vista do PS.
A razão porque me parece que um eventual acordo entre socialistas e bloquistas não passará do parlamento prende-se mais com o BE.
O BE sabe que tem sobretudo um eleitorado urbano e jovem e sabe que ser "do contra" é um elemento constitutivo da relação entre o BE e uma boa parte do seu eleitorado. Por isso, não acredito que o BE "arrisque" fazer parte do Poder. E por isso é que a coligação, a existir, não será de governo, mas apenas de incidência parlamentar. Essa é aliás uma das alternativas para o presidente empossar um governo socialista minoritário mas vencedor, mesmo que uma coligação (pré ou pós-eleitoral) PSD-PP garanta uma maioria, um cenário provável.
Se o programa de governo do PS não ferir nenhuma das bandeiras do BE e este puder obter, em troca da viabilização parlamentar, a consumação de alguma das suas propostas, então o BE ganha respeitabilidade, tem algo para mostrar aos seus apoiantes, mas mantém uma "sanitária" distância em relação ao Poder. Este parece-me de longe o cenário mais provável das próximas eleições.
Se, ao contrário do que Sócrates agora nega, PS e BE se juntarem num governo, então é mais do que provável que os bloquistas serão o elemento instabilizador da maioria, sujeitos às forças contraditórias da pleíade de partidos e grupos que originalmente compõem a plataforma e à tentação de defender as suas bandeiras. O choque do Poder não é traumático só para o eleitorado bloquista, é-o também para os seus dirigentes caso estes decidam aceitar o canto da sereia.
A razão porque me parece que um eventual acordo entre socialistas e bloquistas não passará do parlamento prende-se mais com o BE.
O BE sabe que tem sobretudo um eleitorado urbano e jovem e sabe que ser "do contra" é um elemento constitutivo da relação entre o BE e uma boa parte do seu eleitorado. Por isso, não acredito que o BE "arrisque" fazer parte do Poder. E por isso é que a coligação, a existir, não será de governo, mas apenas de incidência parlamentar. Essa é aliás uma das alternativas para o presidente empossar um governo socialista minoritário mas vencedor, mesmo que uma coligação (pré ou pós-eleitoral) PSD-PP garanta uma maioria, um cenário provável.
Se o programa de governo do PS não ferir nenhuma das bandeiras do BE e este puder obter, em troca da viabilização parlamentar, a consumação de alguma das suas propostas, então o BE ganha respeitabilidade, tem algo para mostrar aos seus apoiantes, mas mantém uma "sanitária" distância em relação ao Poder. Este parece-me de longe o cenário mais provável das próximas eleições.
Se, ao contrário do que Sócrates agora nega, PS e BE se juntarem num governo, então é mais do que provável que os bloquistas serão o elemento instabilizador da maioria, sujeitos às forças contraditórias da pleíade de partidos e grupos que originalmente compõem a plataforma e à tentação de defender as suas bandeiras. O choque do Poder não é traumático só para o eleitorado bloquista, é-o também para os seus dirigentes caso estes decidam aceitar o canto da sereia.
Para qualquer entendendor, meia-palavra basta!
"Carlos Cruz mandou o seu advogado prò c..."
Manchete do 24 Horas de hoje.
Um dia alguém devia fazer a história das mais reles páginas de imprensa publicadas em Portugal. Se alguém tiver isso em projecto, que corra para a banca porque o 24 Horas lançou mais um dos seus contributos para essa história.
Roland Barthes certamente teria muito a discorrer acerca do significante e do significado deste "c..." assim publicado na primeira página de um jornal.
Formalmente, o 24 Horas não escreveu nenhum palavrão. Mas, dos seus muitos milhares de leitores, duvido que haja um único que não tenha entendido a mensagem. Ou seja, o significante é diferente mas o significado é o mesmo. Não é, aliás, exemplo único de mais do que um signifcante que se referem ao mesmo significado. O que conta não é naturalmente a forma mas sim o conteúdo; não importa a construção da mensagem mas sua desconstrução no destinatário: ou seja, a comunicação. Donde se conclui que a mensagem na primeira página do 24 Horas de hoje é, sem formalismos, "Carlos Cruz mandou o seu advogado prò caralho". Que fique registado a crédito do 24 Horas e da sua contribuição para a história da imprensa em Portugal!
Manchete do 24 Horas de hoje.
Um dia alguém devia fazer a história das mais reles páginas de imprensa publicadas em Portugal. Se alguém tiver isso em projecto, que corra para a banca porque o 24 Horas lançou mais um dos seus contributos para essa história.
Roland Barthes certamente teria muito a discorrer acerca do significante e do significado deste "c..." assim publicado na primeira página de um jornal.
Formalmente, o 24 Horas não escreveu nenhum palavrão. Mas, dos seus muitos milhares de leitores, duvido que haja um único que não tenha entendido a mensagem. Ou seja, o significante é diferente mas o significado é o mesmo. Não é, aliás, exemplo único de mais do que um signifcante que se referem ao mesmo significado. O que conta não é naturalmente a forma mas sim o conteúdo; não importa a construção da mensagem mas sua desconstrução no destinatário: ou seja, a comunicação. Donde se conclui que a mensagem na primeira página do 24 Horas de hoje é, sem formalismos, "Carlos Cruz mandou o seu advogado prò caralho". Que fique registado a crédito do 24 Horas e da sua contribuição para a história da imprensa em Portugal!
Duas recomendações para além da espuma dos dias.
Nicola Conte passou pela ESL de Rob Garza e Eric Hilton antes de "assinar" pela Blue Note. O resultado é este belíssimo "Other Directions".
Virginia Astley aparece pouco pelos escaparates nacionais mas desta vez chegou à FNAC este bucólico "From gardens where we feel secure". Para fechar os olhos e "ver" o mais profundo english countryside.
segunda-feira, dezembro 13, 2004
Allez, Pinto da Costa, Allez !!
A mais-que-merecida vitória do F.C.Porto na Taça Intercontinental provocou mais uma dedicatória a Pinto da Costa. Nos dias que correm não há vitória portista que lhe não seja dedicada e não há jogo em que o "Allez, Pinto da Costa, allez" não seja cantado. Não sei se há muitos desses, mas se eu fosse portista moderado, estaria seriamente preocupado com a perspectiva, mesmo que seja ainda só a perspectiva, das consequências desportivas da acção em que Pinto da Costa é arguido. Será que lhe vão continuar a dedicar vitórias se o Porto tiver que ir jogar para a segunda liga ou se for suspenso da competição por um determinado período de tempo? É verdade que o Benfica não foi despromovido em consequência de Vale e Azevedo, apesar de os regulamentos o preverem, e isso demonstrou que o futebol é de facto um mundo à parte. Mas o Benfica não é o Porto e, apesar de tudo, os tempos agora são outros. (Aliás, a expulsão é hoje o mínimo que os sócios do Benfica têm para oferecer a um presidente que elegeram a 70%, o que ilustra bem as voltas que o mundo dá)
Independentemente de haver condenação ou não, a acusação a Pinto da Costa serve também de "moral da história" a todos os adeptos de outros clubes que à mesa de café diziam que aquele é que era um presidente a sério! Admiravam-no e invejavam-no por todas as razões erradas, incluindo aquelas que redundaram nesta acusação.
Tanto os primeiros como os segundos podem ainda vir a ter que engolir as suas próprias palavras.
Independentemente de haver condenação ou não, a acusação a Pinto da Costa serve também de "moral da história" a todos os adeptos de outros clubes que à mesa de café diziam que aquele é que era um presidente a sério! Admiravam-no e invejavam-no por todas as razões erradas, incluindo aquelas que redundaram nesta acusação.
Tanto os primeiros como os segundos podem ainda vir a ter que engolir as suas próprias palavras.
Santana segundo o PP
No quadro do pacto de não agressão que o PP e o PSD acordaram para concorrerem separados às legislativas e mesmo assim conseguirem "suportar-se" depois, o carácter errático de Santana será um dos temas mais glosados pelos populares, o que aliás já começou. Desse ponto de vista Santana e Portas são a noite e o dia, PP sabe-o vai aproveitá-lo em campanha.
Acho no entanto muito improvável que um tal pacto de não agressão resista a uma campanha eleitoral. Provavelmente as primeiras "ofensas" virão do lado social-democrata, mas os populares não deixarão de responder, mais friamente mas não menos "ofensivamente". E o grau de "agressão" será tanto maior quanto mais improvável parecer a vitória. No caso de esta acabar por acontecer, veremos se sobre as vergastadas de um e de outro não ficam feridas por cicatrizar
Acho no entanto muito improvável que um tal pacto de não agressão resista a uma campanha eleitoral. Provavelmente as primeiras "ofensas" virão do lado social-democrata, mas os populares não deixarão de responder, mais friamente mas não menos "ofensivamente". E o grau de "agressão" será tanto maior quanto mais improvável parecer a vitória. No caso de esta acabar por acontecer, veremos se sobre as vergastadas de um e de outro não ficam feridas por cicatrizar
domingo, dezembro 12, 2004
Agora é a vez do PS
Agora é finalmente a vez do PS. Depois de quatro meses de autoflagelação do PSD, período durante o qual os socialistas tiveram tempo de eleger um líder e deixá-lo sentado, de braços cruzados, a ver o triste espectáculo santanista do enterro da maioria, agora o PS tem que fazer algo. E vamos ver se sabe o que tem que fazer. Essa é incógnita que encerra o resultado das próximas eleições e esconde o rosto do próximo governo. Na certeza porém de que Santana Lopes é muito mais forte a fazer campanha do que a governar. É por isso improvável que alguém consiga maioria absoluta, o que permite antever uma de duas coisas: um governo de coligação PSD/PP (seria curioso ver Sampaio a empossar Santana outra vez); ou um acordo de incidência parlamentar entre o PS e o BE.
Isto é tudo o que permite um exercício de mera futurologia gratuita.
Isto é tudo o que permite um exercício de mera futurologia gratuita.
E agora, como fica o referendo?
Com o Governo demitido, a Assembleia dissolvia e as eleições marcadas para Fevereiro, como fica a questão o referendo sobre a Europa? Não será esta uma porta aberta à inclusão da questão nos programas dos partidos, tornando assim "desncessária" uma consulta popular pouco tempo depois da eleição? Não seria esta uma solução perfeita para um arco partidário que, manifestamente, preferia não consultar o povo por ter medo da sua reacção? Isto parece-me muito provável.
Outra questão interessante é a posição que o PP adoptará na campanha eleitoral sobre o referendo e sobre a Constituição Europeia, sabendo que esse é um dos pontos-chave na sua distinção face ao PSD mas pode também comprometê-lo quando voltar ao Governo, como o partido espera que aconteça.
Outra questão interessante é a posição que o PP adoptará na campanha eleitoral sobre o referendo e sobre a Constituição Europeia, sabendo que esse é um dos pontos-chave na sua distinção face ao PSD mas pode também comprometê-lo quando voltar ao Governo, como o partido espera que aconteça.
quinta-feira, novembro 18, 2004
A coligação feita num "saco de gatos"
As reacções dos membros do governo e políticos da coligação à deliberação da Alta Autoridade para a Comunicação Social sobre o caso “Marcelo” foram tão inábeis como as declarações que lhe deram origem. E revelam, como bem sublinhou Artur Portela, da AACS, falta de “cultura democrática”.
Como diz Morais Sarmento, este pode ser um órgão moribundo (ele diz mesmo que é um “cadáver”), mas não deixa de ser aquele que neste momento está em funções, o qual votou segundo os seus estatutos. O que Morais Sarmento quer dizer é que nada do que a AACS produza tem qualquer validade.
Por outro lado, ao porta-voz do CDS-PP não fica bem (não fica bem ao partido, claro) dizer que respeita as conclusões, mas simplesmente não concorda com elas, querendo com isso significar que as mesmas não terão qualquer efeito prático.
Do mesmo modo, do nº 2 do governo não se espera que diga “quero lá saber”. Afinal, estamos a falar do principal assunto da actualidade e de batalha política durante os últimos meses. Estando devidamente calendarizada a decisão da AACS, do co-responsável máximo da coligação esperava-se que tivesse algo a reagir.
O que todas estas reacções revelam é um conjunto de tiques que vagamente evocam os do final da governação cavaquista em relação às então chamadas “forças de bloqueio”. A diferença é que o ciclo de poder cavaquista tinha então vários anos de existência e o santanismo dura há apenas alguns meses.
O que mais este “episódio” da novela santanista demonstra à saciedade é que não existe coordenação política na coligação. Já alguém ouviu o Primeiro-Ministro pronunciar-se sobre esta matéria? Não deveria ele ter preparado uma reacção única ou pelo menos coordenada a uma decisão que, esta ou outra, podia certamente ter sido antecipada? Não poderia ele ter preparado o terreno, por exemplo, anunciando algumas linhas mestras da futura entidade reguladora do sector como forma de desvalorizar o papel desta? É apenas um exemplo.
Pode não ser intencional, embora haja quem acredite que sim, mas a verdade é que a cadência com que os políticos da coligação, governantes ou não, criam polémicas políticas é absolutamente inédita na nossa história recente. Serve às mil maravilhas as manchetes de jornais e os comentários da blogosfera, e tornam difícil saber onde acaba a campanha anti-santana que se abriu assim que o seu nome começou a ser falado e começa a errância de rumo que também se sabe ser a da dupla Santana-Portas. Serve também às mil maravilhas a nova direcção do PS, que se tem mantido alegremente discreta deixando o “saco de gatos” em que se transformou a coligação fazer o seu “trabalho”. Mas o que a sucessão de polémicas e a ausência de rumo não serve de certeza é o país. E isso é que é preocupante. Não tenho dúvidas de que Cavaco Silva concordaria comigo.
Como diz Morais Sarmento, este pode ser um órgão moribundo (ele diz mesmo que é um “cadáver”), mas não deixa de ser aquele que neste momento está em funções, o qual votou segundo os seus estatutos. O que Morais Sarmento quer dizer é que nada do que a AACS produza tem qualquer validade.
Por outro lado, ao porta-voz do CDS-PP não fica bem (não fica bem ao partido, claro) dizer que respeita as conclusões, mas simplesmente não concorda com elas, querendo com isso significar que as mesmas não terão qualquer efeito prático.
Do mesmo modo, do nº 2 do governo não se espera que diga “quero lá saber”. Afinal, estamos a falar do principal assunto da actualidade e de batalha política durante os últimos meses. Estando devidamente calendarizada a decisão da AACS, do co-responsável máximo da coligação esperava-se que tivesse algo a reagir.
O que todas estas reacções revelam é um conjunto de tiques que vagamente evocam os do final da governação cavaquista em relação às então chamadas “forças de bloqueio”. A diferença é que o ciclo de poder cavaquista tinha então vários anos de existência e o santanismo dura há apenas alguns meses.
O que mais este “episódio” da novela santanista demonstra à saciedade é que não existe coordenação política na coligação. Já alguém ouviu o Primeiro-Ministro pronunciar-se sobre esta matéria? Não deveria ele ter preparado uma reacção única ou pelo menos coordenada a uma decisão que, esta ou outra, podia certamente ter sido antecipada? Não poderia ele ter preparado o terreno, por exemplo, anunciando algumas linhas mestras da futura entidade reguladora do sector como forma de desvalorizar o papel desta? É apenas um exemplo.
Pode não ser intencional, embora haja quem acredite que sim, mas a verdade é que a cadência com que os políticos da coligação, governantes ou não, criam polémicas políticas é absolutamente inédita na nossa história recente. Serve às mil maravilhas as manchetes de jornais e os comentários da blogosfera, e tornam difícil saber onde acaba a campanha anti-santana que se abriu assim que o seu nome começou a ser falado e começa a errância de rumo que também se sabe ser a da dupla Santana-Portas. Serve também às mil maravilhas a nova direcção do PS, que se tem mantido alegremente discreta deixando o “saco de gatos” em que se transformou a coligação fazer o seu “trabalho”. Mas o que a sucessão de polémicas e a ausência de rumo não serve de certeza é o país. E isso é que é preocupante. Não tenho dúvidas de que Cavaco Silva concordaria comigo.
As crianças como uma medida do nosso desenvolvimento
As revelações acerca da Casa do Gaiato vêm juntar-se ao caso Casa Pia e convocam a pedofilia nos Açores e na Madeira, tanto quando casos como os de Joana ou a Catarina para nos fazer reflectir sobre o que realmente se está a passar em Portugal. Pode parecer que o nosso país se tornou de repente um antro de selvajaria a que nem as crianças escapam. Parece-me, no entanto, que o que se passa, realmente, é precisamente o contrário.
Na Casa Pia sabemos hoje que a violência sobre os menores prolongou-se durante anos e anos sem que se soubesse ou sem que quem o soubesse o denunciasse. Ou mesmo sem que, perante denúncia, alguém fosse condenado. Não espantaria que na Casa do Gaiato, viéssemos a descobrir uma teia semelhante, urdida no tempo e pelo tempo, contra as crianças e a favor dos adultos. Com sexo ou sem sexo.
Por outro lado, histórias “sofridas” como as de Joana ou Catarina fazem parte do registo não escrito de muitas vilas e terreolas por esse Portugal fora. Na maior parte das vezes as crianças são “apenas” abusadas, com maior ou menor violência, sem chegar à morte, mas chegando de certeza a deixar marcas para o resto da vida. Mais uma vez, sem que alguém tenha a coragem de denunciar ou condenar estes actos.
A diferença nos dias que correm é que finalmente começamos a ouvir falar de penas pesadas para esses casos. O facto de sucederem muitos em simultâneo ou num curto período de tempo não significa que existam mais que no passado; quer dizer apenas que finalmente se começam a descobrir e sancionar situações que antes passavam incólumes. E isso é uma medida do nosso progresso como comunidade.
A existência de situações de violência sobre as crianças, caladas mas não ignoradas, são um dos traços que resta do nosso subdesenvolvimento, traços esses de que, infelizmente, continuamos a ter notícia de muitos outros países agora menos desenvolvidos do que nós. São também, permita-se-me uma provocação política, resultado da salazarenta hipocrisia social que durante muitas décadas nos caracterizou como nação. Este é talvez um dos últimos atavismos do salazarismo (entendido não como projecto político mas como resultado social) de que definitivamente nos livramos.
Por isso, por cada Joana ou Catarina, por cada Casa Pia ou Casa do Gaiato que sejamos capazes de descobrir e judicialmente sancionar, não devemos ficar mais deprimidos, mas antes mais optimistas quanto ao nosso futuro como comunidade. É de progresso que se trata quando conseguimos limpar as nossas feridas.
Na Casa Pia sabemos hoje que a violência sobre os menores prolongou-se durante anos e anos sem que se soubesse ou sem que quem o soubesse o denunciasse. Ou mesmo sem que, perante denúncia, alguém fosse condenado. Não espantaria que na Casa do Gaiato, viéssemos a descobrir uma teia semelhante, urdida no tempo e pelo tempo, contra as crianças e a favor dos adultos. Com sexo ou sem sexo.
Por outro lado, histórias “sofridas” como as de Joana ou Catarina fazem parte do registo não escrito de muitas vilas e terreolas por esse Portugal fora. Na maior parte das vezes as crianças são “apenas” abusadas, com maior ou menor violência, sem chegar à morte, mas chegando de certeza a deixar marcas para o resto da vida. Mais uma vez, sem que alguém tenha a coragem de denunciar ou condenar estes actos.
A diferença nos dias que correm é que finalmente começamos a ouvir falar de penas pesadas para esses casos. O facto de sucederem muitos em simultâneo ou num curto período de tempo não significa que existam mais que no passado; quer dizer apenas que finalmente se começam a descobrir e sancionar situações que antes passavam incólumes. E isso é uma medida do nosso progresso como comunidade.
A existência de situações de violência sobre as crianças, caladas mas não ignoradas, são um dos traços que resta do nosso subdesenvolvimento, traços esses de que, infelizmente, continuamos a ter notícia de muitos outros países agora menos desenvolvidos do que nós. São também, permita-se-me uma provocação política, resultado da salazarenta hipocrisia social que durante muitas décadas nos caracterizou como nação. Este é talvez um dos últimos atavismos do salazarismo (entendido não como projecto político mas como resultado social) de que definitivamente nos livramos.
Por isso, por cada Joana ou Catarina, por cada Casa Pia ou Casa do Gaiato que sejamos capazes de descobrir e judicialmente sancionar, não devemos ficar mais deprimidos, mas antes mais optimistas quanto ao nosso futuro como comunidade. É de progresso que se trata quando conseguimos limpar as nossas feridas.
A diferença entre os dois PSD
Obviamente, os membros do actual governo não são obrigados a concordar com Miguel Cadilhe e já sabemos que a regionalização não está sobre a mesa. Por isso, indagado pelos jornalistas sobre esta “opinião” do presidente da Associação Portuguesa para o Investimento (não por acaso um social-democrata e ex-ministro das finanças), um ministro da tutela diplomático (para não dizer responsável) teria evitado a questão ou quando muito respondido que era a sua opinião, com a qual não concordava, nem ele nem o actual governo. Podia até explicar porque é que não concordava e achava a regionalização um erro. Mas escusava de ofender, como fez José Luis Arnaut, dizendo que preferia ouvir Cadilhe falar sobre “os investimentos que, como representante da API, trouxesse para Portugal”, insinuando de uma forma soez que devia antes ir fazer o seu trabalho. Não lhe ficou nada bem.
Cadilhe, por seu lado, não comentou, e com isso fez toda a diferença!
Cadilhe, por seu lado, não comentou, e com isso fez toda a diferença!
Um economista a favor da regionalização
Há pelo menos um economista eminente que considera que, caso Portugal tivesse tido coragem para realizar a regionalização, as finanças estariam hoje mais controladas do que estão. Durante o debate do referendo sobre a regionalização a questão do crescimento das despesas com a administração pública foi justamente um dos argumentos mais repetidos, mas Miguel Cadilhe (estanho-me a concordar com ele e considero o facto bastante “democrático”) acha que, pelo contrário, fazer a regionalização é uma condição de eficiência da administração pública e, no limite, uma forma de diminuir a despesa pública e não de a aumentar. Sempre achei que não fazer uma regionalização, qualquer que fosse o modelo escolhido, foi um erro nacional do qual sofremos consequências todos os dias, nos mais diversos planos da actualidade, quase sempre sem verdadeiramente nos darmos conta disso.
quarta-feira, novembro 17, 2004
Pim Fortuyn: o maior dos holandeses
Provando que a insanidade colectiva pode atingir qualquer povo, o Público noticia que Pim Fortuyn foi eleito num programa de televisão como o “maior dos holandeses”, à frente de figuras como Guilherme de Orange, Erasmus, Van Gogh ou Rembrandt. O insólito aconteceu na estação de televisão KRO. Durante o programa Pim Fortuyn arrecadou 115 mil votos contra 111 mil de Gulherme de Orange, mas a televisão esclarece que já depois da emissão, Guilher de Orange ultrapassou o seu opositor (o que é omisso na notícia do Público) com 161 mil votos contra 130.000.
Deixa-se a votação a cargo dos holandeses-que-vêm-televisão e o resultado é este! Quando os holandeses-como-deve-ser despertaram para a situação, já chegaram demasiado tarde para inverter a votação. Fica pelo menos a vitória moral…
Mas a pergunta que verdadeiramente se impõe é: e se fosse em Portugal? Suspeito que o João Castelo Branco seria um sério candidato a rivalizar com Luis Figo. E tenho quase a certeza que mesmo que estivéssemos alerta nem uma vitória moral conseguiríamos...
Deixa-se a votação a cargo dos holandeses-que-vêm-televisão e o resultado é este! Quando os holandeses-como-deve-ser despertaram para a situação, já chegaram demasiado tarde para inverter a votação. Fica pelo menos a vitória moral…
Mas a pergunta que verdadeiramente se impõe é: e se fosse em Portugal? Suspeito que o João Castelo Branco seria um sério candidato a rivalizar com Luis Figo. E tenho quase a certeza que mesmo que estivéssemos alerta nem uma vitória moral conseguiríamos...
Alberto João e a Europa
Para provar que até das figuras mais inesperadas podem surgir questões pertinentes, eis o que disse Alberto João Jardim sobre a União Europeia:
"Portugal encontra-se num dos impasses constitucionais mais graves da sua História. A União Europeia poderá revelar não ser a grande esperança com que contamos."
Se não fossem as constantes palhaçadas, AJJ até podia ser levado a sério falando assim.
"Portugal encontra-se num dos impasses constitucionais mais graves da sua História. A União Europeia poderá revelar não ser a grande esperança com que contamos."
Se não fossem as constantes palhaçadas, AJJ até podia ser levado a sério falando assim.
terça-feira, novembro 16, 2004
O "endurecimento" da política de Bush
Agora é oficial: Condoleezza Rice sucede a Colin Powell como responsável pela diplomacia norte-americana. Powell era talvez o governante norte-americano que nós, europeus, conhecíamos melhor, a seguir a Bush, obviamente. E conhecíamo-lo como o mais moderado dos membros do executivo. Não sei qual o alinhamento dos restantes demissionários do governos americano ou qual a linha perfilhada por aqueles que lhes vão suceder, mas parece-me que um “saneamento” dos moderados e um reforço de posições da “linha dura” é algo que poderia ter sido previsto a partir do conhecimento do resultado das eleições.
Os acontecimentos e a política de Bush após o 11 de Setembro foram um fortíssimo elemento de divisão entre os americanos e entre estes e o resto do mundo. Bush foi fortemente atacado tanto na frente interna como na frente externa e em determinadas alturas chegou a parecer que podia de facto perder a eleição. A prova de que esta não foi uma eleição como as outras está no volume de participação dos eleitores.
Ora, o facto de Bush ter enfrentado nesta eleição factores tão adversos e ter saído vencedor, deu a essa vitória um “peso” maior que o número de votos em que se sustenta. Psicologicamente – e politicamente – Bush “arrasou” a votação e ganhou toda uma nova legitimidade para sua política. E, no quadro da “guerra surda” que todos percebemos existir no seio do governo norte-americano, a “sua” política é a da linha dura.Por isso, a substituição de Colin Powell por Condoleezza Rice é apenas o primeiro dos sinais – e certamente um dos mais “ruidosos” – de que temos pela frente uma administração Bush provavelmente ainda mais isolacionista, neo-conservadora e politicamente agressiva que a anterior. O Mundo irá certamente notar isso nos próximos meses.
Os acontecimentos e a política de Bush após o 11 de Setembro foram um fortíssimo elemento de divisão entre os americanos e entre estes e o resto do mundo. Bush foi fortemente atacado tanto na frente interna como na frente externa e em determinadas alturas chegou a parecer que podia de facto perder a eleição. A prova de que esta não foi uma eleição como as outras está no volume de participação dos eleitores.
Ora, o facto de Bush ter enfrentado nesta eleição factores tão adversos e ter saído vencedor, deu a essa vitória um “peso” maior que o número de votos em que se sustenta. Psicologicamente – e politicamente – Bush “arrasou” a votação e ganhou toda uma nova legitimidade para sua política. E, no quadro da “guerra surda” que todos percebemos existir no seio do governo norte-americano, a “sua” política é a da linha dura.Por isso, a substituição de Colin Powell por Condoleezza Rice é apenas o primeiro dos sinais – e certamente um dos mais “ruidosos” – de que temos pela frente uma administração Bush provavelmente ainda mais isolacionista, neo-conservadora e politicamente agressiva que a anterior. O Mundo irá certamente notar isso nos próximos meses.
Contenção no processo Casa Pia
Não descobri em concreto as recentes declarações do bastonário da Ordem dos Advogados a propósito do processo Casa Pia. Não há nada como ouvir este tipo de coisas em discurso directo para ter a certeza do que foi dito, mas o report das suas declarações indica que José Miguel Júdice pediu contenção aos intervenientes no processo como forma de garantir um julgamento justo e equitativo.
Isto revela zelo, mas não excesso dele, pela parte do bastonário. Faz bem em chamar à atenção aos intervenientes no processo Casa Pia apelando aos sentido de responsabilidade de todos eles, advogados e não só. O que já revela algum excesso de zelo é a reacção quase unânime e algo virulenta dos advogados de defesa no processo. A maneira como reagiram a um apelo algo genérico e bem intencionado do bastonário (sempre corajoso nas suas tomadas de posição) revela que enfiaram a carapuça. No passado as fugas de informação no processo Casa Pia e a tentativa de manobrar externamente e internamente ao processo prejudicaram a imagem da justiça e dos advogados. É de todo provável que isso continue a acontecer no futuro, tanto mais quanto mais nos aproximarmos da data do julgamento (que aliás, em mais uma manobra dilatória, pode voltar a ser adiado). Mas, sendo provável, não é desejável. Por isso, o bastonário fez muito bem em alertar para o facto.
Isto revela zelo, mas não excesso dele, pela parte do bastonário. Faz bem em chamar à atenção aos intervenientes no processo Casa Pia apelando aos sentido de responsabilidade de todos eles, advogados e não só. O que já revela algum excesso de zelo é a reacção quase unânime e algo virulenta dos advogados de defesa no processo. A maneira como reagiram a um apelo algo genérico e bem intencionado do bastonário (sempre corajoso nas suas tomadas de posição) revela que enfiaram a carapuça. No passado as fugas de informação no processo Casa Pia e a tentativa de manobrar externamente e internamente ao processo prejudicaram a imagem da justiça e dos advogados. É de todo provável que isso continue a acontecer no futuro, tanto mais quanto mais nos aproximarmos da data do julgamento (que aliás, em mais uma manobra dilatória, pode voltar a ser adiado). Mas, sendo provável, não é desejável. Por isso, o bastonário fez muito bem em alertar para o facto.
Rocco Butiglione é um homem inteligente
Rocco Buttiglione é um homem inteligente. Citado no blasfémias, o ex-comissário-to-be afirma querer fundar um lobby para lutar pela liberdade dos católicos face ao totalitarismo europeu de que ele próprio se considera vítima. E afirma: “In Europe our intellectuals were always convinced that modernity brings with itself the extinction of religious faith. Now America, the most advanced country in the world, shows us that religion may be and indeed is a fundamental element of a free society and modern economy.”
Podemos concordar ou discordar das suas opiniões, ou podemos mesmo chegar a rir! Mas a verdade é que são as suas opiniões e a verdade é que não foi indigitado por causa delas. Ao relançar o debate em termos de “politicamente correcto (em versão europeia) versus liberdade de opinião”, Buttiglionne pode conquistar mais concordâncias do que seria de supor à primeira vista. E isso é inteligente.
Podemos concordar ou discordar das suas opiniões, ou podemos mesmo chegar a rir! Mas a verdade é que são as suas opiniões e a verdade é que não foi indigitado por causa delas. Ao relançar o debate em termos de “politicamente correcto (em versão europeia) versus liberdade de opinião”, Buttiglionne pode conquistar mais concordâncias do que seria de supor à primeira vista. E isso é inteligente.
segunda-feira, novembro 15, 2004
A "questão" presidencial
A questão “PP” não foi a única que Santana teve que enfrentar no congresso e vai continuar a ter que gerir proximamente. Tão ou mais premente que essa era – e é – a questão presidencial. O “convite” ou “desafio”a Cavaco, como lhe quiserem chamar (embora a diferença não seja despicienda), é, do ponto de vista de Santana, um ramo de oliveira. Mas, do ponto de vista de Cavaco, o prazo imposto pela moção é um espinho no ramo. A bola agora está claramente do lado de Cavaco. Ou aceita o “convite” de Santana e se “porta bem” até anunciar a candidatura e nesse caso terá tanta mais benevolência do partido quanto melhor se portar até lá; ou continua orgulhosamente só e arrisca não contar com o partido na eleição presidencial. Aquele traço de imprevisibilidade que tão bem conhecemos em Santana Lopes (e que tantas vezes toca a irresponsabilidade) seria capaz disso.
Mas creio que Cavado se vai “portar bem” daqui para a frente, dando uma ajudinha ao governo aqui e ali, como a propósito das SCUT’s provou saber fazer, e mesmo, quem sabe, lançando de novo para a arena a sua “fera” Marcelo com um registo comunicativo (contraditório) mais pró-governo. Se isso acontecer, Santana põe o partido ao serviço de Cavaco e até é capaz de não fazer finca-pé com as datas: afinal, a “candidatura presidencial é uma questão pessoal”, que depende sobretudo dos timings e razões individuais dos potenciais candidatos.
Mas creio que Cavado se vai “portar bem” daqui para a frente, dando uma ajudinha ao governo aqui e ali, como a propósito das SCUT’s provou saber fazer, e mesmo, quem sabe, lançando de novo para a arena a sua “fera” Marcelo com um registo comunicativo (contraditório) mais pró-governo. Se isso acontecer, Santana põe o partido ao serviço de Cavaco e até é capaz de não fazer finca-pé com as datas: afinal, a “candidatura presidencial é uma questão pessoal”, que depende sobretudo dos timings e razões individuais dos potenciais candidatos.
Como Paulo Portas ganhou o congresso do PSD
É interessante este post no Blasfémias sobre o CDS-PP no consulado de Paulo Portas. De facto, olhando para trás, encontramos uma sucessão de líderes aos quais atribuiríamos sem hesitar mais estatura política que a Paulo Portas, mas cuja “obra política” à frente do partido não se pode comparar com a de Portas. Portas e Monteiro, o primeiro no partido o segundo na comunicação social, descobriram quase ao mesmo tempo que havia um espaço sociológico por preencher em Portugal: o da moderna direita liberal. A existência desse “espaço político desocupado” explica metade do sucesso recente do CDS-PP; a outra metade explica-a o “faro político” de Paulo Portas. Não devemos esquecer que o PP era, há não muito tempo, sobretudo durante o consulado de Monteiro, um partido sobre o qual pairava o espectro do desaparecimento. Hoje, instalado no Governo e a distribuir jobs pelos boys, o PP ganha mais força do que alguma vez teve.
E esse é o grande dilema que se coloca a um partido de maioria que não obtém maioria absoluta: governar sozinho, expondo-se a crises; ou apoiar-se no pequeno partido do lado fazendo-o crescer. O PS já teria tido há muito o mesmo problema se o PCP fosse um partido “como os outros” e pode tê-lo em breve com o BE. A consequência de o PSD ter dado ao PP um protagonismo que ele não tinha há muitos anos está no seu fortalecimento, ao ponto de se dizer que é ele, o partido pequeno, que lidera a coligação com o partido grande. Isto, obviamente, é algo difícil de engolir para os militantes do PSD, conforme ficou demonstrado no Congresso. Por isso se torna claro que, mesmo não estando fisicamente presente (porque na verdade pairou como um fantasma), Paulo Portas ganhou o congresso de Vila do Conde. E ganhou-o porque, mais uma vez, “obrigou” Santana Lopes a defender a coligação com unhas e dentes e ficou, outra vez, na posição “tu é que precisas de mim e não eu de ti”. Isso transparecia em surdina com Barroso e é ruidosamente manifesto com Santana. E porquê? Porque Santana não pode perder! Em primeiro lugar porque é um líder fraco devido às circunstâncias em que ascendeu à liderança; e em segundo lugar porque esperou demasiado tempo por este momento para arriscar perdê-lo. No congresso, Santana tinha duas alternativas: ou convencia o partido a preparar uma coligação eleitoral com o PP e ficava em posição de força não só no PSD como também na coligação; ou mobilizava o partido para apostar tudo na capacidade do PSD para ganhar sozinho e assumia uma posição de força perante o PP, arriscando terminar a coligação – e o governo – antes do prazo mas chegando às urnas numa posição clara de “ou nós, ou eles”.
Se a situação era pantanosa, agora ficou um pouco mais pantanosa, porque ficámos a saber, que, ao contrário do seu líder, o PSD não quer uma coligação com o PP, mas quer o poder a qualquer custo. Cabe a Santana Lopes decifrar o enigma. Conhecendo-se a errância de rumo tão pessoalmente característica do Primeiro Ministro, é de esperar a continuação do tortuoso caminho que temos vindo a trilhar. E, claro, quem se fica a rir é Paulo Portas.
E esse é o grande dilema que se coloca a um partido de maioria que não obtém maioria absoluta: governar sozinho, expondo-se a crises; ou apoiar-se no pequeno partido do lado fazendo-o crescer. O PS já teria tido há muito o mesmo problema se o PCP fosse um partido “como os outros” e pode tê-lo em breve com o BE. A consequência de o PSD ter dado ao PP um protagonismo que ele não tinha há muitos anos está no seu fortalecimento, ao ponto de se dizer que é ele, o partido pequeno, que lidera a coligação com o partido grande. Isto, obviamente, é algo difícil de engolir para os militantes do PSD, conforme ficou demonstrado no Congresso. Por isso se torna claro que, mesmo não estando fisicamente presente (porque na verdade pairou como um fantasma), Paulo Portas ganhou o congresso de Vila do Conde. E ganhou-o porque, mais uma vez, “obrigou” Santana Lopes a defender a coligação com unhas e dentes e ficou, outra vez, na posição “tu é que precisas de mim e não eu de ti”. Isso transparecia em surdina com Barroso e é ruidosamente manifesto com Santana. E porquê? Porque Santana não pode perder! Em primeiro lugar porque é um líder fraco devido às circunstâncias em que ascendeu à liderança; e em segundo lugar porque esperou demasiado tempo por este momento para arriscar perdê-lo. No congresso, Santana tinha duas alternativas: ou convencia o partido a preparar uma coligação eleitoral com o PP e ficava em posição de força não só no PSD como também na coligação; ou mobilizava o partido para apostar tudo na capacidade do PSD para ganhar sozinho e assumia uma posição de força perante o PP, arriscando terminar a coligação – e o governo – antes do prazo mas chegando às urnas numa posição clara de “ou nós, ou eles”.
Se a situação era pantanosa, agora ficou um pouco mais pantanosa, porque ficámos a saber, que, ao contrário do seu líder, o PSD não quer uma coligação com o PP, mas quer o poder a qualquer custo. Cabe a Santana Lopes decifrar o enigma. Conhecendo-se a errância de rumo tão pessoalmente característica do Primeiro Ministro, é de esperar a continuação do tortuoso caminho que temos vindo a trilhar. E, claro, quem se fica a rir é Paulo Portas.
sábado, novembro 13, 2004
A correlação entre a votação em Bush e o Q.I. médio dos americanos
Afinal, aqui está a explicação!
Não sei se tem fundamento científico, mas lá que tem lógica, tem.
Um amigo enviou-me este curioso quadro correlativo entre a votação nas eleições americanas e o Q.I médio dos habitantes de cada estado. A vermelho os Estados de Bush, a azul os de Kerry. O site onde se encontra parece que se tornou de repente extremamente popular.
Num registo mais sério (mas nem por isso menos "alinhado"), este outro sítio também demonstra que por detrás dos resultados pode haver leituras interessantes.
Quando se começarem a dissecar os resultados, o sistema eleitoral americano vai voltar a ser posto em causa pelos europeus e pelos americanos que gostariam de ser europeus e Bush vai continuar a governar. Mas, ainda assim, as análises são interessantes
Não sei se tem fundamento científico, mas lá que tem lógica, tem.
Um amigo enviou-me este curioso quadro correlativo entre a votação nas eleições americanas e o Q.I médio dos habitantes de cada estado. A vermelho os Estados de Bush, a azul os de Kerry. O site onde se encontra parece que se tornou de repente extremamente popular.
Num registo mais sério (mas nem por isso menos "alinhado"), este outro sítio também demonstra que por detrás dos resultados pode haver leituras interessantes.
Quando se começarem a dissecar os resultados, o sistema eleitoral americano vai voltar a ser posto em causa pelos europeus e pelos americanos que gostariam de ser europeus e Bush vai continuar a governar. Mas, ainda assim, as análises são interessantes
Cara lavada
Com este post assinalo um restyling do blogue. Agora sim, está no caminho certo. Legível, claro e interactivo. E vai passar a ter fotos!
"Almas Gémeas"
Surfando na internet descobri via Google dois outros blogues chamados Alma Mater. Um de um ex-estudante português na União Soviética, que é um bom início de pesquisa sobre como funcionava a educação universitária e o condicionamento ideológico na ex-URSS; e outro de uma vilacondense a criar raízes em Portel (meu adorado Alentejo...), com bonitas fotografias e ainda mais belos textos. Qualquer deles vale uma visita, mas, se me permitem, como o meu é um mês mais "velho" que o mais "velho" dos dois, mantenho o nome e a natureza, até porque o "espaço virtual" tem a grande vantagem de ser infinito.
sexta-feira, novembro 12, 2004
Clara Ferreira Alves
Esta declaração não apareceu transcrita em nenhuma das notícias publicadas sobre o depoimento de Clara Ferreira Alves na AACS. No entanto, parece-me de longe a mais importante de todas as que então gastaram uns litros de tinta. Felizmente a TSF fez “ouvir” essa declaração e pô-la online. Merece reflexão, mesmo alguns dias depois. Se calhar, sobretudo, vários dias depois.
“Acho que dirigir um jornal tornou-se hoje em dia um cargo político, não por ser um cargo de nomeação política, mas porque a gestão efectiva que hoje se faz dos múltiplos contactos, cumplicidades e guerras da política, é uma gestão puramente política. E no fundo é um cargo que tem que ser exercido com uma administração muito semelhante à da política. Portanto, é uma gestão política.”
“Acho que dirigir um jornal tornou-se hoje em dia um cargo político, não por ser um cargo de nomeação política, mas porque a gestão efectiva que hoje se faz dos múltiplos contactos, cumplicidades e guerras da política, é uma gestão puramente política. E no fundo é um cargo que tem que ser exercido com uma administração muito semelhante à da política. Portanto, é uma gestão política.”
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